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(Tribuna da Imprensa, 14/11/08)

*Gastos da Justiça e urnas eletrônicas** *

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"Não haverá também liberdade se o poder de julgar não estiver separado
do Poder Legislativo e do Executivo. Se estivesse ligado ao Poder
Legislativo, o poder sobre a vida e a liberdade dos cidadãos seria
arbitrário, pois o juiz seria legislador. Se estivesse ligado ao Poder
Executivo, o juiz poderia ter a força de um opressor. Tudo estaria
perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, ou dos nobres,
ou do povo, exercesse esses três poderes: o de fazer leis, o de executar
as resoluções públicas e o de julgar os crimes ou as divergências dos
indivíduos". *(Montesquieu, "Do espírito das leis", capítulo VI, Livro
IX, oportunamente citado pelo ministro Eros Grau no STF, em 12 de
novembro de 2008)*

No dia 25 de março de 2007, o jornal "O Globo" publicou notícia com o
seguinte título: TSE gastará R$ 335 milhões em nova sede, projetada por
Niemeyer. No subtítulo, estava escrito: o novo prédio será doze vezes
maior que a sede atual e tem o custo do metro quadrado estimado em R$
2.831, superior ao das obras mais caras do Judiciário.

No dia 27 de março de 2007, respondendo a uma consulta do PFL, o
plenário do TSE decidiu que existia fidelidade partidária no País,
embora, como salientou agora o ministro Eros Grau, "o Tribunal Superior
Eleitoral não está autorizado, nem pela Constituição, nem por lei
nenhuma, a inovar o ordenamento jurídico, obrigando quem quer que seja a
fazer ou a deixar de fazer alguma coisa".

Com a repercussão da decisão do dia 27, não se falou mais no alto custo
da obra. O caráter "moralizador" da iniciativa legislativa da corte
eleitoral falou mais alto. Há um sentimento de rejeição em relação às
mudanças de partido, que ocorrem em geral apenas em função de interesses
pessoais dos detentores de mandatos.

A mídia centra sua artilharia em relação aos políticos, mas esquece de
falar dos constrangimentos impostos por legendas de aluguel e das
práticas dos partidos, controlados por algumas pessoas, algumas famílias
ou pelas máquinas do poder.

Aos formadores de opinião não ocorreu pesquisar como se engendram as
hierarquias desses partidos, como estes formam suas listas de
candidatos, como disponibilizam os horários de televisão, que são pagos
pelos contribuintes e não gratuitos, como pensa o povo, com base na
chamada feita pela estação TV ou rádio.

Daí, a partir do dia 27 de março de 2007, o TSE passou a ser o centro de
um debate legislativo, por conta da extrema pobreza intelectual do nosso
Congresso, cujos mandatários, em sua maioria, não conhecem sequer os
regimentos internos de suas casas de leis.

*Laptop a R$ 21 mil no STJ*

A questão da construção faraônica saiu de pauta. Na segunda-feira, 10 de
novembro de 2008, ouvi na CBN uma notícia sobre a compra de laptops para
o Superior Tribunal de Justiça. Segundo essa notícia, cada laptop
desses, cujos preços caíram a menos de R$ 2 mil no mercado, foi cotado
para uma licitação daquela corte por R$ 21 mil reais, um
superfaturamento explícito, sem acanhamento.

À noite, procurei na internet e não vi nada a respeito dessa compra. O
mesmo aconteceu nos noticiários de televisão e nos jornais do dia
seguinte. Acessei o site da ONG "Contas Abertas" e também não vi nada
sobre os laptops do STJ, cuja compra somaria mais de R$ 2 milhões,
segundo a mesma CBN. Fui buscar a notícia do prédio do TSE, publicada no
"Globo" do dia 25 de março de 2007 e reproduzida em vários sites e blogs.

Resolvi republicá-la agora, porque a discussão da matéria mais uma vez
no STF fez lembrar-me dela:

"Orçada em R$ 330 milhões, a nova sede do Tribunal Superior Eleitoral
(TSE) deve se tornar uma das construções mais caras do Judiciário. Só o
projeto, assinado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, custou R$ 7 milhões. Um
consórcio, formado pelas construtoras OAS e Via Engenharia, apresentou a
menor proposta: R$ 328,5 milhões. O edital prevê que a nova sede esteja
pronta em três anos, mas o contingenciamento do orçamento do Judiciário
pode atrasar a execução das obras.

O preço do metro quadrado, de R$ 2.831, é superior ao que foi pago pelas
sedes do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Superior do
Trabalho (TST) - consideradas duas das obras mais caras do Judiciário. O
novo prédio será doze vezes maior que a sede atual.

Embora o tribunal tenha apenas sete ministros e tenha grande demanda
apenas em anos eleitorais, o presidente do TSE, ministro Marco Aurélio
de Mello, defende a necessidade de uma nova sede. O prédio que hoje
abriga o TSE foi construído na década de 60 e conta com três anexos. O
novo TSE será erguido e às margens do Lago Paranoá, região nobre de
Brasília, num terreno cedido pela União em 2001".

*Quem quer o fim das fraudes?*

Lembro-me que para derrubar a lei que mandava imprimir o voto eletrônico
para eventual conferência o então presidente do TSE, Sepúlveda Pertence,
e o ministro Nelson Jobim, que também passou pelo mesmo cargo,
argumentavam que seria caro comprar as impressoras.

Fiquei pensando: será que usaram nesse caso os mesmos critérios de
cotação utilizados agora para os laptops dos ministros do STJ?

De qualquer maneira, enquanto mantiveram a discussão fechada em torno de
matérias não resolvidas, como esse entendimento obtuso sobre a relação
entre candidatos e partidos, a Justiça Eleitoral e as casas legislativas
vão se poupando da discussão de suas despesas e, numa outra janela,
mantendo intocável o atual sistema de apuração de votos, à prova de
qualquer conferência.

Na véspera do segundo turno passado, o prefeito Cesar Maia informou no
seu "ex-blog" como mesários de confiança de políticos votam pelos
eleitores nessas zonais mais distantes, em que certos candidatos
garantem suas eleições.

Fiquei pensando por que não discutem uma lei antifraude. Por que, por
exemplo, os títulos eleitorais não são como cartões bancários, que todo
mundo tem. O eleitor passaria na urna, como faz um aposentado para
receber sua grana, e depois assinaria na folha. A urna também imprimiria
o voto para eventual conferência.

Na Venezuela de Hugo Chávez eu vi com meus próprios olhos uma eleição à
prova de fraude, desenvolvida por uma empresa norte-americana, a
Smartmatic. Antes de se dirigir à seção eleitoral, o cidadão cadastra
suas impressões digitais.

Depois do eleitor votar, a própria urna eletrônica (e não outra máquina)
emite o voto impresso: ele confere e põe numa outra urna. À saída, ainda
marca um dedo com tinta azul que dura dois dias para não votar outra
vez. Ao final da votação, os resultados são enviados diretamente da
seção eleitoral para um computador central (sem essa de disquete)
através do telefone celular.

Aqui, bem, aqui, somos um dos raros países em que uma Justiça Eleitoral
faz tudo - gerencia as eleições, julga seus atos e ainda legisla a
respeito. Veja estudo a respeito.

http://jus2.uol.com.br/pecas/texto.asp?id=832
http://hormigaanalitica.blogspot.com/2007/12/culpar-smartmatic-de-los-resultados-es.html
http://www.venezolanosenlinea.com/index.php?option=com_content&view=article&catid=1:nacionales&id=10266:smartmatic-los-actores-polcos-no-cuestionaron-el-sistema-automatizado



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