ÍNTEGRA DO DISCURSO DO MINISTRO MARCO AURÉLIO NA POSSE COMO PRESIDENTE DO TSE

A seguir a íntegra do discurso do ministro Marco Aurélio na solenidade de posse 
como presidente do TSE:

"Agradeço a presença de todos que compareceram a esta solenidade, vindo a 
prestigiá-la. Cumprimento-os saudando os integrantes da Mesa - o senador da 
República Renan Calheiros, no exercício da Presidência da República, a ministra 
Ellen Gracie, Presidente do Supremo - portanto, Chefe do Poder Judiciário -, o 
deputado federal Sigmaringa Seixas, representando a Câmara dos Deputados, e o 
ministro de Estado da Justiça, Márcio Thomas Bastos. Registro também o agradecimento 
à compreensão da minha família, pelas horas de dedicação praticamente exclusiva ao 
ofício judicante: a minha mulher, a desembargadora Sandra de Santis Mendes de Farias 
Mello, aos meus filhos, Letícia, a advogada, Renata, a médica, Cristiana, a 
Procuradora do Distrito Federal, e Eduardo Affonso, o estudante de Direito, o meu 
carinho ao neto João Pedro, ao meu irmão, Manoel Affonso, primogênito, ao meu genro 
Bruno.

Agradeço as palavras de incentivo do colega César Asfor Rocha que, de forma 
bondosa, falou em nome do Colegiado; do exemplar Procurador-Geral Eleitoral e 
Procurador-Geral da República, Dr. Antonio Fernando; do Dr. Roberto Busato, 
Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil - instituição que, nas precisas 
palavras de Gofredo da Silva Telles, é a sentinela da ordem democrática. 
Agradeço, na pessoa do Presidente, Dr. Rodrigo Colasso, à Associação dos 
Magistrados Brasileiros, por haver proporcionado coquetel na oportunidade em 
que os empossados, em fraternal confraternização, receberão os cumprimentos.

Senhores e senhoras, em face da liturgia desta solenidade e para que, 
juntamente com a nominata e os discursos proferidos, fique nos anais da Corte, 
devo veicular, ante a expectativa geral, nesta data de sintomática coincidência 
- dia 4 do mês 5 do sexto ano do segundo milênio -, uma mensagem. Serei breve, 
mas, mesmo assim, peço a benevolência dos ouvintes e, mais do que isso, a 
reflexão de todos sobre o que tenho a dizer.

Infelizmente, vivenciamos tempos muito estranhos, em que se tornou lugar-comum 
falar dos descalabros que, envolvendo a vida pública, infiltraram na população 
brasileira - composta, na maior parte, de gente ordeira e honesta - um misto de 
revolta, desprezo e até mesmo repugnância. São tantas e tão deslavadas as 
mentiras, tão grosseiras as justificativas, tão grande a falta de escrúpulos 
que já não se pode cogitar somente de uma crise de valores, senão de um fosso 
moral e ético que parece dividir o País em dois segmentos estanques - o da 
corrupção, seduzido pelo projeto de alcançar o poder de uma forma ilimitada e 
duradoura, e o da grande massa comandada que, apesar do mau exemplo, esforça-se 
para sobreviver e progredir.

Não há, nessas afirmações - que lamento ter de lançar -, exagero algum de 
retórica. Não passa dia sem depararmos com manchete de escândalos. Tornou-se 
quase banal a notícia de indiciamento de autoridades dos diversos escalões não 
só por um crime, mas por vários, incluindo o de formação de quadrilha, como por 
último consignado em denúncia do Procurador-Geral da República, Doutor Antônio 
Fernando Barros e Silva de Souza. A rotina de desfaçatez e indignidade parece 
não ter limites, levando os já conformados cidadãos brasileiros a uma apatia 
cada vez mais surpreendente, como se tudo fosse muito natural e devesse ser 
assim mesmo; como se todos os homens públicos, nas mais diferentes épocas, 
fossem e tivessem sido igualmente desonestos, numa mistura indistinta de 
escárnio e afronta, e o erro passado justificasse os erros presentes.

A repulsa dos que sabem o valor do trabalho árduo se transformou em indiferença 
e desdém, como acontece quando, por vergonha, alguém desiste de torcer pelo 
time do coração e resolve ignorar essa parte do cotidiano. É a tática do 
avestruz: enterrar a cabeça para deixar o vendaval passar. E seguimos como se 
nada estivesse acontecendo. Perplexos, percebemos, na simples comparação entre 
o discurso oficial e as notícias jornalísticas, que o Brasil se tornou um país 
do faz-de-conta. Faz de conta que não se produziu o maior dos escândalos 
nacionais, que os culpados nada sabiam - o que lhes daria uma carta de alforria 
prévia para continuar agindo como se nada de mal houvessem feito. Faz de conta 
que não foram usadas as mais descaradas falcatruas para desviar milhões de 
reais, num prejuízo irreversível em país de tantos miseráveis. Faz de conta que 
tais tipos de abusos não continuam se reproduzindo à plena luz, num desafio 
cínico à supremacia da lei, cuja observação é tão necessária e
m momentos conturbados.

Se, por um lado, tal conduta preocupa, porquanto é de analfabetos políticos que se 
alimentam os autoritarismos, de outro surge insofismável a solidez das instituições 
nacionais. O Brasil, de forma definitiva e consistente, decidiu pelo Estado Democrático 
de Direito. Não paira dúvida sobre a permanência do regime democrático. Inexiste, em 
horizonte próximo ou remoto, a possibilidade de retrocesso ou desordem institucional. De 
maneira adulta, confrontamo-nos com uma crise ética sem precedentes e dela haveremos de 
sair melhores e mais fortes. Em Medicina, "crise" traduz o momento que define a 
evolução da doença para a cura ou para a morte. Que saiamos dessa com invencíveis 
anticorpos contra a corrupção, principalmente a dos valores morais, sem a qual nenhuma 
outra subsiste.

Nesse processo de convalescença e cicatrização, é inescusável apontar o papel 
do Judiciário, que não pode se furtar de assumir a parcela de responsabilidade 
nessa avalancha de delitos que sacode o País. Quem ousará discordar que a 
crença na impunidade é que fermenta o ímpeto transgressor, a ostensiva 
arrogância na hora de burlar todos os ordenamentos, inclusive os legais? Quem 
negará que a já lendária morosidade processual acentua a ganância daqueles que 
consideram não ter a lei braços para alcançar os autoproclamados donos do 
poder? Quem sobriamente apostará na punição exemplar dos responsáveis pela 
sordidez que enlameou gabinetes privados e administrativos, transformando-os em 
balcões de tenebrosas negociações?

Essa pecha de lentidão - que se transmuda em ineficiência - recai sobre o 
Judiciário injustamente, já que não lhe cabe outro procedimento senão fazer 
cumprir a lei, essa mesma lei que por vezes o engessa e desmoraliza, 
recusando-lhe os meios de proclamar a Justiça com efetividade, com o poder de 
persuasão devido. Pois bem, se aqueles que deveriam buscar o aperfeiçoamento 
dos mecanismos preferem ocultar-se por trás de negociatas, que o façam sem a 
falsa proteção do mandato. A República não suporta mais tanto desvio de conduta.

Eis o poder revolucionário do voto, com o qual, eleição após eleição, estamos 
os brasileiros a nos afeiçoar de tal forma que, muito em breve, os candidatos 
aprenderão a respeitá-lo, se não puderem honrá-lo de espontânea vontade.

Que a importância do voto sirva de argumento àqueles que pregam, como vindita 
por tanta infâmia, a anulação do escrutínio. Ao reverso do abatimento e da 
inércia, é de conclamar o povo, principalmente os mais jovens, a se manifestar 
pela cura, não pela doença, não pela podridão do vale-tudo, que corrói, com a 
acidez do cinismo, a perspectiva de um futuro embasado em valores como retidão, 
dignidade, grandeza de caráter, amor à causa pública, firmeza de propósitos no 
empenho incondicional ao progresso efetivo, e não meramente marqueteiro, do 
País. Ao usar a voz da urna, o povo brasileiro certamente ouvirá o eco 
vitorioso da cidadania, da verdade - que, sendo o maior dos argumentos, mais 
dia, menos dia, aparecerá -, alfim, da indispensável liberdade, viciados que 
estamos todos na autodeterminação viabilizada, sem retorno, pela democracia.

Àqueles que continuam zombando diante de tão simples obviedades, é bom lembrar 
que não são poucos os homens públicos brasileiros sérios, cuja honra não se 
afasta com o tilintar de moedas, com promessas de poder ou mesmo com 
retaliações, e que a imensa maioria dos servidores públicos abomina a falta de 
princípios dos inescrupulosos que pretendem vergar o Estado ao peso de 
ideologias espúrias, de mirabolantes projetos de poder. Aos que laboram em 
tamanhas tolices, nunca é demais frisar que se a ordem jurídica não aceita o 
desconhecimento da lei como escusa até do mais humilde dos cidadãos, muito 
menos há de admitir a desinformação dos fatos pelos agentes públicos, a 
brandirem a ignorância dos acontecimentos como tábua de salvação.

Já se antevê o significado do certame que se avizinha, incumbindo a cada 
eleitor perceber que o voto, embora individualizado, a tantos outros se 
seguirá, formando o grande todo necessário à escolha daqueles que o 
representarão. Impõe-se, nesse sagrado direito-dever, a conscientização, a 
análise do perfil, da vida pregressa daqueles que se apresentem, é de presumir 
- repito - para servir com honestidade de propósito e amor aos concidadãos, 
dispostos, acima de tudo, a honrar a coisa pública. Somente dessa forma o 
eleitor responderá às exigências do momento, ficando credenciado, em passo 
seguinte, à cobrança.

No que depender desta Presidência, o Judiciário compromete-se com redobrado desvelo na aplicação da lei. Não haverá contemporizações a pretexto de eventuais lacunas da lei, até porque, se omissa a legislação, cumpre ao magistrado interpretá-la à luz dos princípios do Direito, dos institutos de hermenêutica, atendendo aos anseios dos cidadãos, aos anseios da coletividade. Que ninguém se engane: não ocorrerá tergiversação capaz de turbar o real objetivo da lei, nem artifício conducente a legitimar a aparente vontade das urnas, se o pleito mostrar-se eivado de irregularidades. Esqueçam, por exemplo, a aprovação de contas com as famosas ressalvas. Passem ao largo das chicanas, dos jeitinhos, dos ardis possibilitados pelas entrelinhas dos diplomas legais. Repito: no que depender desta Cadeira, não haverá condescendência de qualquer ordem. Nenhum fim legitimará o meio condenável. A lei será aplicada com a maior austeridade possível - como, de resto, é o que deve ser. Bem se vê que os anticorpos de que já falei começam a produzir os efeitos almejados. Esta é a vontade esmagadora dos brasileiros.

No mais, é aguçar os sentidos, a coragem, é aumentar a dedicação, acurar a 
inteligência e desdobrar as horas e as forças, no intuito único de servir à 
aspiração geral por um pleito limpo, civilizado e justo. É o que o Brasil 
merece e espera. É o que solenemente prometo ao assumir esta Presidência.

Muito obrigado".
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