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Governo é vítima de terrorismo virtual
Vasconcelo Quadros, Jornal do Brasil
BRASÍLIA - Sob constante ataque de criminosos, as cerca de 320 redes
de computadores do governo federal – entre elas sistemas do porte do
Banco do Brasil e o Serviço de Processamento (Serpro), que cuida do
coração da economia e do mercado financeiro – geraram uma nova demanda
para os órgãos segurança e de inteligência. Um inquérito que corre em
segredo na Polícia Federal, em Brasília, investiga a atuação de uma
quadrilha internacional que penetrou no servidor de uma estatal,
destruiu os controles, trocou a senha e, depois de paralisar todas as
atividades da empresa, exigiu um resgate de US$ 350 mil.
A ocorrência veio à tona durante depoimento do diretor de Segurança da
Informação e Comunicação do Gabinete de Segurança Institucional (GSI)
da Presidência da República, Raphael Mandarino Júnior, num debate
sobre terrorismo, na Comissão de Segurança da Câmara. Versão moderna
do delito de “extorsão mediante sequestro”, a invasão foi praticada,
segundo ele, por uma quadrilha estabelecida em um país do Leste
Europeu que exigia um depósito no valor do pedido de resgate para
devolver a senha modificada. Por se tratar de inquérito sob sigilo, a
Polícia Federal não fala sobre o assunto, mas confirma que as
investigações estão em andamento.
Orientado pelos órgãos de inteligência, apesar dos prejuízos causados
à estatal – ligada ao mercado financeiro – o órgão não pagou o
resgate, mas a audácia exigiu uma operação de emergência para escapar
da armadilha.
– Com a ajuda da Cepesc (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento para
Segurança das Comunicações), da Abin e de alguns especialistas,
conseguimos quebrar a senha colocada e recuperamos o servidor –
explicou Mandarino Júnior.
Embora a Abin tenha desenvolvido um dos centros de proteção contra
crimes cibernéticos mais modernos do mundo, a ocorrência revelou o
quanto é vulnerável a rede oficial de computadores.
Os registros da própria Abin mostram que no ano passado apenas uma das
grandes redes do governo – do porte do Banco Central – sofreu 3,8
milhões ataques, o que representa, na média, 2 mil tentativas de
invasão por hora. Multiplicado por 320 sistemas em 37 ministérios, as
ações contra a rede do governo obrigam os órgãos de inteligência a
aperfeiçoar permanentemente a vigilância e controle. As estatísticas
apontam que 70% dos ataques se dirigem ao sistema bancário, mas o que
mais preocupa são as tentativas de invasão contra os sistemas de
segurança do próprio governo: 10% das ocorrências são contra o
Infoseg, a rede de computadores que a Polícia Federal e os demais
órgãos de repressão utilizam para combater o próprio crime. Os demais
registros apontam que 15% são invasões em busca de informações
pessoais e 5% invasões de outra natureza.
– São robôs que ficam o tempo todo, de forma aleatória, checando a
vulnerabilidade do sistema. É como o ladrão que quer roubar o
toca-fita de um carro e, não querendo arrombar a porta, percorre um
estacionamento inteiro checando a maçaneta – explica o delegado Carlos
Sobral, da Polícia Federal.
Segundo ele, mais preocupante são os hackers que invadem sistemas e se
utilizam de outros computadores para praticar crimes ou direcionam o
ataque em busca de informações confidenciais.
Com 68 milhões de usuários de computador, o Brasil atualmente abriga
mais de 2% das redes zumbis (onde estão computadores de terceiros),
usadas para dificultar as investigações.
O crescimento do crime no Brasil – foram 700 prisões nos últimos
quatro anos – levou a Polícia Federal a criar a Coordenação de
Repressão a Crimes Cibernéticos, que instalará, até janeiro do ano que
vem, unidades em todos os estados do país. Cerca de 200 policiais
estão sendo treinados para atuar no setor.
Num aparente paradoxo, a alta incidência de ataques significa também
que o Brasil está entre os mais avançados em tecnologia da informação.
Os sistemas desenvolvolvidos na Abin renderam ao Brasil um espaço
junto à Organização dos Estados Americanos (OEA) para gerenciar
programas de segurança e dar respostas às ações de terrorismo
cibernético.
Mandarino Júnior diz que nos últimos quatro anos a Abin treinou e
instalou centros de resposta aos ataques em 25 países da América
Latina, alguns deles vizinhos. O Brasil não é alvo de ações
terroristas, mas na era da globalização virtual e, portanto, sem
fronteiras não está totalmente imune.
– Alguns de nossos servidores já abrigaram sites de captação e troca
de informações sobre terrorismo – diz o diretor da Abin.
20:00 - 15/08/2009
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