Pessoal, o Luiz Ezildo tem razão quanto ao que propor então no lugar da impressão do voto. Foi a mesma reação do Prof Del Picchia quando tive a oportunidade de falar rapidamente desses problemas pessoalmente em novembro passado em São Paulo : “- Mas o que você propõe então?”. Confesso que fui pego de calças curtas e fiquei sem saber o que responder. Depois, conversando com o Kika e o Chadel também em São Paulo, narrando como a coisa se passa aqui na França, me veio uma idéia que nunca tive tempo de desenvolver. Continuo não tendo mas talvez em grupo a coisa avance, aqui vai então a grosso modo o que estive pensando:

1) Se a gente olha bem o que faz a urna-e, por mais complicada que seja a legislação eleitoral, é um trabalho muito simples. Por esta razão, por mais volátil que sejam as regras, uma coisa que eu nunca entendi é a necessidade de se reprogramar as urnas a cada eleição. Vista a simplicidade da coisa me parece plausível de se pensar num software simples e parametrizável, o qual funcionaria em função de tabelas que descrevam a eleição em curso (postos elegíveis, número, nome e foto dos candidatos, datas e horas, etc.).

2) Se 1) for verdadeiro, poderíamos imaginar a confecção de um software o mais simples possível, tornado público e analisável pela massa das pessoas competentes que se dêem ao trabalho. Este software seria desenvolvido uma só vez, analisado, compilado e assinado digitalmente por todos os partidos, ONGs interessadas e pelo Ministério Público.

3) Este software seria carregado nas urnas uma só vez, visto que apenas as tabelas com os dados mudam a cada eleição. Resta a aprimorar muito como verificar que este software não foi substituído por outro, mas este é um problema que pode ser estudado à parte usando-se as assinaturas digitais (uma coisa de cada vez).

Essa idéia me veio à mente porque é mais ou menos assim que a coisa funciona aqui na França. As prefeituras (Mairies) compram os dispositivos que podem ser fornecidos por vários fabricantes, à condição de que seja um dispositivo homologado pelo Ministério do Interior. Uma das características desses produtos é a de que eles sejam parametrizáveis pelas prefeituras, de forma a que sirvam para todas as eleições à vir sem necessidade de reprogramação. É verdade que a razão dessa cláusula na especificação visa a proteger o investimento das prefeituras. Mas é verdade também que fica difícil de se burlar uma eleição a nível nacional com urnas que você não pode reprogramar em função da eleição que se prepara. Aqui na França, fica ao cargo das prefeituras locais a parametrização das urnas para o dia da eleição: são mais de 5000 municípios, o que não impede talvez alguma manipulação a nível local, mas dificilmente a nível nacional.

 O que vocês acham disso?

 Abraços, Paulo.

Luiz Ezildo wrote:
Prezado Paulo.
Desculpe, mas aí é reducionismo.
A impressora não está lá só para imprimir votos em caso de dúvidas.
Não senhor! Está lá para fazer auditoria por amostragem, o que é muito 
diferente.
De qualquer forma não lembro de uma outra proposição que tenha a mesma eficácia 
do voto impresso.
É isso, um abraço.

Luiz Ezildo - Santos/SP



"O pior castigo para quem não gosta de política é ser governado pelos que 
gostam."
Arnold Toynbee - historiador inglês.

De:[EMAIL PROTECTED]


Prezado Kika,

Não é minha intenção fazer a apologia do voto-e, muito menos como o implementado no Brasil. No entanto vou rebater algumas das tuas ponderações porque penso que elas não invalidam a hipótese levantada. No final desenvolvo um pouco sobre o mito do voto impresso, outra grande utopia:

. . .

Diga-se de passagem que seria muito mais fácil burlar uma eleição a nível nacional se as urnas fossem 
equipadas com a impressão do voto. Se hoje em dia quase ninguém se dá ao trabalho de verificar o software da 
urna, com a impressão do voto ninguém mais vai olhar isso. Além disso o TSE sempre vai poder alegar a frase 
"na dúvida, basta recontar". Numa situação assim, se eu fosse o "Deus cartesiano 
enganador" que quer burlar as eleições, nada mais fácil. Basta a cada X votos eu mostrar a cara do 
candidato correto na tela, mas imprimir o do meu candidato no voto impresso. Se o eleitor não perceber e 
apertar "confirma", mais um para o meu candidato. E pode recontar o quanto quiser... Diga-se de 
passagem que o número de pessoas que vão mesmo conferir é muito pequeno.

Segundo, eu posso sempre corrigir a tela após um curto período de tempo, de 
maneira a fazer coincidir a tela com o voto impresso. Nessas, se o eleitor for 
um chato que resolveu reclamar, quando o fiscal chegar não haverá nada de 
errado entre a tela e a impressora. Resultado, é o eleitor que será posto à 
tapas para fora levando fama de bardeneiro.

Posso fazer ainda melhor: já que ninguém verifica mais nada porque ""na dúvida, 
basta recontar", eu posso cruzar os banco de dados da receita com o dos eleitores. Por 
exemplo, eu posso aplicar a fraude acima apenas aos eleitores que não tem CPF. Nesse caso a 
probabilidade de que algum reclame será infima. E se reclamar, como provavelmente deve se 
tratar de algum pobre (não tem nem CPF), logo vai ser tratado como tal(*) nesse nosso país: se 
bobear ainda acaba no xadrez por atrapalhar a ordem pública...

Por fim, eu posso aleatoriamente simplesmente imprimir o voto para o meu candidato, fazer 
mais um para ele e dar o voto por encerrado. Fica a palavra do cidadão contra a do TSE, 
que agora sempre vai poder jogar na cara: "Mas agora é 200% seguro, vocês não podem 
negar: na dúvida, basta recontar".

Ou seja, esse é o outro mito, o de que basta imprimir o voto para se resolver 
esse problema.

Abração, Paulo.

(*) "pobres, são como os pretos, e todo mundo sabe como se tratam os pretos", 
em homenagem ao nosso ministro da Cultura que era preto mas aprendeu direitinho a lição...


[As partes desta mensagem que não continham texto foram removidas]



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