Excelente a matéria de Madalena Romeo. O tom certo entre o
jornalismo imparcial e o deboche escrachado frente a esses fatos da nossa
democracia tupiniquim.
Hilariante a narrativa do episódio, pelo próprio Jaguar, na sua coluna em
O Dia.
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http://odia.terra.com.br/cultura/htm/geral_42612.asp
Jaguar devolve medalha Pedro Ernesto
Madalena Romeo
Os vereadores do Rio vão ter de criar uma Medalha Jaguar.
Depois do que se passou ontem na Câmara, vai ser difícil encontrar
cidadão de bem que aceite ser condecorado com a Medalha Pedro Ernesto,
até então a maior comenda da cidade. O cartunista e colunista de O DIA
tirou a quarta-feira para ir à casa legislativa devolver a medalha que
lhe fora concedida há oito anos pelo então vereador Chico Alencar. A
razão? Jaguar se recusa a ser companheiro de medalha de Roberto
Jefferson, o deputado do PTB que teve o mandato cassado por corrupção no
ano passado e foi condecorado na Câmara com a mesma medalha há oito
dias.
O sujeito é réu confesso, embolsou R$ 4 milhões e foi condecorado pela
filha, num ato de nepotismo. Não deu para engolir, explicou Jaguar antes
de ir à Câmara, saboreando uma rabada e bebendo chope com Hermínio Bello
de Carvalho, Chico Salles e Chico Paula Freitas, em um restaurante no
Centro. Essa medalha não serve nem para bolacha de chope, disse,
mostrando que sua tulipa não se equilibrava sobre o cobre.
Depois, com preguiça, cogitou contratar um boy service para fazer a
entrega, mas uma dose de Underberg o reanimou. Foi andando até a Câmara e
deixou os servidores atônitos, ao pedir que protocolassem a devolução.
Isso é no segundo andar, reagiu a balconista, como se existisse
departamento de devolução de medalhas. A situação era inédita e foram
tirar do plenário a presidente em exercício da Câmara, vereadora Leila do
Flamengo.
Política, ela compromenteu-se a mudar os critérios de condecoração para
evitar vexames e convidou Jaguar a ir a Plenário. Não dá. Vou ver
Argentina e Holanda no Amarelinho, respondeu. Com a medalha em mãos, a
vereadora prometeu que iria ao bar para entregar-lhe o protocolo. A
caminho do Amarelinho, Jaguar era só indagações: Você sabia que a Leila
do Flamengo mora na Barra? Você acha que ela virá ao bar? Você confia em
político? No intervalo do jogo, duas saideiras depois, deve ter
encontrado respostas. Despediu-se e partiu sem o protocolo
mesmo.
Hermínio Bello quer seguir exemplo, vereadora achou feio
Hermínio Bello de Carvalho, que foi homenageado com a mesma comenda,
também quer devolver a sua medalha. Sinto o mesmo impulso do Jaguar. Só
não devolvo a minha, porque ela me foi dada pelo Sérgio Cabral pai. Ou
seja, só devolveria se o Sérgio fosse comigo à Câmara devolver.
A filha de Roberto Jefferson, vereadora Cristina Brasil, comentou o ato
de Jaguar. Considero a devolução uma deselegância com o vereador que
concedeu a ele a medalha e um desrespeito com a Câmara, que
democraticamente representa o povo da cidade.
No almoço, Jaguar falou com Chico Alencar pelo telefone e comunicou a
decisão. Vou ter que devolver a p... da medalha. Chico disse entender
que a indignação é pessoal e intransferível, mas admitiu que se tivesse
mais tempo apelaria ao cartunista para demovê-lo da decisão. Em nome de
Pedro Ernesto, um prefeito honesto. Jaguar comentou: Político honesto é
como mula sem cabeça. Ninguém vê.
Em sua coluna publicada nesta quarta-feira em O DIA, Jaguar explica
seu protesto:
"Como poucos sabem, sou fissurado em morangos e aspargos. Guardo
no meu arquivo tudo que se publica sobre essas rosáceas e liláceas. Li
avidamente os relatos dos 550 coleguinhas que foram cobrir a Copa. Todos,
sem exceção, naquelas aldeias de esdrúxulos nomes teutônicos que
hospedaram a seleção, só falavam nisso nos dias que antecederam os jogos.
Depois foram as bolhas no pé de Ronaldo Fenômeno, também assunto
interessantíssimo. Os consagrados Armando Nogueira e Tostão e outros
luminares da crônica esportiva que me desculpem, mas a Cora Ronai
arrebentou a boca do balão.
Parabéns para o editor genial que a convocou para ver o primeiro jogo de
futebol de sua vida nesta Copa na Alemanha.
Hoje (ontem) continua no alto do pódio, enquanto Alemanha e Equador se
enfrentam, curto sua coluna com informações fundamentais. Por exemplo,
xampus e cremes devem ser comprados sempre no local ondese está, nunca
traga na sua bagagem.
E agora, mudando de assunto, hoje, quarta, às três horas da tarde, vou
devolver a medalha Pedro Ernesto que a Câmara de Vereadores me deu. Se é
que tem alguém trabalhando lá a essa hora. Desconfio que o Ancelmo Góis
tem um olheiro no Bracarense. Falei de sacanagem no boteco que me
recusava a ser colega de medalha do Roberto Jefferson, a notícia saiu no
dia seguinte na coluna dele.
Coisa parecida aconteceu quando joguei ovos na Academia Brasileira de
Letras no dia da posse de Roberto Campos. Depois que o presidente da ABL
disse Jaguar é covarde, não vai fazer isso, Ancelmo publicou e lá fui
eu, pressionado pela mídia, como Ronaldo Fenômeno, aliás Fenô, porque
não está jogando nem metade do que sabe.
Aluguei no Mundo Teatral um fardão de imortal, troquei de roupa no
Vilarinho e, depois de tomar algumas doses para espantar a covardia,
joguei meia dúzia de ovos nas paredes do vetusto prédio, devidamente
cozidos para não emporcalhar mais ainda a cidade.
E por falar em sacanagem, pô, Bussunda!
