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Patético esse artigo de Jabor. Concordo em muita
coisa com ele.
Mas,
Não foi Jabor que se apresentou de garoto
propaganda da privatização da Vale do Rio Doce? Não só ele, mas vários atores da
Globo/
Ele não defendeu o modelo econômico na época de
FHC, as privatizações, a redução do estado a um nada, sucateado?
Continue escrevendo assim Jabor, agora estás no
caminho certo.
Só falta fazer uma dramática
autocrítica.
F. Santana
----- Original Message -----
Sent: Tuesday, May 23, 2006 6:09 PM
Subject: [VotoEletronico] Estamos todos
no inferno
Arnaldo Jabor
Estamos todos no inferno
Você é do PCC?
Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível...
vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o
problema da miséria... O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de
renda, poucas favelas, ralas periferias... A solução é que nunca vinha... Que
fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só
aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a
beleza dos morros ao amanhecer, essas coisas... Agora, estamos ricos com a
multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo... Nós somos o início
tardio de vossa consciência social... Viu? Sou culto... Leio Dante na
prisão...
Mas... a solução seria...
Solução? Não há mais
solução, cara... A própria idéia de solução já é um erro. Já olhou o tamanho
das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São
Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos
organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política,
crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria
de ser sob a batuta quase que de uma tirania esclarecida, que pulasse por
cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo
cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar
até o PCC...) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma
radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência
entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference
calls entre presídios...) E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria
numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é
impossível. Não há solução.
Você não têm medo de morrer?
Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem
entrar e me matar... mas eu posso mandar matar vocês lá fora... Nós somos
homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do
Insolúvel, mesmo... Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte,
a única fronteira.
Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos,
diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no
ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado numa
vala... Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em seja marginal,
seja herói? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha... Vocês nunca esperavam
esses guerreiros do pó, né ?
Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000
livros e leio Dante... mas meus soldados todos são estranhas anomalias do
desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou
explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se
educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro
Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não
ouvem as gravações feitas com autorização da Justiça? Pois é. É outra
língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera
uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares,
internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados
são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.
O que mudou nas periferias?
Grana. A gente hoje tem. Você
acha que quem tem US$ 40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a
prisão é um hotel, um escritório... Qual a polícia que vai queimar essa mina
de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário
vacila, é despedido e jogado no microondas... ha, ha... Vocês são o Estado
quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês
são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra
estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem
armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa.
Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos
transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos
ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados.
Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos
globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem
assim que passa o surto de violência.
Mas o que devemos fazer?
Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem
deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas
paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que
grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas... O país está
quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda
aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar
contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, Sobre a guerra. Não há
perspectiva de êxito... Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas
brechas... A gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns
Stingers aí... Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas...
Aliás, a gente acaba arranjando também umazinha, daquelas bombas sujas
mesmo... Já pensou? Ipanema radioativa?
Mas... não haveria solução?
Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a
normalidade. Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma
autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco... na boa... na
moral... Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e
vocês... não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha
aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a
extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: Lasciate ogna speranza
voi che entrate! Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.
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