Muito interessante a análise do Luiz Gonzaga Beluzzo a respeito do voto nulo. Continuam vivos os argumentos do saudoso Dr. Rezk.

Abçs.
g.
 

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13 de Setembro de 2006 - Ano XII - Número 410

Colunas - Luiz Gonzaga Belluzzo

Ecos de 1974
A campanha pelo voto nulo exprime justa indignação. Mas sem o arrimo da luta política desaparecerá nas embromações do narcisismo moralista.

O MDB, oposição oficial ao regime militar, tentava sobreviver. No início dos anos 70, tempos do milagre econômico, das prepotências e fantasias do “Pra frente, Brasil”, “Ame-o ou deixe-o”, havia quem arriscasse a pele nos corredores estreitos da política tolerada. Entre os que sobraram da purga executada pela ditadura militar estava o vereador Antonio Rezk.

Desalentados e impotentes, muitos flertavam com a idéia de autodissolução do partido oposicionista. Os grupos mais à esquerda defendiam o voto nulo. Rezk, em reunião do MDB na Câmara Municipal, se a memória não me atraiçoa, desancou a proposta. Voto nulo, nem pensar. “Caretice”, cochichou a jovem uspiana, do alto dos seus 20 anos de inabaláveis convicções.

A eleição de 1974 daria razão aos “caretas”, aos que insistiam na modesta e paciente irreverência das urnas. Uma avalanche de votos soterrou a Arena. Em 1975, a repressão recrudesceu, assim falavam os porta-vozes das casernas, mas as tentativas de retrocesso esbarraram na rejeição ao regime que, entre outras coisas, se atolava nas dissensões internas. A Campanha das Diretas foi a última etapa do movimento de opinião pública e de resistência que culminou com a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral.

Topei com o Rezk no comício do Anhangabaú, em São Paulo. Enquanto não chegavam as lideranças – Ulysses, Montoro, Lula – o nosso Osmar Santos, locutor das Diretas, animava o povão. Rezk estava eufórico, lembrou da tarde e noite na Câmara Municipal, dos partidários do voto nulo e da autodissolução.

Mas ele sabia, e disse em meio à celebração popular, que o palanque já estava infestado de oposicionistas que tramavam a derrota da campanha pelas Diretas. Temiam o “radicalismo” da transição liderada por um governo eleito diretamente pelo voto dos que abarrotavam as ruas. Assim, os náufragos do regime militar conseguiram nadar até a praia, flutuando nas águas da Nova República, agarrados aos coletes salva-vidas lançados pela turma do deixa-disso. Tamanha generosidade não ficou sem recompensa: os cúmplices-sobreviventes da aventura autoritária estão por aí, no Parlamento e nas redações, nas salas de aula a nos dar lições sobre a democracia e as virtudes republicanas. Deo Gratias.

Rezk não pretendia condenar os companheiros que no auge do prestígio da ditadura defenderam a tese do suicídio partidário e mais tarde concederiam sua complacência aos comensais do autoritarismo. Era o avesso do alpinista midiático contemporâneo, sempre disposto a escalar a própria soberba à cata de vítimas para saciar a sua vulgaridade.

Seu julgamento era político: acreditava na ação coletiva, execrava os maniqueísmos, fugia dos dogmatismos e dos delírios escatológicos, marcas registradas de certo esquerdismo cultivado nos salões do radicalismo chique. Recusou-se a abandonar o barco da democracia radical, “dar adeus a tudo aquilo” para, em troca, refestelar o ego nos confortos de outros dogmas, agora recondicionados nas retortas da ideologia da moda, o mercadismo de maus resultados para a patuléia e de gordas recompensas para os espertalhões. Quando morreu, escrevia um novo livro. Investigava as transformações impostas pelo novo capitalismo ao mundo do trabalho e imaginava as bases da reconstrução de um projeto democrático capaz de garantir a igualdade política, social e econômica. Sem fugas, autocomiseração e muito menos nostalgias que impedem o escrutínio dos fracassos do passado à luz das realidades do presente.

A campanha pelo voto nulo exprime, sim, uma justa indignação diante das mazelas que assolam o País. Mas como tantas outras, sem o arrimo da luta política e de perspectiva histórica, ela desaparecerá nas embromações do narcisismo moralista que, insaciável, sairá à cata de ultrajes mais pungentes, para gozo e usufruto dos verdadeiros senhores do pedaço.

Na era da espetacularização da política o fato tem de permanecer no ar ou na pauta o tempo necessário para produzir a indignação, mas apenas o suficiente para não permitir a relação entre o acontecimento e suas circunstâncias, sua história e suas raízes. O fato não deve ter conseqüências, a não ser aquelas engendradas pelo projeto de infantilização das massas espectadoras. Depois da “novela das 8”, do futebol das 10, o distinto público diverte-se com os escândalos da meia-noite.

Nos bastidores da encenação politicamente correta do voto nulo, circula a idéia de que a democracia é incompatível com a excelência, com os padrões mais elevados de comportamento ético e que os oprimidos e subjugados não podem alcançar as virtudes e as competências dos opressores.

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Abçs.
g.

Guilherme R Basilio
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