Mais um texto de bomo senso de um jornalista responsável que não entrou no movimento da Rêde BOBO.
A resposta à pergunta do título desta matéria é: ESCRAVO.
 
CIDADÃO OU SÚDITO?
>     14.09.2005
>     por Alexandre Garcia
>
>
>     Domingo cedo eu ia de táxi de Ipanema ao Aeroporto do Galeão e,
> antes de entrar no túnel Rebouças, o motorista festejou: "Estamos com
> sorte; o túnel está aberto." Ainda pela madrugada, o túnel fechara
> mais uma vez, porque bandidos interrompem o tráfego para roubar
> carros, armados de fuzis automáticos e metralhadoras.
> Significativamente, o túnel passa abaixo dos pés do Cristo Redentor.
> Na quinta-feira à noite, eu havia feito uma palestra no Hotel
> Sheraton, em frente à favela do Vidigal, e até uma hora antes não se
> sabia se a Avenida Niemeyer estaria bloqueada ou não pelos tiroteios.
> Quando cobri a guerra no Líbano, em 1982, não imaginei que iria
> encontrar situação semelhante na Cidade Maravilhosa, em pleno século
> 21. E como reage o governo? Tentando desarmar as pessoas de bem, que
> têm armas para sua legítima defesa.
>
>     Dos milhares de armas que as pessoas entregaram, algumas caíram em
> mãos dos bandidos. Sabe-se de 83 dos melhores exemplares - algumas já
> encontradas para confirmar a troca de mãos. Não se sabe do resto. As
> velhas, enferrujadas, das viúvas, já passaram pelo rolo compressor.
> Diz-se que as armas estão sendo recolhidas para que não caiam nas mãos
> dos bandidos... Enquanto isso, em São Paulo, no bairro chique de
> Itaim, quase 30 edifícios já foram assaltados sem pressa. Os bandidos
> entram e ficam seis horas a vasculhar os apartamentos, com a confiança
> de que não haverá reação porque, afinal, as pessoas não têm armas para
> defender seus lares. No meu estado natal a gente aprende que se nos
> agachamos, alguém vai acabar nos montando.
>
>     Não vejo problema em implantar o maior rigor no registro de armas.
> Exame de equilíbrio emocional, de ficha policial e de adestramento no
> manejo da arma são necessários. Mas não vejo por que impedir o cidadão
> de exercer o elementar direito da legítima defesa. Além disso, proibir
> venda de armas de nada vai adiantar, porque o bandido não compra arma
> na loja, mas na ponta do tráfico. Desarmar pessoas de bem não é
> vantagem alguma. O Estado precisa é desarmar o bandido. Que, no
> Brasil, não toma armas das residências das famílias mas dos quartéis
> do Estado. As outras vêm do exterior, no contrabando. Vamos gastar 600
> milhões de reais com o referendo. E se esse dinheiro fosse aplicado em
> equipar e treinar policiais?
>
>     Pesquisa da semana passada mostra o pavor que impera nas capitais.
> Em Belém, três em cada cinco famílias declaram viver em área sujeita à
> violência ou vandalismo. No Rio, duas em cada cinco. O índice menos
> ruim é o de Brasília: uma em cada cinco famílias declara-se moradora
> de área de risco para a segurança. Vinte por cento! Nosso índice mais
> baixo de violência deve ser parecido com o do Iraque, onde todo mundo
> anda armado. Aqui se mata mais, sem dúvida. Mais de cem por dia. Nessa
> guerra, em vez de desarmar o atacante, tratamos de desarmar a vítima.
>
>     Vai nos restar o carro blindado, a grade nas portas e janelas, as
> câmeras de big-brother orwelliano, a folha de pagamento dos
> seguranças, o colete à prova de balas. E o medo. De que lado está o
> Estado? Se quiser todos desarmados, que reforme a Justiça e a polícia,
> para termos lei e segurança.
>
>     Brasileiro com medo não é cidadão; é súdito.

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