http://carnaval.uol.com.br/2011/ultimas-noticias/redacao/2011/02/15/apos-esquecer-cartola-mangueira-revive-nelson-cavaquinho-no-centenario-do-menestrel.htm
Mantendo a tradição verde e rosa, a Estação Primeira de Mangueira quer fazer em
2011 um desfile enxuto e mais atento a detalhes técnicos, em ano em que
homenageia o centenário do poeta e compositor mangueirense Nelson Cavaquinho.
Em 2008, a escola foi criticada por não ter lembrado os 100 anos de um de seus
fundadores, o cantor e compositor Cartola. Naquele ano, a escola amargou o
décimo lugar com um enredo em homenagem ao frevo. A escola foi “pré-julgada por
isso”, avalia o jovem carnavalesco Wagner Gonçalves, de 32 anos, ao destacar
que, desta vez, a verde e rosa não vai deixar passar em branco o centenário do
compositor cuja história se confunde com a trajetória da Mangueira.“A nossa
proposta é fazer uma Mangueira mais enxuta e compacta, mesmo com quase 4.500
componentes. Sem falsa modéstia, o desafio é a Mangueira ser a grande campeã
desse Carnaval porque é uma escola de muita força, tem uma comunidade que está
envolvida e
feliz com o enredo”, diz Wagner em entrevista ao UOL. O carnavalesco é uma das
novidades da verde e rosa e um dos mais jovens do Grupo Especial. Ele assina o
enredo “O Filho Fiel, Sempre Mangueira” junto com o experiente Mauro Quintaes,
de 53 anos e há quase 30 de Carnaval.A disputa pela escolha do samba-enredo no
final do ano passado bateu recorde com o número de sambas inscritos: 140 letras
e a briga foi acirrada. A escola recebeu composições de todo o Brasil. “Foi um
recorde. Eu fiquei atento aos sambas na semifinal e qualquer um daqueles seis
atendia ao projeto. Estava tranquilo porque o Ivo Meirelles [presidente da
escola] é músico e tem um apuro auditivo.”, defendeu Wagner.Após a escolha,
foram dois meses de criação e construção da sinopse que recebeu a colaboração
do jornalista e estudioso do samba, Sérgio Cabral, e da cantora, amiga e
principal intérprete de Nelson Cavaquinho, Beth Carvalho. Para fugir do senso
comum,
a escola não vai fazer uma homenagem póstuma ao célebre compositor -- pelo
contrário, quer trazê-lo de volta à vida e à avenida. “Como uma autobiografia,
é o Nelson que apresenta o enredo, em primeira pessoa. Isso gerou uma
identificação imediata com a escola e a possibilidade da narrativa ser
atemporal. Para o mangueirense, ele está vivo. É importante a comunidade se
reconhecer. O termômetro é a própria comunidade e ela abraçou a escola”,
explica Wagner.Na avenida, o carnavalesco promete novidades estéticas. O maior
carro será o abre-alas: com 40 metros de comprimento e 9,5 m altura, ele terá
uma “forma mais arrojada”, mantendo a tradição da escola de apresentar a velha
guarda e os baluartes da Mangueira, que são as raízes da agremiação. “O
abre-alas e o último carro são grandes intervenções para a estética da
Mangueira. É uma novidade para a escola que é tradicional. Já vai ser uma
quebra de paradigma”,
descreve Wagner. Beth Carvalho vai estar presente no terceiro carro alegórico,
que representará o bar Zicartola.A Mangueira leva para a avenida três
esculturas de diversos tamanhos de Nelson Cavaquinho, cada uma com formas
diferenciadas. No carro que fará alusão ao Zicartola, o escultor Marcelo
Rezende criou um Nelson realista do tamanho natural. Esta obra está sendo
guardada a sete chaves. As outras duas esculturas foram produzidas pelo
escultor oficial da escola, Glinston Dias de Paiva. Uma das obras tem três
metros de altura e é um busto do Nelson de isopor com revestimento em papel que
vem com o violão inclinado no carro intitulado "Folha Secas". Levou duas
semanas para a obra ser finalizada e será destaque do carro. Mas o que promete
levantar o público na avenida é a segunda escultura que estará no carro
abre-alas. Em uma obra com cinco metros de comprimento, Nelson Cavaquinho
aparecerá como se estivesse flutuando, de corpo inteiro,
deitado e tocando violão.Orçado em seis milhões de reais, o Carnaval deste ano
da Mangueira ainda carece de recursos e faltando vinte dias para o desfile,
ainda há muitos preparativos não finalizados. “O presidente Ivo Meirelles está
correndo atrás arrumando parcerias. A gente conta com o repasse da Liesa (Liga
Independente das Escolas de Samba), televisões, venda de ingressos e movimento
de quadra. Mas grande parte é da própria Mangueira que está quase se
autossustentando”, conta Wagner.Velha-guarda vibra com enredo sobre o amigo
NelsonEnquanto isso, na quadra da escola, carinhosamente apelidada como
"Palácio do Samba", o enredo do Nelson Cavaquinho inspira dançarinos e
componentes da velha-guarda da Mangueira que conviveram com o poeta que, se
estivesse vivo, completaria 100 anos no dia 19 de outubro. “Eu o conheci, o pai
da minha filha tocava cavaquinho com ele. É um prazer homenageá-lo com todo o
amor e carinho este ano”,
disse Leia Ferreira dos Santos que aos 78 anos ainda desfila na ala das
baianas. Nascida na comunidade da Mangueira, desde a década de 30, Dona Leia
desfila na Mangueira e nunca deixou a escola por nada.Assim como o compositor
mangueirense, ela também pegou o começo da história da escola. E a expectativa
este ano é levar o título, garante. Dona Leia é uma das mais antigas a desfilar
na ala que conta com 120 baianas, na qual geralmente as mulheres têm idade
entre 50 e 60 anos. O último título de campeã foi em 2002, quando a verde e
rosa apresentou o enredo sobre o nordeste. “Agora estou adorando o samba enredo
do Nelson Cavaquinho, é muito forte. O melhor samba enredo é o da Mangueira.
Carnaval é o que eu mais amo na vida. Quando criança, o meu sonho era desfilar
na escola, hoje posso dizer que cresci e saí na Mangueira. Está na hora de
ganhar de novo”, brinca Maria das Grassas dos Santos, de 60 anos, integrante do
departamento
feminino e comandante da ala do segundo setor.A presidente de honra da escola,
Arlete Silva, mais conhecida como Tia Suluca, disse que conheceu Nelson e que
“ele se dava com todo mundo”. Aos 83 anos, Arlete é a baiana mais antiga da
Mangueira e revela que já perdeu a conta de quantos anos está na escola.
Com pique, Tia Suluca frequenta todos os sábados a quadra vestindo a faixa
verde e rosa de presidente de honra e, na hora do desfile, ela prefere seguir a
pé. “Não tem como se aposentar do samba, só quando eu morrer. Eu quero é me
divertir”.O samba está no sangue da família de Tia Suluca. Enquanto Arlete
desfilava como baiana, seu irmão, Helio Laurindo da Silva, mais conhecido como
Mestre Delegado, foi o grande mestre-sala da Mangueira.Durante 36 anos,
Delegado saiu como mestre-sala e arrancou a nota máxima em 10 campeonatos
consecutivos. Isso ficou marcado na memória, sempre que perguntado ele repete o
feito em todas as conversas. Hoje, aos 90 anos, com seu inseparável chapéu
panamá, um apito pendurado no pescoço e com o seu bastão verde e rosa e toques
de dourado da época de mestre-sala, o elegante Delegado o carrega como se fosse
um amuleto há, pelo menos, 60 anos que frequenta todos os sábados a quadra da
escola.“A Mangueira
é para mim a vida”, diz. Humilde e solitário, Delegado sobe sozinho as escadas
da entrada da escola geralmente por volta das 11h da noite e vai ao seu lugar
cativo, em frente ao palco principal e às caixas de som. Assim como sua irmã,
nascido e criado na Mangueira, Delegado disse que nunca desfilou em outra
escola. Esta é do coração, garante.
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