A questão do uso de biometria nas urnas eletrônicas, para identificação 
do eleitor tem que ser analisadas sob três aspectos:

A) é adequado que um tribunal mantenha um cadastro biométrico dos cidadãos?

B) é recomendável fazer a identificação digital do eleitor na mesma 
máquina eletrônica onde o eleitor irá depositar o seu voto?

C) se adotada, a biometria de identificação do eleitor resolve as 
fraudes existentes?

A primeira questão envolve mais aspectos políticos do que tecnológicos 
e, mesmo eu sendo absolutamente contra a um poder judiciário deter 
controle de um cadastro de cidadãos, não vou adentrar neste tema para me 
ater apenas as questões seguintes, de natureza mais tecnológica.

Fora do Brasil, a resposta à pergunta (B) é um sonoro NÂO.
Somente aqui se usa, e os eleitores toleram, idenficar o eleitor no 
prório computador onde se vota.

E não se pense que é uma questão de domínio da tecnologia. Toda a 
tecnologia usada na fabricação das nossas urnas eletrônicas e no 
reconhecimento biométrico é 100% importada e nem nos países que nos 
vendem estas tecnologias se usa identificar o eleitor nas próprias urnas-e.

Esta resposta a pergunta (B) é tão forte que nem seria necessário entrar 
no debate da pergunta (C) para condenar as novas urnas-e biométricas que 
o administrador eleitoral brasileiro, o TSE, está adotando.

Mas, desobedecendo as recomendações de colegas que como eu rejeitam a 
identificação biométrica do eleitor pelos dois primeiros critérios, vou 
enfrentar também este debate.

A propaganda oficial do TSE sobre as novas urnas-e com biometria, que 
serão testadas em 3 municípios nesta eleição de 2008, tem seguido o mote 
que seriam "as urnas eletrônicas mais modernas do mundo" desenvolvidas 
para acabar com o "último reduto da fraude eleitoral": a possibilidade 
de um eleitor votar no lugar de outro.

Vejam por exemplo, o texto extraído do saite do TSE:

____________________________________________________

http://www.tse.gov.br/downloads/biometria/index.htm

Voto Seguro
:: IDENTIFICAÇÃO BIOMÉTRICA DO ELEITOR

... merece destaque o desenvolvimento de Urnas Biométricas, que 
processarão o voto a partir da identificação biométrica do eleitor. A 
missão da Justiça Eleitoral brasileira é a de colocar nas mãos dos 
brasileiros o futuro cada vez mais seguro para a democracia e levar o 
Brasil à vanguarda tecnológica dos processos eleitorais em todo o mundo.

... O objetivo desse cadastramento biométrico é excluir a possibilidade 
de uma pessoa votar por outra, tornando praticamente impossível a fraude 
ao procedimento de votação.
_____________________________________________________


Mas este discurso é apenas mais uma vez a Justiça Eleitoral apelando 
para o ufanismo simplório do brasileiro (...levar o Brasil à vanguarda) 
para vender a mistificação da tecnologia como panacéia contra todas as 
fraudes.

A tecnologia das fraudes evolui junto (e às vezes antes) com a 
tecnologia de segurança e é puro engodo esta propaganda de que agora é 
"praticamente impossível a fraude"

Entre as fraudes eleitorais via identicação falsa do eleitor (ou eleitor 
fantasma) duas se destacam por mais frequentes:

1) Os mesários se aproveitam da ausência de eleitores e fiscais e 
introduzem votos nas urnas-e em nome de eleitores que ainda não 
compareceram.

2) Pessoas "compram" ou "alugam' o título de um eleitor legítimo e se 
apresentam no lugar deste para votar.

Com relação a primeira destas modalidades de fraude em urnas-e 
brasileiras - o mesário desonesto - o TSE simplesmente não conseguiu 
resolver o problema do falso negativo (quando a urna biométrica recusa o 
voto de um eleitor legítimo) e na sua resolução 22.713/08 concede ao 
mesário uma forma de liberar a urna biométrica para votação por meio de 
uma senha:

"Res. TSE 22.713 - Art. 4º Inciso VIII
  – por fim, não havendo o reconhecimento biométrico do eleitor, o 
presidente da mesa receptora de votos autorizará o eleitor a votar por 
meio de um código numérico e consignará o fato em ata;"

De posse deste senha, mesários desonestos simplesmente continuarão 
podendo votar por eleitores ausentes e, provavelmente, não consignarão o 
fato em ata!

Com relação à segunda modalidade de fraude, comumente chamada de "compra 
de votos", convém assistir o episódio da série Myth Busters do Discovery 
Channel onde eles detonam o mito da inviolabilidade da impressão digital 
biométrica.

Por exemplo, vejam nos endereços:
   http://br.youtube.com/watch?v=LA4Xx5Noxyo
   http://br.youtube.com/watch?v=MAfAVGES-Yc
trechos deste episódio onde eles mostram como conseguem enganar o 
sistema de reconhecimento biométrico tanto do computador quanto de uma 
"fechadura biométrica" recorrendo a recursos banais com gelatina 
balística, filme de latex (cola branca escolar) e até com a impressão 
digital impressa em papel!

No segundo filme se mostra, inclusive, como obtiveram a amostra da 
impressão digital da pessoa autorizada sem que esta a tivesse fornecido 
voluntariamente.

Existem, ainda, outras modalidades de fraudes de identificação menos 
frequentes que também não serão resolvidas pelas novas urnas biométricas 
  como a "compra da abstenção" (se paga para um eleitor do adversário 
político não votar, mediante retenção do seu título e do seu RG).

Outro exemplo de fraude neste cadastro biométrico seria a inserção 
maliciosa, na base de dados, de comando que liber o cadastramento de 
pessoas com impressões digitais já cadastradas. Esta modalidade de 
fraude, que não seria possível sem as novas urnas-e, atende ao conceito 
de "centralismo fraudocrático" irônicamente anunciado pelo Prof. Pedro 
Rezende da UnB.

Enfim, a biometria só ajuda a resolver o problema do eleitor fantasma 
onde mesários e os operadores do cadastro são honestos e os fiscais atentos.

Mas, para evitar que eleitores ilegitimos possam votar em seções 
eleitorais onde os mesários são honestos e os fiscais atentos, não é 
necessário se recorrer a um carríssimo "maior cadastro biométrico do 
mundo" que o TSE planeja montar em 10 anos.

Bastaria usar a velha "tinta indelével", que se usou recentemente na 
eleição presidencial do Paraguai e que se usa nos parques Playcenter, 
para pintar o dedo do eleitor que já votou. Simples, baratíssimo e tão 
eficaz quanto a parafernália eletrônica.

Enfim, sob nenhum ângulo que se examine, como o político, o da segurança 
e o econômico, se vê argumentos que justifiquem o enorme gasto que o 
adminstrador e justiça eleitoral pretende incorrer com a adoção das 
urnas-e biométricas.

[ ]s
   Eng. Amilcar Brunazo Filho - Santos, SP
   www.votoseguro.org
   -----------------
   SEI EM QUEM VOTEI,
   ELES TAMBÉM,
   MAS SÓ ELES SABEM QUEM RECEBEU MEU VOTO


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O texto acima e' de inteira e exclusiva responsabilidade de seu
autor, conforme identificado no campo "remetente", e nao
representa necessariamente o ponto de vista do Forum do Voto-E

O Forum do Voto-E visa debater a confibilidade dos sistemas
eleitorais informatizados, em especial o brasileiro, e dos
sistemas de assinatura digital e infraestrutura de chaves publicas.
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        http://www.votoseguro.org
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