O Caderno "Diversão & Arte", do jornal Correio Braziliense, publicou
hoje uma matéria sobre a Beth Carvalho.
Por meio do link em seguida, o acesso à reportagem:
http://www2.correiobraziliense.com.br/euestudante/noticias.php?id=22691
[1]
O texto está abaixo transcrito.
Caio Tiburcio
10/09/2011 -
A MADRINHA DO SAMBA
Gabriela de Almeida
Maíra de Deus Brito
[2]
_Uma das grandes damas da Mangueira, a cantora Beth Carvalho relembra
os momentos mais importantes dos 45 anos de carreira._
Zona Norte do Rio de Janeiro, fim da década de 1970. Beth Carvalho
chega à quadra do bloco carnavalesco Cacique de Ramos levada pelo
ex-jogador do Vasco da Gama Alcir Portela. “Lá tinha uma rapaziada
tocando samba com uns instrumentos diferentes, como repique de mão,
banjo, tantã, e eu adorei. Um ano depois, no fim de 1977, eles
estavam tocando comigo no disco Pé no chão, que eu considero um
divisor de águas”, conta Beth sobre o encontro com o Fundo de
Quintal, o grupo mais importante de Ramos e um dos primeiros a ser
batizado pela cantora carioca.
A turma liderada por Ubirany, Sereno e Bira Presidente foi só o
começo da extensa lista de afilhados musicais da considerada Madrinha
do Pagode e Rainha do Samba. Almir Guineto, Jorge Aragão, Luiz Carlos
da Vila e Zeca Pagodinho são alguns dos artistas que levam as
bênçãos da cantora. “O Cacique enchia de novos cantores porque
todo mundo sabia que a Beth Carvalho estava lá. As escolas de samba
tinham o papel de revelar novos talentos, mas não estavam fazendo
isso. Hoje, é só samba-enredo. E o Cacique passou a ser o lugar.
Todo mundo ia lá para cantar os sambas para a Beth ouvir. E um deles
foi o Zeca, que conheci em 1984”, lembra.
Apesar de mangueirense, Beth foi a artista que mais cantou a Velha
Guarda da Portela. “No samba, todo mundo é irmão. Na hora do
desfile fica essa coisa de tirar primeiro lugar, mas somos parceiros.
O pessoal da Velha Guarda tem ótimos compositores e fui me
apaixonando. Mas gravei 80 sambas só da Mangueira. Exaltação à
Mangueira é um dos imbatíveis. É um hino. Tanto que é a música
que abre o desfile, antes de cantarem o samba-enredo”, explica.
O amor pela verde e rosa é tamanho que nem incidentes como o do
desfile em 2007 abalaram o carinho pela escola criada pelo mestre
Cartola. Naquele ano, a cantora foi retirada de um carro alegórico
pouco antes do desfile e, em razão de problemas na coluna, não pôde
desfilar no chão. Na época, a diretoria alegou que houve um
desencontro. Na confusão, Beth ficou fora do desfile, assim como
Nelson Sargento. O filho e a mulher do compositor de Agoniza mas não
morre não receberam as fantasias e ele decidiu não entrar na avenida
sem os familiares.
“Em 2009, o Ivo foi na minha casa pedir desculpas pelo ocorrido. A
diretoria que me tirou do carro foi a mesma que deixou de lado o
centenário do Cartola, em 2008. Na última hora colocaram um Cartola
no meio do forró, mas não adiantou. Agora, a Mangueira está no
caminho certo. O enredo do ano que vem é Vou festejar, sou Cacique,
sou Mangueira. Me sinto homenageada. São três vezes Beth
Carvalho”, orgulha-se.
SAMBA E POLíTICA
Socialista declarada, Beth Carvalho sempre teve uma participação
ativa na política. Muito por causa do pai, comunista de coração e
fã de Luis Carlos Prestes e Leonel Brizola. “Ele sempre estava do
lado certo (risos), por isso o segui. Ele me explicava o porquê das
coisas”, conta. Nos anos 1970, ela chegou a cantar em Cuba e depois
voltou como convidada de honra, quando conheceu pessoalmente Fidel
Castro. “Foi muita emoção. Ele é fantástico, inteligente,
engraçado”, revela.
As convicções partidárias de Beth não tiveram tanto impacto em
suas músicas quanto na relação com os meios de comunicação. “Em
alguns momentos, senti um boicote velado da mídia. Ninguém
declarava, mas eu não fazia os programas que tinha que fazer. Eles me
‘esqueciam’. Para entrevistar, falar sobre Cartola e Nelson
Cavaquinho, sempre chamavam. Mas para divulgar o novo trabalho, não.
Chamar para esses depoimentos é até uma forma de disfarçar o que
está acontecendo. Até hoje eu sinto isso. Agora, é a prova dos
nove. Em outubro, lanço um disco de inéditas e vamos ver como vai
ser o comportamento”, desabafa.
MEMóRIA VIVA
ELIZETH CARDOSO
» Meu pai era amigo dela, mas quando a conheci de verdade, já era a
cantora Beth Carvalho. Ela apresentava um programa na TV Record e me
chamou para cantar lá. Ela tinha um carinho enorme por mim. Dizia que
eu era substituta dela e me tratava como filha. Cheguei a gravar com
ela Sorriso de criança, da Dona Ivone Lara. É uma música
belíssima, que está no disco Saudades da Guanabara. Foi uma das
últimas gravações dela. Achei ela muito magra, mas só descobri da
doença (o câncer) depois. Fiquei triste e abalada. Dediquei meu
primeiro disco a ela e à Clementina, meus ídolos maiores.
CLEMENTINA DE JESUS
» Quando a vi cantar, decidi que ia seguir a carreira. Eu entendi a
Clementina, entendi aquela mulher maravilhosa, aquela arte, aquela
negritude. Senti que tinha identidade com aquilo tudo. A Clementina
resumiu toda a africanidade da preta velha, da mãe preta, da rainha
Quelé. Ela estreou com 63 anos no show Rosa de Ouro, no Teatro Jovem,
em Botafogo. Esse espetáculo, dirigido por Hermínio Bello de
Carvalho, também revelou outro cantor, o Paulinho da Viola.
BOSSA NOVA
» A bossa nova é um tipo de samba, João Gilberto é um sambista. A
Bossa foi muito benéfica para mim. Peguei tudo de bom que ela tinha:
o preciosismo das notas, as melodias, o violão com acordes
dissonantes. Todo sábado, eu ia para a casa do Tom, lá a gente
brincava de fazer música. O Tom adorava fazer vocal. Naquele momento,
mostrávamos as nossas músicas inéditas. Eu ouvi Matita Perê em
primeira mão.
ANDANçA
» O Brasil todo parou para ver o Festival Internacional da Canção
(1968). Entrei e vi aquela plateia de 15 mil pessoas, foi uma emoção
inenarrável. Na verdade, as pessoas adoraram de imediato, como se a
música (Andança) já fosse conhecida. Foi lindo, inesquecível. A
gente tirou o terceiro lugar. Os autores eram novos e desconhecidos
até então (Paulinho Tapajós, Edmundo Souto e Danilo Caymmi). Só
perdemos para Geraldo Vandré (Para não dizer que falei de flores) e
Tom e Chico Buarque (Sabiá). Foi uma vitória enorme, uma honra. Eu
tinha 22 anos, já tinha gravado um compacto, mas a partir dali minha
carreira decolou.
NELSON CAVAQUINHO
» Com o Nelson foi muito intenso. Ele se tornou uma pessoa da minha
família, passava o Natal comigo, ano novo, aniversário da Luana
(filha) e era meio que avô dela. A gente fazia show juntos,
passávamos um mês no Nordeste com o projeto Pixinguinha, e
cantávamos no projeto Seis e Meia, no teatro João Caetano. Foi uma
convivência de muito amor. Eu era boêmia, ele também, agora sou
boêmia de guaraná (risos). Lá atrás, ele gravou com a Dalva de
Oliveira, com Roberto Silva e depois sumiu. Ele ressurgiu com a Nara
Leão. Depois eu e Clara Nunes começamos a gravar o Nelson e ficou
para todo e sempre. Foi quando gravei Folhas secas, em 1972.
CARTOLA
» Ele foi lançado na época de Francisco Alves e relançado pela
Nara Leão, com o Sol nascerá, e sumiu de novo. Depois, reapareci com
ele em 1975, quando gravei As rosas não falam. A Jovem Guarda foi um
movimento que mexeu muito com o samba. A partir daquele momento, o
Cartola ficou desgostoso, sumiu da Mangueira e até compôs
Desfigurado, que é dessa fase. Ele sempre foi maravilhoso, sempre foi
grande e me tratava como filha. Eu ia na casa dele tocar violão e
comer um feijãozinho que a Dona Zica fazia. Era nesses momentos que
ele me mostrava uma porção de música nova. O mundo é um moinho,
Esqueça, só obras-primas que fui gravando ao longo da minha
carreira. A primeira que escolhi foi As rosas não falam, que estourou
no Brasil inteiro e selou nossa amizade.
http://www2.correiobraziliense.com.br/euestudante/noticias.php?id=22691
[3]
_______________________________________________
Tribuna Livre, uma lista de discussão de Samba & Choro
Para cancelar: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Assine: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Estatutos da Gafieira: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/estatutos