Recebi do colega Luiz Ezildo a fábula abaixo.
Não conheço a autoria, por isto, não posso dar o devido crédito.
Mas estou repassando-a aqui para o fórum do Voto-e porque me pareceu
bastante adequada para explicar a resistência do administrador eleitoral
em simplificar (e tornar viável) a auditoria do resultado eleitoral pela
materialização do voto e posterior conferência por recontagem.
Amilcar
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A FÁBULA DOS PORCOS ASSADOS.
Certa vez, aconteceu um incêndio num bosque onde havia alguns porcos,
que foram assados pelo fogo. Os homens, acostumados a comer carne crua,
experimentaram e acharam deliciosa a carne assada. A partir daí, toda
vez que queriam comer porco assado, incendiavam um bosque...
Fazia tempo que as coisas não iam lá muito bem: às vezes, os animais
ficavam queimados demais ou parcialmente crus. O processo preocupava
muito a todos, porque se o SISTEMA falhava, as perdas ocasionadas eram
muito grandes - milhões eram os que se alimentavam de carne assada e
também milhões os que se ocupavam com a tarefa de assá-los. Portanto, o
SISTEMA simplesmente não podia falhar. Mas, curiosamente, quanto mais
crescia a escala do processo, mais parecia falhar e maiores eram as
perdas causadas.
Em razão das inúmeras deficiências, aumentavam as queixas. Já era um
clamor geral a necessidade de reformar profundamente o SISTEMA.
Congressos, seminários e conferências passaram a ser realizados
anualmente para buscar uma solução. Mas parece que não acertavam o
melhoramento do mecanismo. Assim, no ano seguinte, repetiam-se os
congressos, seminários e conferências.
As causas do fracasso do SISTEMA, segundo os especialistas, eram
atribuídas à indisciplina dos porcos, que não permaneciam onde deveriam,
ou à inconstante natureza do fogo, tão difícil de controlar, ou ainda às
árvores, excessivamente verdes, ou à umidade da terra ou ao serviço de
informações meteorológicas, que não acertava o lugar, o momento e a
quantidade das chuvas.
As causas eram, como se vê, difíceis de determinar - na verdade, o
sistema para assar porcos era muito complexo. Fora montada uma grande
estrutura: maquinário diversificado, indivíduos dedicados exclusivamente
a acender o fogo - incendiadores que eram também especializados
(incediadores da Zona Norte, da Zona Oeste, etc, incendiadores noturnos
e diurnos - com especialização matutina e vespertina - incendiador de
verão, de inverno etc). Havia especialista também em ventos - os
anemotécnicos. Havia um diretor geral de assamento e alimentação assada,
um diretor de técnicas ígneas (com seu Conselho Geral de Assessores), um
administrador geral de reflorestamento, uma comissão de treinamento
profissional em Porcologia, um instituto superior de cultura e técnicas
alimentícias (ISCUTA) e o bureau orientador de reforma igneooperativas.
Havia sido projetada e encontrava-se em plena atividade a formação de
bosques e selvas, de acordo com as mais recentes técnicas de implantação
- utilizando-se regiões de baixa umidade e onde os ventos não soprariam
mais que três horas seguidas.
Eram milhões de pessoas trabalhando na preparação dos bosques, que logo
seriam incendiados. Havia especialistas estrangeiros estudando a
importação das melhores árvores e sementes, o fogo mais potente etc.
Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, além
de mecanismos para deixá-los sair apenas no momento oportuno.
Foram formados professores especializados na construção dessas
instalações. Pesquisadores trabalhavam para as universidades para que os
professores fossem especializados na construção das instalações para
porcos. Fundações apoiavam os pesquisadores que trabalhavam para as
universidades que preparavam os professores especializados na construção
das instalações para porcos etc.
As soluções que os congressos sugeriam eram, por exemplo, aplicar
triangularmente o fogo depois de atingida determinada velocidade do
vento, soltar os porcos 15 minutos antes que o incêndio médio da
floresta atingisse 47 graus e posicionar ventiladores gigantes em
direção oposta à do vento, de forma a direcionar o fogo. Não é preciso
dizer que os poucos especialistas jamais estavam de acordo entre si, e
que cada um embasava suas idéias em dados e pesquisas específicos.
Um dia, um incendiador categoria AB/SODM-VCH (ou seja, um acendedor de
bosques especializado em sudoeste diurno, matutino, com bacharelado em
verão chuvoso) chamado João Bom-Senso resolveu dizer que o problema era
muito fácil de ser resolvido - bastava, primeiramente, matar o porco
escolhido, limpando e cortando adequadamente o animal, colocando-o então
numa armação metálica sobre brasas, até que o efeito do calor - e não as
chamas - assasse a carne.
Tendo sido informado sobre as idéias do funcionário, o diretor geral de
assamento mandou chamá-lo ao seu gabinete, e depois de ouví-lo
pacientemente, disse-lhe: "Tudo o que o senhor disse está muito bem, mas
não funciona na prática. O que o senhor faria, por exemplo, com os
anemotécnicos, caso viéssemos a aplicar a sua teoria? Onde seria
empregado todo o conhecimento dos acendedores de diversas
especialidades?". "Não sei", disse João. "E os especialistas em
sementes? Em árvores importadas? E os desenhistas de instalações para
porcos, com suas máquinas purificadores automáticas de ar?". "Não sei".
"E os anemotécnicos que levaram anos especializando-se no exterior, e
cuja formação custou tanto dinheiro ao país? Vou mandá-los limpar
porquinhos? E os conferencistas e estudiosos, que ano após ano têm
trabalhado no Programa de Reforma e Melhoramentos? Que faço com eles, se
a sua solução resolver tudo? Heim?". "Não sei", repetiu João,
encabulado. "O senhor percebe, agora, que a sua idéia não vem ao
encontro daquilo de que necessitamos? O senhor não vê que se tudo fosse
tão simples, nossos especialistas já teriam encontrado a solução há
muito tempo atrás? O senhor, com certeza, compreende que eu não posso
simplesmente convocar os anemotécnicos e dizer-lhes que tudo se resume a
utilizar brasinhas, sem chamas! O que o senhor espera que eu faça com os
quilômetros e quilômetros de bosques já preparados, cujas árvores não
dão frutos e nem têm folhas para dar sombra? Vamos, diga-me?". "Não sei,
não, senhor". "Diga-me, nossos três engenheiros em Porcopirotecnia, o
senhor não considera que sejam personalidades científicas do mais
extraordinário valor?". "Sim, parece que sim". "Pois então. O simples
fato de possuirmos valiosos engenheiros em Porcopirotecnia indica que
nosso sistema é muito bom. O que eu faria com indivíduos tão importantes
para o país?" "Não sei". "Viu? O senhor tem que trazer soluções para
certos problemas específicos - por exemplo, como melhorar as
anemotécnicas atualmente utilizadas, como obter mais rapidamente
acendedores de Oeste (nossa maior carência) ou como construir
instalações para porcos com mais de sete andares. Temos que melhorar o
sistema, e não transformá-lo radicalmente, o senhor, entende? Ao senhor,
falta-lhe sensatez!". "Realmente, eu estou perplexo!", respondeu João.
"Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema, não saia
dizendo por aí que pode resolver tudo. O problema é bem mais sério e
complexo do que o senhor imagina. Agora, entre nós, devo recomendar-lhe
que não insista nessa sua idéia - isso poderia trazer problemas para o
senhor no seu cargo. Não por mim, o senhor entende. Eu falo isso para o
seu próprio bem, porque eu o compreendo, entendo perfeitamente o seu
posicionamento, mas o senhor sabe que pode encontrar outro superior
menos compreensivo, não é mesmo?".
João Bom-Senso, coitado, não falou mais um a. Sem despedir-se, meio
atordoado, meio assustado com a sua sensação de estar caminhando de
cabeça para baixo, saiu de fininho e ninguém nunca mais o viu. Por isso
é que até hoje se diz, quando há reuniões de Reforma e Melhoramentos,
que falta o Bom-Senso.
--
[ ]s
Eng. Amilcar Brunazo Filho - Santos, SP
www.votoseguro.org
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SEI EM QUEM VOTEI,
ELES TAMBÉM,
MAS SÓ ELES SABEM QUEM RECEBEU MEU VOTO
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