Entrevista que concedi a um jornal de Brasília:

> 1) O senhor defende que deveria causar desconfiança o fato de países 
> mais desenvolvidos não terem adotado ainda o voto eletrônico. O Brasil 
> ainda não é capaz de desenvolver uma tecnologia segura?

Capacidade tecnológica existe no Brasil.
O que não temos é uma base cultural (só 20 anos de democracia) e
estrutura institucional para termos um processo eleitoral transparente.

O acúmulo de poderes do nosso administrador eleitoral (que também
escreve as regras de como poderá ser fiscalizado e que julga os
processos contra si) só existe aqui no Brasil.

No resto do mundo é diferente.
Veja em:
http://www.votoseguro.org/textos/SenadoEstudoSistemasEleitorais.odt
(está em padrão de texto aberto .ODT - abrir com o Openoffice)

Do acúmulo de poderes no processo eleitoral para o obscurantismo
eleitoral é um só pulinho... que já foi dado a muito tempo.

> 2) O senhor argumenta que o TSE não buscou discutir a tecnologia com o 
> meio acadêmico. Que tipo de prejuízos isso traz?

O resultado é que temos no Brasil um sistema eletrônico de votação que
está sendo rejeitado e até proibido no resto do mundo.

Nos EUA, 39 dos 50 estados rejeitam o nosso modelo de urna:
http://www.verifiedvoting.org/

Na Holanda e no Paraguai foi proibido:
http://www.wijvertrouwenstemcomputersniet.nl/English
http://groups.google.com/group/votoeletronico/browse_thread/thread/aa19bbd656d75183/eb116d9f5faf12b5?lnk=gst&q=paraguai#eb116d9f5faf12b5

E é assim, no reino Unido, na Rússia, no Japão, na Coreia, na Argentina,
no México, na Venezuela, etc, etc...

> 3) O senhor diz que, no Brasil, a tecnologia depende da boa-fé dos 
> programadores e dos chamados superusuários. Por quê?

Porque o sistema não provê nenhuma forma documental de conferir
contabilmente a apuração dos votos feita pelas urnas eletrônicas.

Assim, ficamos na dependencia de que os projetistas e os controladores
do sistema sejam sempre 100% "santos", inatingíveis por tentação de
corrupção.

> 4) O senhor cita uma discussão internacional sobre o tema, por meio de 
> fóruns. Qual é a principal polêmica hoje em dia? Por que a relutância 
> dos países mais desenvolvidos?

O voto eletrônico está sendo aceito na maioria dos países (excessão da
Holanda que voltou ao voto manual) DESDE QUE SEJA PROVIDO UMA FORMA DE
AUTORIA CONTÁBIL DA APURAÇÃO ELETRÔNICA.

Esta forma de auditoria contábil está essencialmente ligada a existência
do voto em forma materializada (impresso ou escrito). Enfim, o que está
sendo rejeitado é a desmaterialização do voto (o voto puramente digital).

> 5) Atualmente, o eleitor não tem um comprovante de votação, como já foi 
> sugerido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Que prejuízos 
> isso traz?

Explique-se, primeiro, que o "comprovante do voto" não é para ser
entrege para o eleitor o levar para casa.

Este comprovante deve, necessariamente, ficar guardado numa urna
convencional lacrada para posterior recontagem.

É exatamente a materialização do voto que citei anteriormente. Sem ela
não há como se conferir a apuração eletrônica dos votos.

> 6) Em que pé está o projeto que o senhor citou do senador Roberto 
> Requião, que impede que a identidade do eleitor seja feita em máquina 
> conectada à urna?

O projeto de lei foi modificado e virou a lei do voto impresso que
depois foi inteiramente revogada, antes de vigorar em 2004, pela do voto
virtual.
- http://www.votoseguro.org/textos/PLazeredo.htm

Mas a questão da identificação do eleitor nas próprias urnas foi
totalmente rejeitada pelo administrador eleitoral (TSE) que conseguiu
que o referido parágrafo fosse excluído da lei aprovada. Nunca vigiu.

Este é o outro motivo (além da inexistência do voto materializado) que
leva à rejeição das urnas brasileiras no resto do mundo.

> 7) O sistema de biometria está em fase de testes e a Justiça Eleitoral 
> pretende implantá-lo no pleito de 2010. O equipamento é acoplado àurna 
> eletrônica. Isso permitiria a identificação do eleitor?

Não permite no projeto oficial. Teoricamente, os programas das urnas não
farão a vinculação entre o voto e a identificação do eleitor.

Mas, por outro lado, também permite que adulterações maliciosas que
forem implantadas no sistema façam esta vinculação, violando
sistematicamente os votos.

O problema então se torna: como evitar que a vinculação entre a
identificação do eleitor e seu voto seja feita nas urnas-e?

Fora do Brasil eles resolvem o problema de forma radical e absoluta: não
permitem a identificação do eleitor seja feita na mesma máquina onde se
vota.

Aqui no Brasil, o eleitorado tem aceito a palavra do TSE de que seria
impossível adulterar seus programas para fazer a violação do voto.

> 8) Em linhas gerais, o que pode ocasionar falhas na totalização dosvotos?

A totalização dos votos são feitas nos computadores dos Cartóriosou dos
Tribunais Eleitorais, através de Banco de Dados comuns (Oracle).

As falhas de segurança podem ocorrer na entrada dos dados (por meio da
troca dos Boletins de Urnas originais por outros falsificados) ou na
própria base de dados (por meio de acesso permitido).

Mas é importante destacar que o problema da Totalização é diferente do
problema da Apuração (nas urnas).

No caso da Totalização, existe o dado de entrada materializado, que éo
BU impresso nas seções eleitorais. Com este documento devidamente
recolhido, os partidos e fiscais podem auditar contabilmente a
Totalização e descobrir eventuais fraudes.

> 9) Há, na página do Fórum, um comparativo entre as eleições de Alagoas, 
> em 2006, e de Ohio, nos EUA. A "virada" repentina de um candidato foi 
> motivo de desconfiança na apuração feita pelas urnas eletrônicas. Como o 
> senhor vê a reação da justiça americana, que acionou a fabricante das 
> urnas, e da brasileira, que adquiriu novos equipamentos?

Esta comparação foi apresentada justamente para mostrar como a
concentração dos poderes eleitorais no Brasil resulta em obscurantismo e
  autoritarismo.

Lá em Ohio, onde não há a concentração de poderes, o administrador
eleitoral bancou a perícias nas urnas e, constatada a falha, acionou o
fabricante delas na Justiça Comum.

Aqui no Brasil, o administrador não quis gastar os R$ 2 milhões
necessários para fazer a perícia sobre as suas urnas e acabou gastando
R$ 6 milhões para comprar 6 mil novas urnas do mesmo fabricante de lá
(para substituir as urnas usadas em 2006 que segundo a versão oficial
"não tiveram nenhum problema")

Aqui, a perícia simplesmente não foi feita.

> 10) Há outros casos no Brasil de suposto desvio de votos ou votos não 
> computados que despertam a desconfiança dos especialistas? Como isso 
> pode acontecer?

Há muitos casos de dúvidas (é natural que existam) e nenhum caso de
apuração ou perícia feita de forma correta ou independente.

Como isto pode ocorrer?
A Justiça-Administradora nunca permitiu apuração dos casos suspeitos.

> 11) Na página, há um aviso dizendo que os deputados também não confiam 
> na urna eletrônica. Eles pretendem propor alguma alternativa?

Há anos existem alguns projetos de lei na CCJ da Câmara Federal. Mas a
pressão política do administrador eleitoral tem impedido que tais
projetos sejam votados.

A grande maioria dos políticos não conseguem dizer "não" a um pedido de
um juiz ou ministro do TSE para que tal ou tal projeto "seja melhor
discutido antes de ser votado".

Um "pedido" feito por um algoz plenipotenciário soa como ordem para o
coagido.

> 12) Na opinião do senhor, qual é mais confiável: a urna convencional ou 
> a eletrônica?

Nem uma nem outra. A confiança está nas formas como qualquer sistema
possa ser auditado.

O melhor sistema, para mim, seria aquele que usasse os recursos digitais
(virtuais) para controlar as fraudes materiais e usasse os recursos
materiais para controlar as fraudes virtuais.

Por isto defendo urnas eletrônicas com materialização do voto como está
sendo usado no resto do mundo civilizado.

[ ]s
   Eng. Amilcar Brunazo Filho - Santos, SP
   www.votoseguro.org
   -----------------
   SEI EM QUEM VOTEI,
   ELES TAMBÉM,
   MAS SÓ ELES SABEM QUEM RECEBEU MEU VOTO




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eleitorais informatizados, em especial o brasileiro, e dos
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