Mas esses projetos existem aos montes, o que não existe é condição de 
viabilizar esses projetos...

Enfim, é a luta pelo capital sempre.


att.

Paulo

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Date: Fri, 11 Feb 2011 16:41:43 -0200
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Subject: [S-C] Pra que discutir com Madame?


Salve Tribuneiros!!!

Esse samba está estourado nas rádios na voz do Diogo Nogueira e resgatou um 
samba dos anos 50...

Bela sacada!

Deveriam haver projetos para resgate e releituras de sambas antigos e 
esquecidos, e até mesmo os maxixes, marchas, ranchos e outros gêneros que 
amalgamaram-se na criação do samba como gênero uno... Bem como os 
sambas-raiado, de terreiro e etc... Coisas que ficaram lá atrás e não podem se 
perder. 


Leiam essa matéria se quiserem.

Abs!
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Pra que discutir com Madame?

Madame diz que a raça não melhora

Que a vida piora
Por causa do samba
Madame diz que o samba tem pecado
Que o samba é coitado
Devia acabar
Madame diz que o samba tem cachaça
Mistura de raça, mistura de dor
Madame diz que o samba é democrata

É música barata
Sem nenhum valor
Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que o samba é vexame
Pra que discutir com Madame
No carnaval que vem também com o povo
Meu bloco de morro vai cantar ópera

E na avenida entre mil apertos
Vocês vão ver gente cantando concerto
Madame tem um parafuso a menos
Só fala veneno
Meu Deus que horror
O samba brasileiro, democrata
Brasileiro na batata é que tem valor.



Este samba da autoria de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida, de 1956,
incorporado ao repertório de João Gilberto com sotaque de bossa nova,
não é só mais uma canção valorizando o samba e dando de ombros para

aqueles que costumam desdenhar do gênero. A referida Madame que afirma
ser o "samba música barata, sem nenhum valor" realmente existiu.
Magdala da Gama de Oliveira, tornou-se conhecida como crítica de
rádio, escrevendo numa coluna do jornal Diário de Notícias (durante

três décadas foi um dos mais importantes jornais do país. Lidera a
circulação no Rio de janeiro e ganha a fama de um veículo de opinião
livre e independente, atingindo um alto padrão de credibilidade) e
assinando com o pseudônimo de Mag. Mag, conseguiu entrar para a

história da MPB, pelos ataques deferidos contra o samba. De acordo com
os opositores de Madame a intenção da autora era diminuir o samba,
desclassificá-lo como música brasileira.

Mas se Mag tinha seu espaço na imprensa para condenar a canção popular

e seus compositores, do outro lado havia aqueles que gastavam tempo e
pena para fazer a defesa do réu. Fernando Lobo, compositor e
jornalista, não suportando o pedantismo de Mag, escreve em 1944, uma
artigo na revista O Cruzeiro, utilizando-se inteligentemente do mesmo

repertório da inimiga do samba para desautorizar seus argumentos.
Assim, sob o título Sugestão a Madame, Lobo, responde às ofensas de
Magdala : "O dia de hoje está ai, bem diverso e distante da infância
de madame. Como está o samba? Ah! Nos EUA rolando dentro das películas

e passando nos microfones civilizados do mundo inteiro. Não são os
dentes estragados dos homens do regional, nem a ausência dos smockins,
nem o sono do tocador de cavaquinho ou os enfeites baratos das
cabrochas, que destroem o samba. Todos esses fatos são derivados de

uma situação social e material diversa de que madame conhece e
desfruta. O samba não tem culpa. Mozart que tinha maus dentes e não
pagava as dívidas, Chopin, a que George Sand muito ajudou. Schubert e
muitos outros, foram na época, os mesmos miseráveis que são os nossos

tocadores populares. (...). Vamos ver até onde chega a ignorância
humana! Portinari já pintou o samba, já refletiu nas suas telas a
expressão de nossa música. Villa Lobos aí está. Toda a grandeza de sua
obra é apoiada nos ritmos populares do Brasil. E os que vêm de fora,

da terra de Chopin, ou de Mozart, de Ravel ou de Stravinsky, ficam
sempre deslumbrados ante a beleza positiva e grandeza do nosso ritmo!
Por que matar o samba, ó impiedosa Madame? Sendo ele alegria da gente
humilde é também a alegria dos da sua classe e ao mesmo tempo o

alicerce de uma música definitiva que se esboça no cenário musical
brasileiro. (...). "

Nos anos 40 Carmen Miranda fazia sucesso nos Estados Unidos - país,
visto por muitos brasileiros, como o exemplo de nação moderna e

civilizada. Estrelando no cinema norte-americano, Carmen apresentava
na terra do Tio Sam e em outros países da Europa o samba como o ritmo
brasileiro. Se os yankees haviam aprovado o gênero, como Madame, tão
aculturada, podia reprová-lo? Continuando a desconstruir os argumentos

de Mag que insistia em desprestigiar o samba por ser música oriunda
das camadas populares, Lobo lembra da pobreza dos compositores
eruditos e da valorização da canção popular por artistas brasileiros
respeitados pela elite como o compositor Vila Lobos e o pintor Candido

Portinari.

Mas a contenda não para aí. Em 1946 foi a vez de Afoché indignar-se
com a arrogância elitista de Magdala e mandar-lhe um recado: "...
Temos lido críticas severas, principalmente de inimigos deliberados e

intransigentes da canção popular como essa sofisticada e venerável
matrona que se assina Mag e que não compreende outra música, outra
emoção, outro sentimento que não seja o RAFINÉE. Na mesma época que
vemos Villa Lobos Stokowsky, Mignone e outros musicistas de classe

exaltarem a música fonte, que é esta nascida da própria alma ingênua
da rua, do coração do povo, uma professora fracassada e medíocre e de
nível cultural abaixo da linha aceitável, investe diariamente, com a
bateria de sua intransigência, contra tudo que é música popular, que

vise a alegria da massa ou encontre o caminho de seu agrado. (...).
Todos os compositores brasileiros, a seu ver, são analfabetos e
ignorantes. É impossível para Mag, que um lustrador de móveis como
Heitor dos Prazeres cante com ingenuidade e sincera emoção a canção de

seu amor. E no entanto a National Gallery, de Londres expôs quadros
desse mesmo lustrador de móveis, Heitor dos Prazeres. Crítica é livre,
mas o leitor dessas críticas exige, antes de tudo, honestidade. E é
permitido voltar-se contra os pareceres mal dados, se eles revelam

vícios de origem, suspeição má fé e intenção de ser do contra de
qualquer jeito. Se a maneira de Mag analisar as canções populares
variasse à medida que fosse achando exceções, ainda era possível
acreditar em um louvado propósito. Mas nada disso acontece. Tudo é

ruim. Nada presta...."

O jornalista não polpa palavras, pretendendo desacreditar Magdala
frente ao leitor a acusa de incompetente para criticar o samba, Para
Afoché, o ponto de partida de Mag era o preconceito, assim tendo só

ouvidos para a música erudita, o rafinée, não era capaz de discernir a
boa da má música popular fazendo tábua rasa de tudo.
Mas não bastasse os revides dos jornalista nos anos 40, às posições de
Magdala assumidas publicamente em relação ao samba, fariam render

ainda, dez anos depois desse último artigo assinado por Afoché, a
canção marota da autoria de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida, Pra
que discutir com Madame. Aliás essa é uma boa pergunta, já que Mag era
considerada limitada intelectualmente, equivocada e pretensiosa ao

querer julgar o que deveria e o que não deveria ser a música
brasileira, por que mereceu tanto destaque, dispondo estes jornalistas
a combate-la?
O fato é que essa contenda, embora fosse travada com Mag, tem início

lá nos anos 30, quando o rádio, tateando em busca de uma programação
mais ao gosto do ouvinte, passou a difundir a canção popular carioca -
de acordo com os registros da imprensa da época - como a canção
popular nacional. No mesmo período, investindo no sucesso que o samba

conquistava no rádio, o cinema nacional produziu os musicais
carnavalescos, contribuindo para tornar o gênero conhecido
nacionalmente.

A luta das representações em torno da constituição de uma identidade
nacional marcaram sobremaneira o governo de Getúlio Vargas que

pretendia promover a unidade a fim de assegurar o seu poder,
eliminando as possíveis tensões entre os diferentes segmentos sociais.
Dessa maneira, ao mesmo tempo que encontravam-se sediados no
Ministério da Educação e Saúde compositores eruditos como Villa Lobos,

Vargas não deixava de reconhecer os sambas e as marchinhas, como
representante legítimos da música brasileira.

Todavia, se essa era a postura de um governante populista, que buscava
harmonizar a sociedade ao promover um simbólico comum, capaz de

integrar aqueles setores sociais, até então marginalizados de
cidadania, no cotidiano as rixas continuavam. Aliás em torno das
mesmas representações que pretendiam promover a unidade, como por
exemplo a música.


O samba, pela sua origem negra e popular sempre foi hostilizado por
aqueles setores mais conservadores que se viam identificados com a
cultura européia. Para estes segmentos, aceitar o samba como música
nacional, significava internamente "misturar-se ao povo" que tanto

rejeitavam e externamente admitir um Brasil atrasado, primitivo
inferior às nações desenvolvidas. Por isso pessoas como Magdala
tentavam a todo custo rechaçar o samba como identidade nacional. Esta
é, portanto, uma longa história que não termina nos anos 30, ou nos 40

e tão pouco nos 50. Apesar de nos anos 60 a bossa nova aproximar os
mais elitistas da canção popular, a letra da composição de Haroldo
Barbosa não perde a sua contemporâneidade, pois as fronteiras sociais,
apesar de todo o hibridismo reinante na cultura de massa, continuariam

se perpetuando simbolicamente através da música.



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