Bom dia, pessoas.
Em Ter, 2008-08-05 às 11:55 -0300, Reginaldo Radel escreveu:
> Educa Brasil, a Gente Merece !!!!
>
> Uma bela biblioteca digital, desenvolvida em software livre,
> mas que está prestes a ser desativada por falta de acessos.
> Imaginem um lugar onde você pode gratuitamente:
>
> · Ver as grandes pinturas de Leonardo Da Vinci ;
> · escutar músicas em MP3 de alta qualidade;
> · Ler obras de Machado de Assis Ou a Divina Comédia;
> · ter acesso às melhores historinhas infantis e vídeos da TV ESCOLA;
> · e muito mais....
> Esse lugar existe!
> O Ministério da Educação disponibiliza tudo isso, basta acessar o site:
> www.dominiopublico.gov.br
>
> Só de literatura portuguesa são 732 obras!
> Estamos em vias de perder tudo isso, pois vão desativar o projeto por desuso,
> já que o número de acesso é muito
> pequeno. Vamos tentar reverter esta situação, divulgando e incentivando
> amigos, parentes e conhecidos, a utilizarem essa fantástica ferramenta
> dedisseminação da cultura e do gosto pela leitura.
> Divulgue para o máximo de pessoas!
>
> --
> Use Linux e Navegue com Segurança
>
Não quero parecer falacioso, mas como bibliotecário, acho que posso
escrever algumas linhas sobre o motivo de o sítio
www.dominiopublico.gov.br viver numa situação de desuso.
Todas as bibliotecas brasileiras estão em desuso. Sejam elas físicas ou
virtuais.
E isso se deve por dois motivos principais. Primeiro, à formação
universitária, fechada numa concepção do "bibliotecário guardião do
saber" incapaz de absorver e aplicar mudanças em suas próprias unidades
de informação.
Se não, vejamos: quantos bibliotecários sabem desenhar e implantar bases
de dados? Quantos sabem como *realmente* funciona o MARC21 ou implantar
o Dublin Core? Quantos deixaram de atualizar (ou abandonou as) fichas de
busca manual? Quantos iniciaram projetos de digitalização e
disponibilização de dissertações em bibliotecas universitárias via
portal na (intra ou inter) net?
Aqueles que sabem fazer apenas isso que relatei ("Mas espere! Tem
mais!") sabem porque buscaram aprender como fazer, já que em seus cursos
certamente ainda há uma resistência por parte de
bibliotecários-professores que estacionaram em 1986 e no AACR2, para
eles o ápice da biblioteconomia brasileira (junto à famigerada Tabela
PHA :D ), de eles mesmos se atualizarem nas novíssimas teses da ciência
da informação para ensiná-las nas salas de aula. O resultado é que temos
hoje tecnologia para quebrar as paredes das bibliotecas e disponibilizar
o conhecimento mais amplamente mas pouquíssimas pessoas para meter a
marreta nelas.
Segundo, à resistência das organizações que mantêm bibliotecas em
reconhecer o bibliotecário como elemento específico para a disseminação
da informação e não um simples guarda-livros, situação provocada pela
falta de conscientização da própria classe.
Pois quantos bibliotecários _brigam_ para aumentar os recursos da
biblioteca no orçamento de suas organizações? Quantos implementam ações
culturais nela, mostrando que a biblioteca não guarda apenas os seus
livros? Quantos promovem conscientização do uso da biblioteca e seus
recursos?
Esses dois motivos agravam o estereótipo do(a) bibliotecário(a)
reclamão, fazendo "shhhhh" o tempo todo, rígido em seus métodos. Assusta
novos usuários, intimida antigos, impede que a biblioteca deixe de ser
vista como um depósito empoeirado de livros, chato, frio e úmido. A
biblioteca deixa de ser promovida como local de cultura e divertimento,
deixa de ser freqüentada e por isso entra em desuso.
Por fim, o mesmo Governo Federal que agora pensa em desativar o sítio
deveria antes de disponibilizar essa ferramenta ter fomentado
bibliotecas escolares *de verdade*, com bibliotecários concursados,
capazes de desenvolver em seus usuários o gosto pela leitura. Ora, se
nem os estadunidenses suportam ter que ler Shakespeare no ensino médio
deles, com todo o estímulo que recebem, como é que estudantes pouco ou
nada estimulados no Brasil vão procurar por suas obras em português?
Vivemos, infelizmente, numa situação muito diversa daquela pensada pelo
Governo Federal. Enquanto permitirmos ser estereotipados, veremos cada
vez mais bibiotecas sendo fechadas, sejam físicas ou virtuais. Espero
que o sítio não seja desativado; mas se o for, é mais uma constatação
que os bibliotecários precisam finalmente chegar no 21º Século e deixar
1986 no passado, onde é o seu lugar.
--
João Santana <[EMAIL PROTECTED]>
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