http://direitoembits.blogspot.com/2010/08/invulnerabilidade-por-decreto-da-urna.html

SEGUNDA-FEIRA, 23 DE AGOSTO DE 2010
A invulnerabilidade (por decreto!) da urna
eletrônica<http://direitoembits.blogspot.com/2010/08/invulnerabilidade-por-decreto-da-urna.html>
Por Augusto Marcacini
Semelhança atrai semelhança! É o que se costuma dizer por aí... Enquanto o
Tribunal Constitucional alemão disse que as urnas eletrônicas são
inconstitucionais <http://www.dw3d.de/dw/article/0,,4070568,00.html>
 (comentadoaqui<http://direitoembits.blogspot.com/2009/03/urna-eletronica.html>,
neste blog), e a Holanda voltou a usar lápis e papel nas
eleições<http://www.rnw.nl/portugues/article/o-mundo-assiste-a-holanda-votar-a-l%C3%A1pis>
(também
mencionado 
aqui<http://direitoembits.blogspot.com/2010/07/eleicoes-na-holanda-com-lapis-e-papel.html>),
o portal G1 noticiou ontem que a polícia (da Índia) prendeu hacker indiano
que identificou falha em urna
eletrônica<http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2010/08/policia-prende-hacker-indiano-que-identificou-falha-em-urna-eletronica.html>
(também
da Índia).

A Índia é nossa parceira dos BRICs, não é? Está no nosso time de economias
promissoras terceiro-mundistas, em que a democracia é manca e a opinião
pública - por fatores variados, que vão desde o porrete até o analfabetismo
funcional - é fraca.

Esse parece ser o ambiente propício para a má-informatização do Estado, em
todos os níveis. Há um certo desenvolvimento, que lhe permite investir em
tecnologia; é fácil silenciar vozes dissonantes, se não pela força física,
pelo poder midiático do Estado e a incapacidade de compreensão, pela
sociedade, de problemas tão sofisticados; daí, para o agente público se
sentir o deus da tecnologia, que entrará para a História como o grande
modernizador da Nação, o passo é curto. Isso se formos limitar seu pecado a
apenas um dos sete, a vaidade. E para não falar no Código Penal...

O cientista indiano encontrou falhas na urna eletrônica de seu país. Está
preso porque o teste não foi autorizado. Ele obteve uma urna para testar por
algum canal, digamos, "alternativo" (que ele heroicamente omitiu até o
momento... por isso está preso!). Sim, porque ninguém pode honestamente
testar uma urna eletrônica à exaustão. Lá, como cá, as autoridades
responsáveis pela eleição (cá, o TSE) não permitem testes exaustivos e
independentes.

O máximo a que se chegou aqui no Brasil, não sem alguma pressão, foi a
realização de uma "auditoria" extremamente regrada e controlada pelo
TSE<http://g1.globo.com/Noticias/Politica/0,,MUL1378481-5601,00-APOS+TESTES+NO+TSE+HACKERS+DIZEM+QUE+URNA+ELETRONICA+E+TOTALMENTE+SEGURA.html>.
Como se quem comete fraudes fosse se sujeitar a limites impostos pela vítima
(se bem que, neste caso, a vítima é a sociedade, não o TSE...). O Prof.
Pedro Rezende, da UnB,
narrou<http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/penetracao.html>
como
tais testes foram efetivados: 13 dos 20 supostos "hackers" não demonstravam
ter a necessária expertise em testes de invasão de sistemas: eram
funcionários públicos de diversos órgãos do Governo, "técnicos escalados
pelo chefe que atendera por telefone algum pedido nesse sentido".

E prossegue Rezende:

"Sem direito de acessar ou compilar código fonte dos softwares (pois "foge
ao escopo"), e sem tempo para conhecer detalhes de implementação do sistema,
restava aos técnicos que aceitassem as regras -- imaginou-se -- tentar
adulterar algum código executável, na busca de sucesso em ataques
pré-autorizados. Porém, durante os testes, nenhum dos vinte técnicos sequer
utilizou linguagem Assembly no modo protegido dos processadores da urna.
Técnicos que ali não seriam hackers, seriamlamers "do bem"? " (grifei)

Como se vê, deixam testar. Mas não se pode mexer muito, né?

Ainda assim, com todas as restrições, um dos sete técnicos independentes
(aqueles que não estavam lá por ordem do chefe...) apontou que é possível
fraudar o sigilo da urna com um rádio AM/FM. Pode-se especular que não
conseguiu mais porque o teste durou apenas 4 dias. Nenhum teste sério de
segurança, de qualquer sistema que seja, pode ser assim limitado no tempo,
ainda mais em tempo tão curto, para um sistema que não é de amplo
conhecimento prévio dos auditores.

Se falhas como as apontadas nas urnas
indianas<http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2010/04/teste-mostra-que-urna-eletronica-da-india-poderia-ser-controlada-celular.html>
não
são detectadas e divulgadas por aqui, é porque o TSE não deixa testá-las
independentemente, sem regras casuisticamente estabelecidas, como o faria um
fraudador que pudesse pôr suas mãos sujas na maquininha. E porque nenhum
patriota tentou conseguir uma urna sem autorização e repetir o feito do
indiano Hari Prasad (e também correr o risco de ser preso...).

A urna eletrônica, portanto, só é invulnerável por decreto. É claro que
proibições neste sentido só atingem quem tem por norte cumprir a lei... Quem
frauda eleições não costuma ser muito sensível a esses limites.

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