Desculpem o tamanho dessa msg. Por favor não a citem inteira se forem comentar.
O professor da disciplina "Marketing" do MBA que estou fazendo cunhou uma pérola: usou o mercado de software como um exemplo de setor econômico onde NÃO HÁ monopólio. Depois de algumas horas colocando meu queixo de volta no lugar depois de ter lido isso eu resolvi reagir postando no fórum do curso (que é desenvolvido no Moodle) a minha opinião. Confesso que ainda estou espantado. Vejamos alguns excertos para a apreciação dos colegas. jggouvea, 11/04: Em relação à afirmação do Professor, no sentido de que não existe monopólio na indústria de software, gostaria de questionar se não se configura um monopólio quando uma mesma empresa, a Microsoft, detém 95% do mercado de sistemas operacionais para usuário final (MS Windows), 85% do mercado de navegadores de internet (MS Internet Explorer), 75% do mercado de aplicativos de escritório (MS Office), mais de 80% do mercado de aplicativos de execução de multimídia (Windows Media Player) e ainda detém significativas participações em outros setores, como jogos (Xbox e jogos para plataforma Windows, como World of Warcraft, Age of Empires, Flight Simulator), servidores para Internet (IIS, com 40% do mercado), etc. Gostaria de questionar se não se configura monopólio quando esta empresa, valendo-se de sua predominância passa a ditar as regras do mercado, eliminando concorrentes (como a Netscape e a Real Networks) e influenciando até mesmo o funcionamento do sistema judiciário americano (investigação de monopólio pelo Departamento de Justiça dos EUA arquivada após gestões de Bill Gates junto a George W. Bush). Finalmente, gostaria de questionar se não se configura um monopólio quando o simples fato de alguém não usar o sistema operacional da Microsoft começa a restringir-lhe a liberdade de uso de seu computador. Muitos equipamentos, como modems, impressoras e até teclados, são desenvolvidos para uso no Windows e não funcionam em sistemas concorrentes, o que impede o usuário de migrar para a concorrência caso fique insatisfeito com o Windows. Acredito que o professor cometeu um erro ao fazer a afirmação acima — ou então utilizou uma definição de monopólio desenvolvida de modo a especificamente não considerar a dominação dos setores-chave do mercado de software pela Microsoft como um monopólio. lbd, 12/04 (o grifo é meu): Com certeza em alguns softwares (os que vc citou) há uma predominancia (leia-se monopólio) da Microsoft, mas o mercado de softwares não é um monopólio. ***Sistemas operacionais (Windows, Mac) são muito complexos e poucos detem o conhecimento e recursos necessários para criar um***. Ainda assim temos o Linux que é livre. Softwares anti-vírus temos vários (inclusive gratuitos) mas somente alguns poucos tem uma parcela significativa no mercado (isso é monopólio?). E quanto aos jogos? Vc citou alguns mas existem milhares de outros desenvolvidos em toda parte do mundo (inclusive no Brasil, lembra-se do Porto Digital em Recife?). Penso que o professor estivesse falando das mais deversas empresas desenvolvedoras de softwares, e dessa forma não configuraria monopólio. Concordo que em determinados setores da industria de softwares há monopólio, mas não a industria toda. lalv, 16/04 (fud): 1) Biu guêites apenas está colhendo os frutos de seu investimento nos anos 80 num sistema operacional que a IBM deixou de lado, achando que o importante era o hardware e não o software. Ele viu na época uma galinha dos ovos de ouro e cuidou bem dela. 2) O windows é o mais usado, e será ainda por muito tempo, por várias razões, dentre elas: mais fácil de usar, mais fácil de instalar, e mais fácil de entender. Enquanto o MAC ser um sistema fechadíssimo, caro, de acesso restrito ao povão, e o Linux ser um verdadeiro parto pra se instalar e fazer funcionar simples periféricos como uma placa de modem, o Windows vai deitar e rolar. Tenho um computador comum, igual ao que todos tem, já tentei intalar 4 versões atualizadíssimas de Linux, e em todas elas ao menos uma coisa não funcionou: ou o drive de DVD, ou o modem, ou a placa de som, ou a quantidade de memória, coisas que até o WIN98 reconhece facilmente. ampf, 17/04 (grifo meu): lalv, quando o Windows começou, nem era sistema operacional, era apenas um interface gráfico amigável que rodava sobre DOS. O segredo do sucesso do Windows do Bill Gates é que tornou fácil o uso do computador por não iniciados. O sucesso foi tão grande que o Windows em versões posteriores passou a ser sistema operacional, inicialmente com caracteristicas monousuário e mono tarefa. O UNIX nasceu sistema operacional, multiusuário e multitarefa, o problema é que no início ninguém se preocupou com o ser amigável, pois os computadores não eram populares e tinham poucos recursos e eram utilizados por iniciados e que utilizavam tranquilamente os comandos dir, chdir, remove, print e outros. Hoje os UNIX like já dispõem de interfaces gráficos bam mais amigáveis, mas ***agora já é tarde, a M$ assumiu a liderança de mercado e resta pouco para os outros.*** jggouvea, 17/04: Mas isso não muda o fato de que existe um monopólio. Eu não estou discutindo porque se chegou a esse monopólio, mas sim que ele existe. Quanto ao Windows ser mais "amigável", isso é relativo: boa parte do hardware que ele "reconhece" resulta de drivers fornecidos pelos próprios fabricantes -- que os fornecem porque o Windows tem 90% do mercado. A Microsoft há muito tempo deixou de se preocupar com drivers para periféricos, pois os próprios fabricantes fazem isso por ela. Enquanto isso os desenvolvedores do Linux tem que fazer "na unha" os drivers -- na maioria das vezes sem ter acesso às especificações do hardware, que simplesmente não são fornecidas pelos fabricantes. Os erros que você mencionou em suas instalações são normais porque a maioria das pessoas, inclusive você, ao comprar computador não se preocupa em comprar hardware compatível com Linux. Então compram impressoras que funcionam apenas com drivers proprietários (essas são mais baratas), winmodems, etc. O Linux tem muitos defeitos, como tudo que é obra do ser humano, mas tem algumas qualidades também, para contrabalançar: privacidade, maior estabilidade, imunidade aos vírus de Windows, reconhecimento nativo de boa parte do hardware existente, melhor uso de memória (usa RAM em vez de swap), além de dar mais "poder" ao usuário. Cada um tem o direito de escolher o sistema que prefira usar, mas quando chegamos ao ponto em que 90% "escolhem" o mesmo sistema e os demais 10% começam a ter problemas por ter feito escolha diferente, isso é monopólio. jggouvea 18/04: Não é verdade que o Unix não seja amigável. Quando ele foi criado, em 1972, ele era a coisa mais amigável que se poderia imaginar: em vez de alimentar o computador com fórmulas em assembly o programador o alimentava com comandos em inglês!!!! Uma revolução. O problema é que ele foi evoluindo cada vez mais lentamente por falta de concorrência e porque seus usuários achavam que ele já estava bom do jeito que estava. piscando Outro problema foi que as diversas empresas que produziam versões de Unix faziam seus sistemas incompatíveis entre si. Com isso os programas que eram feitos no HP-UX, por exemplo, não rodavam no SunOS, nem no BSD, nem no Unix original (AT&T). O que aconteceu com o Unix nos ensina muitas lições de marketing: 1 - A falta de inovação leva um produto à obsolescência, até ser considerado um paradigma de atraso. 2 - A fragmentação do Unix facilitou a dominação do mercado pela concorrência (dividir para reinar). Se os diversos produtores de Unix tivessem cooperado o Unix deteria hoje um monopólio ainda maior que o da Microsoft (em 1980 praticamente não havia computadores que não rodassem Unix). A própria Microsoft começou fazendo um Unix e o MS-DOS era um aplicativo educacional destinado a ensinar informática para crianças! 3 - Não basta que um produto seja melhor. É preciso que as pessoas continuem achando que ele é o melhor. E para isso é preciso que as pessoas possam usá-lo. Essa lição foi aprendida pelos desenvolvedores do Linux, que têm dedicado muito mais tempo a tornar o sistema bonito e amigável do que a aperfeiçoar sua ja excelente confiabilidade. Veja o caso do Gnome, do Beryl, do KDE: eles já tinham interfaces gráficas com efeitos 3D desde 2004 e só agora o Vista implantou algo semelhante. rms, 18/04: Sei que a questão aqui é meio / muito técnica, mas lá vai a opinião de um semi-leigo no assunto: As empresas adotam o Windows porque ele é popular, ou seja, todo mundo sabe usar, o Linux, está ocupando o seu espaço, principalmente quando escolas passam a difundir esse sistema, e o OS X da Apple, é uma Ferrari, para poucos. Sei lá se estou certo ou errado mas essa é a minha percepção. jggouvea, 19/04: Você não entendeu errado, só que você não pegou em perspectiva: * Diversas versões do Windows: 93% * Diversas versões do Mac: 5 % * Linux: 1% * Outros (BSD, HP-UX, SkyOS, AROS, Solaris, e sistemas jurássicos, como Amiga, NeXT, DOS, etc.): 1% O linux já foi muito longe, mas ele tem uma barreira: ele é um competidor desafiante em um mercado monopolizado. * O Windows monopoliza as vendas de PCs: todo hardware vendido legalmente (não contrabandeado) embute uma taxa para a Microsoft. Certas marcas de computadores custam até mais caro se você fizer questão de não comprar com Windows porque a MS dá subsídio ao fabricante. * O Windows monopoliza o conceito de SO: as pessoas resistem a qualquer design que não envolva uma barra de tarefas, ícones de área de trabalho, etc. * O Windows monopoliza a imprensa especializada: raramente você lê alguma coisa sobre outro SO. * O Windows monopoliza o mind-share: os produtos vêm com selo de compatibilidade "Designed for MS Windows" Tudo conspira para que as pessoas acreditem que o Windows é o único sistema operacional que existe. Já vi muita gente dizer que "O Linux e o Mac são tipos diferentes de Windows". Falando em termos de Marketing, o Windows é o caso clássico de sucesso de marketing: ele começou em um nicho (software educacional para crianças), detectou uma demanda mais ampla por software amigável, supriu essa demanda primeiro (mesmo com custos de segurança e de concepção de design), soube apossar-se da mentalidade do usuário, destruiu ou "domesticou" concorrentes (Netscape, Real, StarDiv, Corel, Novell, Symantec) e agora detém o controle absoluto do mercado. Portanto, leis que favoreçam outros SO não são contra a liberdade do usuário, mas sim a favor: os governos precisam criar condições para que exista pelo menos um nível limitado de competição nessa área senão a Microsoft pode chegar dentro em breve a exercer poder numa escala nunca vista (trocadilho: o Windows Vista só roda programas e só reconhece hardware se os fabricantes tiverem homologado com a Microsoft!!!). ----- José Geraldo -- Interessado em aprender mais sobre o Ubuntu em português? http://wiki.ubuntu-br.org/ComeceAqui - ubuntu-br mailing list [email protected] https://lists.ubuntu.com/mailman/listinfo/ubuntu-br

