O DIA QUE TROTSKY ENGOLIU STALIN


Laerte Braga



José Dirceu é o principal responsável pela situação que vive. Arrogante, prepotente, construiu seu próprio abismo. Já em 1999, pouco antes do II Congresso Nacional do PT, ironizou os que pediam discussões sobre temas políticos no encontro. Minha base vota onde eu mandar.
O ministro confundiu as bolas, se achou o dono do governo e não olhou para o lado, gente mais esperta, todos ao redor de um presidente menor, bocó deslumbrado com o cargo e falando besteiras a torto e a direito. Achou que controlava tudo, que mandava, que era só sussurrar e os outros se ajoelhariam e diriam sim senhor, faremos tudo...
A revista Época é do grupo Globo. Presta serviços a banqueiros, a empresas multinacionais, é um equívoco imaginar que seja governista. Será sempre que o governo for leal aos seus donos. Caso contrário é oposição. No governo Lula, Dirceu era, repito, era um empecilho.
A quem? Ao controlador geral, Henrique Meireles, nominalmente presidente do Banco Central. A Antônio Palocci, ministro da Fazenda e que trocou de lado faz tempo. A Luís Fernando Furlan e Roberto Rodrigues (Desenvolvimento, Comércio Exterior e ministro da Agricultura) e, evidente, a pseudos ministros, no duro mesmo, secretários da turma que manda, me refiro a Guido Manteca, supostamente no Planejamento.
Dirceu gritou com muita gente. Dirceu deixou governadores esperando. Deputados, senadores. Dirceu quis excluir a discussão da autonomia do Banco Central neste ano, só neste ano, para ganhar as eleições. Dirceu quis segurar os cortes propostos por Palocci. Dirceu achou que era o secretário geral do Partido e acabou se estrepando por conta de sua versão podre de Beria, falo de Valdomiro Diniz.
Esse projeto farsesco de reencarnação de Stalin, levado a sério pelo ministro chefe do Gabinete Civil, começa lá longe. Desde a segunda candidatura de Lula, acentua-se na terceira, quando, de fato, começa a cavar sua sepultura achando que estava pavimentando a sua estrada para o Palácio dos Bandeirantes e, quem sabe, no futuro, o Planalto.
Passa por toda a sorte de violências cometidas pelo então presidente nacional do PT, quando atropelou o PT do Rio de Janeiro e inventou Anthony Garotinho e Rosinha. Quando começou a guinada para a chamada real política de Lula, na expectativa de, mais à frente, virar o jogo e retomar caminhos que já havia abandonado.
Benedita da Silva, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho são figuras menores nesse episódio, mas lastimáveis, lamentáveis. Tornam-se um tanto maiores em suas dimensões anãs por conta do ministro e suas alquimias políticas.
Será que nunca percebeu que Lula é um bobo? Um deslumbrado? Que o mundo de Lula é um jogo de futebol, um churrasco e um monte de discursos cheios de bobagens, gafes? Ou será que percebeu e achou que podia ele mexer as cordinhas?
Se pensou assim não faz jus ao fato de ter nascido em Minas Gerais. Qualquer mineiro sabe que em rio de piranha jacaré nada de costas.
Dirceu foi sumariamente fuzilado por fogo amigo. Mas amigo da onça.
Vai fazer o quê agora? Juntar os trapos e sair do Ministério? Arriscar-se a ser trucidado no Congresso, afinal é deputado, onde fez e desfez, gritou, esbravejou e chicoteou? Ficar e calar tentando tecer uma vingança?
Lula disse hoje que Dirceu é o capitão do time e ele o técnico. Tem dito várias coisas nesse diapasão para mostrar que Dirceu não manda mais nada.
Quem manda é Meireles. O da liteira. Só anda de liteira. Em torno de Meireles gravitam Palocci, noutro lado mas dentro do mesmo saco, Furlan e Roberto Rodrigues.
O governo acabou e o PT, o que resta do partido, vai ter que optar: ou fica e carimba o projeto de fusão com o PSDB (é o assunto do dia, desdobramento natural dos fatos, Furlan já chamou Lula de FHC), ou sai e vai para a luta real.
Nessa versão ridícula da luta de Trotsky contra Stalin, Trotsky engoliu Stalin. A origem de Palocci é trotskista.
Época tem as fitas sobre corrupção praticada por Valdomiro Diniz há dois anos. Mostrou agora, como provavelmente mostrará outras sempre que necessário, dentro do jogo de disputa do poder e quem levou a melhor foi a direita. A revista faz parte da chamada grande mídia e essa é toda ela ligada ao capital. Sem exceção.
Os apresentadores dos jornais globais, os da tevê, hoje, no papel de acentuar cada minuto do fuzilamento do ministro José Dirceu, só faltaram ter orgasmos diante das câmeras. Mas tem mais que os tiros fatais contra o ministro. Tem um aviso claro para Lula também.
O presidente pode jogar futebol, pode fazer churrasco, pode viajar, pode falar besteiras, cometer gafes, desde que não mude o que os donos determinarem. O que significa dizer que todas as vezes que Meireles chamar a turma tem que sair correndo com a liteira.
O governo Lula é um engodo. Já José Dirceu...
Pois é, foi o dia que Trotsky engoliu Stalin.




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