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21/10/2009 - 05h00

Voto eletrônico -- confiança e desconfiança

"Trata-se de tecnologia de elevado custo e pouco significado para a 
democracia. Talvez por isso as democracias tradicionais não o utilizem. 
Temos o voto eletrônico, mas a compra de votos aumentou no país"

 

/*José Rodrigues Filho*

*/Uma das decisões mais importantes da Câmara dos Deputados no corrente 
ano diz respeito à determinação de que, a partir das eleições de 2014, 
2% das urnas eletrônicas devam ter dispositivo para permitir a impressão 
do voto, garantindo uma futura auditoria do voto eletrônico. Apesar de 
atrasada, essa decisão visa atender a preocupações com a falta de 
segurança do voto eletrônico, segundo consenso da comunidade científica 
nacional e internacional. Enfim, foi uma decisão acertada e elogiável. É 
lamentável que tal decisão tenha passado despercebida pela imprensa da 
elite dominante, como sempre foi a discussão do voto eletrônico no Brasil.

A decisão acima mencionada está relacionada com um dos assuntos bastante 
discutidos na literatura nos dias de hoje -- a confiança e a 
desconfiança das tecnologias. A confiança nos dias de hoje é vista como 
um negócio, que interessa ao setor de tecnologia de informção. Embora 
venha sendo estudada há muitos anos, nos campos da filosofia, 
sociologia, psicologia, economia e administração, não existe ainda uma 
definição universalmente aceita do que seja a confiança. Nos campos da 
economia e administração, a confianca visa à maximização de lucros. 
Nesse caso, tenta-se se criar confiança em produtos como forma de 
multiplicar lucros.

No caso da computação e da tecnologia de informação, implica ter 
tecnologias confiáveis. Esse discurso interessa aos vendedores de 
tecnologia. Portanto, se não houvesse confiança nas urnas eletrônicas 
por parte do eleitorado brasileiro, possivelmente elas não estariam 
sendo mais utilizadas. Contudo, a grande questão é a seguinte: como o 
povo brasileiro adquiriu essa confiança? A quem interessa o discurso da 
confiança? Quem foi o responsável pela institucionalização do voto 
eletrônico no Brasil? Como se ter confiança no que não se conhece?

É preciso esclarecer que confiança e. uma relação entre pessoas e não 
entre pessoas e produtos. Numa relação de confiança entre pessoas e 
produtos, a confiança se torna uma mercadoria. Nesse caso, a confiança é 
manipulada, fabricada e criada como forma de opressão e abuso de poder. 
Em resumo, a confiança é criada e manipulada por trás de portas fechadas 
para atender a interesses corporativos. Tudo indica que a Câmara dos 
Deputados quis dar uma resposta a esse discurso de confiança manipulada, 
fabricada e criada pelos opressores no poder, ouvindo as vozes da 
desconfiança, incluindo aí especialistas nacionais e internacionais, que 
questionam a tecnologia atual de voto eletrônico.

A tecnologia de informação tem reforçado o prestígio e poder de algumas 
instituições públicas, a exemplo da própria Justiça eleitoral. Isso tem 
se dado muitas vezes em detrimento da cidadania. Nos últimos tempos, 
investiu-se mais na tecnologia do voto eletrônico do que em muitos 
programas sociais, com efeito muito mais positivo para a população 
brasileira, sobretudo nas áreas de educação e saúde. Durante alguns 
anos, por exemplo, gastou-se mais com a tecnologia do voto eletrônico do 
que com todos os hospitais de ensino do país, que prestam serviços 
essenciais à população carente. A suposta vantagem do voto eletrônico é 
que possibilita apresentar o resultado de uma eleição em poucas horas. 
Em termos de democracia, isso não é uma vantagem. O que o povo 
brasileiro precisa, de fato, é participar das decisões políticas do país 
e não saber o resultado de uma eleição em poucas horas.

A confiança dada a essas tecnologias precisa ser questionada. Durante 
anos a Justiça eleitoral no Brasil desenvolveu uma campanha de marketing 
para institucionalizar a confiança nas urnas eletrônicas. Vários foram 
os pronunciamentos de representantes da Justiça eleitoral afirmando que 
as urnas são seguras e conf iáveis, mesmo contrariando a literatura 
sobre segurança e confiança nas tecnologias de informação. A questão de 
confiança nas urnas eletrônicas precisa ser analisada no Brasil de forma 
aprofundada e não de forma instutucionalizada, como aconteceu. Nesse 
caso, é preciso analisar a questão de confiança do ponto de vista 
individual e institucional. O cidadão brasileiro confia nos seus amigos 
e seus familiares, mas, muitas vezes, nao confia nas instituições. A 
corrupção, a impunidade, o abuso de poder, a violência, o crime, as 
desigualdades e outros interesses, inclusive corporativos, precisam ser 
considerados numa análise da confiança no voto eletrônico no Brasil. A 
questão é complexa e nao pode ser resolvida pelas vozes do abuso de 
poder ou do autoritarismo.

É lamentável que o Congresso Nacional tenha adiado a questão para se 
testar o voto eletrônico no Brasil só em 2014. Isso demonstra a falta de 
pesquisas no país sobre o tema, de modo a orientar a classe política 
brasileira a tomar decisões. Um tema dessa relevância exige alguma forma 
de conhecimento, que, infelizmente, nao foi produzido no Brasil. O voto 
eletrônico sempre foi um mistério em nosso país. O discurso de confiança 
é da Justiça eleitoral e não da voz do povo ou do conhecedor da 
tecnologia, ou ainda proveniente de pesquisas. Gastou-se muito com a 
tecnologia de voto eletrônico, mas nao existem pesquisas sobre a sua 
utilização, a não ser para constatar que se trata de uma tecnologia de 
elevado custo e de pouco significado para a democracia e a sociedade. 
Talvez por isso as democracias tradicionais não o utilizem. Temos o voto 
eletrônico, mas a compra de votos, por exemplo, aumentou no país.
 
A Justiça eleitoral teme a utilização do voto impresso, já que 
provavelmente ela impedirá a divulgação do resultado das eleições em 
poucas horas. Isso significa perda de prestígio e poder e também aumento 
da desconfiança na tecnologia. Isso vai se dar talvez por conta de 
defeitos técnicos e não de atos corruptos. A experiência em outros 
países já mostrou as dificuldades de se operacionalizar o voto impresso. 
Nao se defende aqui a volta ao passado, mas é possível que a tecnologia 
de voto eletrônico usada no Brasil não seja a mais apropriada, sobretudo 
para um país em desenvolvimento. Também não se pode continuar utilizando 
uma tecnologia que não oferece possibilidades de auditoria. O país já 
deveria ter testado outras tecnologias, inclusive a de contagem de votos 
pela tecnologia de código de barras. O mundo desenvolvido está à espera 
de uma tecnologia de voto eletrônico confiável.

*/* Professor da Universidade Federal da Paraíba, foi pesquisador nas 
universidades de Harvard e Johns Hopkins. Atualmente, é professor 
visitante no Departamento de Telecomunicações e Estudos da Informação da 
Michigan State University.
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