Tá na capa do UOL. É porque é notícia sobre os EUA.
Curioso como a imprensa nacional reproduz notícias do estrangeiro como se estivesse falando de Marte.
A ninguém ocorre traçar um paralelo com o caso brasileiro que não lhe obrigue a mexer dois neurônios.


03/11/2006
Cresce a polêmica sobre as máquinas de votar, faltando uma semana para as eleições americanas
Enquanto estudos apontam graves falhas nos dois sistemas de votação, o fabricante dos equipamentos recusa a transparência

Alexandre Piquard

Antes mesmo da sua exibição, prevista para a noite desta quinta-feira, 2 de novembro, o documentário "Piratear a democracia", sobre as máquinas de votar, motivou o principal fabricante americano dessas máquinas a enviar uma carta para a emissora. A Diebold exigiu que a difusão do filme fosse cancelada, ou, ao menos, que lhe fosse concedido um direito de resposta, o que o canal a cabo americano HBO recusou. Faltando menos de uma semana para as eleições de meados do mandato presidencial, a polêmica sobre os sistemas de votação eletrônica não pára de despertar reviravoltas e novos desdobramentos.

O "ponto zero" desta história, conforme a expressão empregada pela imprensa americana, encontra-se na Flórida, no ano de 2000: o imbróglio da contagem dos votos que decretou a derrota de Al Gore em proveito de George W. Bush, no Estado governado pelo seu irmão Jeb, impressionou as mentes.

Foi para evitar que esse tipo de situação nunca mais volte a ocorrer que os sistemas de votação eletrônica foram introduzidos em 2002, por efeito da lei Help America Vote, que alocou uma verba de US$ 3,8 bilhões (R$ 8,13 bilhões) para esta modernização. Desde então, duas tecnologias passaram a ser utilizadas: a primeira faz a leitura óptica de cédulas de papel, enquanto a segunda permite votar por meio de máquinas de tela táctil (as quais serão utilizadas em 34 Estados, segundo o "Wall Street Journal").

No total, 40% das seções eleitorais são dotadas de um desses sistemas
eletrônicos, segundo o fabricante Diebold, que reivindica uma parte de
mercado de 35%.

Mas, essas máquinas que deveriam supostamente instaurar novamente a
confiança entre os americanos vêm sendo acusadas por vários grupos de
especialistas e de militantes de permitirem graves falhas: enquanto erros na elaboração das listas de eleitores impedem alguns de votar, os funcionários das cessões eleitorais carecem de uma formação adequada para lidar com os novos procedimentos, e as recontagens de votos são tornadas difíceis, enumera o "Wall Street Journal".

Segundo a revista "Wired", dois extensos estudos oficiais acabam de
consolidar de vez as desconfianças. As investigações se concentraram nos problemas que foram encontrados em maio, por ocasião de uma eleição primária num condado do Ohio, "um Estado-chave que deu a vitória à Bush em 2004" e que "poderia exercer um papel importante", na próxima semana, no pleito que decidirá qual partido irá controlar a Câmara dos representantes e o Senado.

Em 79 circunscrições, o número de eleitores que assinaram o registro de
votação revelou ser diferente do número de votos, comenta, por exemplo, a publicação "Cuyahoga Election Review Panel" (do Comitê de acompanhamento das eleições de Cuyahoha). A auditoria técnica que foi realizada pelo Election Science Institute (Instituto de Ciência Eleitoral) aponta, por sua vez, os erros contidos nos rolos de papel que supostamente deveriam permitir a verificação dos votos eletrônicos.

Esta garantia, que os detratores da votação eletrônica obtiveram depois de uma luta de três anos, e que é obrigatória, daqui para frente, em 14
Estados, poderia se revelar inoperante em caso de recontagem dos votos,
ironiza a "Wired".

"Programa mal-intencionado"

A Diebold, que forneceu as máquinas eletrônicas utilizadas no condado de Cuyahoga, se defende. E acusa o documentário "Piratear a democracia" de estar "repleto de erros". No Estado da Geórgia, a taxa de erros teria diminuído, passando de 3,5% para 0,4% entre 2000 e 2002, graças à instalação de máquinas de votar, segundo o fabricante, citado pelo "Wall Street Journal". Para o "Washington Post", o filme apresentado pela HBO, um pouco chato, "não consegue comprovar a corrupção da democracia".

Em meados de setembro, especialistas da universidade de Princeton arrasaram com a Diebold, publicando um estudo no qual eles afirmam que as máquinas fabricadas por esta empresa podem ser pirateadas. Um "programa mal-intencionado", que poderia ser instalado por um empregado ou propagado por vírus, pode permitir "furtar votos", denunciam os pesquisadores do Center for Information Technology Policy (Centro de Política para Tecnologia da Informação).

O relatório precisa que a máquina que foi testada será a mais utilizada, equipando 357 condados, o que representa 10% dos eleitores. A Diebold publicou então uma nota para desmentir, à qual os peritos já responderam.

Esses confrontos entre adversários são apenas a parte visível de uma
polêmica mais profunda, que se iniciou com a derrota dos Democratas em 2000, e prosseguiu com o mais recente pleito presidencial. "A eleição de 2004 terá sido roubada?", perguntava a revista "Rolling Stone", numa reportagem muito extensa que foi publicada em junho.

Esta publicação de esquerda americana repercutia então nesta matéria uma tese desenvolvida num livro e apoiada por blogueiros "liberais": é
estatisticamente impossível que as pesquisas pré-eleitorais tivessem errado de modo tão crasso como fizeram; John Kerry perdeu por causa das
"manipulações" dos Republicanos, perpetradas entre outros no Ohio, onde
350.000 eleitores teriam sido impedidos de votar, por diferentes meios,
entre os quais a exploração das falhas dos sistemas de votação eletrônica.

Se essas críticas - que alguns denunciam como sendo frutos de "teorias da conspiração" - perduram, é porque o processo de implementação dos novos equipamentos carece de transparência. Os especialistas em segurança informática vêm denunciando há anos a opacidade dos programas e dos materiais contidos nas máquinas da Diebold, que se recusa a permitir que peritos tenham acesso a elas, afirmando que os seus próprios testes constituem uma garantia.

O que mais impressiona nos inquéritos sobre o condado de Cuyahoga, estima a revista "Wired", são as dificuldades enfrentadas pelos especialistas para obter as informações desejadas. "Eu creio que nós não conhecemos a extensão real dos problemas", constata um jurista da universidade do Ohio.

Tradução: Jean-Yves de Neufville
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