ColunaRodrigo Constantino

Análises de um liberal sem medo da polêmica
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29/01/2014
 às 15:20 \ *Democracia
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Nosso sistema de votação é
seguro?<http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/democracia/nosso-sistema-de-votacao-e-seguro/>

Transformo em pergunta a afirmação que recebo como título da nota de
esclarecimento do corregedor do TRE, juiz Alexandre de Carvalho Mesquita,
em resposta ao artigo do advogado Luiz Roberto Nascimento Silva publicado
no GLOBO e comentando por mim
aqui<http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/democracia/as-urnas-eletronicas-sao-confiaveis/>.
Segue a carta na íntegra, em prol do bom debate e da busca da verdade:

*Nosso sistema de votação é seguro*

Na edição de 24/01/2014 do jornal O GLOBO, mais especificamente na página
17, o ex-ministro da Cultura e advogado Luiz Roberto Nascimento Silva
escreveu um artigo intitulado "Nossos sistema de votação é seguro?", onde
faz diversas colocações que são aqui rebatidas, uma a uma.

Inicialmente, o articulista afirma que lhe causa "estranheza que tenhamos
adotado o modelo eletrônico de votação, sem maior debate ou cuidado". O
sistema eletrônico de votação foi implementado pela Lei 9.100/95, tendo
observado todo o processo legislativo necessário para sua aprovação e
posterior sanção presidencial. Já são quase 20 anos de sua vigência. Nesse
período, a Justiça Eleitoral vem implementando uma série de mecanismos para
assegurar a lisura do processo de votação, inclusive contemplando a
participação de órgãos como o Ministério Público e a Ordem dos Advogados do
Brasil, os quais têm acesso ao desenvolvimento dos programas utilizados no
processo eleitoral, ocasião em que poderão suscitar dúvidas ou
questionamentos técnicos junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Posteriormente, discorre sobre EUA, Alemanha, França e Japão indagando
sobre a razão pela qual esses países utilizam processos históricos de
apuração, informando que, com relação aos EUA, "continuam a obedecer à
sistemática do voto distrital concebido na formação política e a utilizar
um sistema quase artesanal na apuração dos votos". Em primeiro lugar, é de
se destacar que o desenvolvimento econômico de um país não está vinculado
ao sistema de votação utilizado. Pensar dessa forma é reduzir sobremaneira
a formação histórico-cultural das diversas sociedades. Ademais, no que toca
à apuração da votação nos EUA, registre-se que aquele país simplesmente não
possui uma forma de votação unificada, pois cada estado escolhe a melhor
maneira de computar e contar seus votos. Na eleição presidencial
norte-americana de 2000, por exemplo, o resultado da votação demorou quase
um mês para ser anunciado porque a Flórida tinha um tipo de cédula que
dificultou a contabilização dos votos, gerando inúmeras recontagens de
votos e disputas acirradas entre Democratas e Republicanos. Com uma
diferença mínima entre os candidatos, aqueles poucos votos, que foram
recontados manualmente, tiveram o poder de alterar o resultado do colégio
eleitoral e, por consequência, decidir a eleição.

Em seguida, pergunta o articulista se "há algum backup disponível para a
consulta pública de zonas eleitorais?". Sim, há várias formas de se
verificar o resultado das eleições, não só nas zonas eleitorais, mas também
na rede mundial de computadores. O Boletim de Urna, que é o documento que
demonstra quantos votos cada candidato teve em uma urna eletrônica, está
disponível para consulta de todos nas zonas eleitorais. Esse documento é
assinado, no dia da eleição, pelos mesários e pelos próprios fiscais dos
partidos políticos presentes na seção eleitoral. Há, ainda, outros
instrumentos de verificação, como *log* da urna eletrônica e assinatura
digital de todos os *softwares* utilizados. Assim, fica claro que não
existe qualquer "caixa-preta" no processo de apuração dos votos. Aliás, a
urna eletrônica trouxe justamente uma segurança até então não conhecida na
história do voto no Brasil, haja vista lembrarmos das fraudes do "bico de
pena", do mapismo e a chamada "corrente eleitoral".

Diz o articulista, ainda, que "na estrutura atual de votação, todos os
votos das diversas zonas eleitorais são transferidos para o Tribunal
Regional Eleitoral". Trata-se de uma afirmativa equivocada, pois, na
verdade, os votos, antes de serem totalizados pelo Tribunais Regionais nas
eleições gerais e pelas zonas eleitorais nas eleições municipais, são
validados pelo Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília, que verifica
eventual tentativa de violação da urna eletrônica.

A seguir, discorre o articulista sobre a hipótese de, "faltando meia hora
para o fechamento das urnas, existindo um contingente de 300 eleitores que
deixaram de comparecer não é difícil imaginar um mesário com a lista dos
ausentes, soletrando o número dos títulos de eleitor e ao fundo o som da
urna eletrônica perguntando: Confirma? Confirma. Tudo rápido, simples, sem
impressão digital". Em primeiro lugar, a hipótese de fraude descrita pelo
autor não está relacionada ao sistema eletrônico de votação, mas sim ao
desvio da conduta das pessoas que trabalham na votação, o que poderia
ocorrer inclusive no sistema manual, como muito já ocorreu em nossa
história. Em segundo lugar, cada urna eletrônica comporta entre 500 e 600
eleitores, demonstrando a experiência ao longo dos anos que, ao final da
votação, ocorre uma abstenção de cerca de 15 a 20% dos eleitores de
determinada seção eleitoral. Assim, na hipótese em questão, seriam cerca de
75  a 120 eleitores faltantes. Em terceiro lugar, presume-se que os
componentes das mesas receptoras de votos, assim como os fiscais dos
diversos partidos políticos (concorrentes entre si) presentes no local
concordassem com a fraude. Ademais, o *log*da urna eletrônica, disponível
aos partidos políticos, teria como verificar o espaço de tempo entre cada
votação. Por fim, ignora o articulista o fato de que o TSE está promovendo
em todo o país o recadastramento biométrico dos eleitores, havendo a
previsão de que nas eleições deste ano mais de 22 milhões de eleitores já
sejam identificados pelas digitais.

Prossegue o articulista transcrevendo a fala do professor doutor Pedro
Antônio Dourado de Rezende, professor de Ciência da Computação da
Universidade de Brasília (UnB), coordenador do programa de Extensão
Universitária em Criptografia e Segurança Computacional da UnB, ATC PhD em
Matemática Aplicada pela Universidade de Berkeley (EUA) e ex-representante
da sociedade civil no Comitê Gestor da Infraestrutura de Chaves Públicas
Brasileira (ICP-Brasil). Respeito, como não poderia deixar de ser, a
opinião do ilustre professor doutor. Entretanto, como o referido professor
diz, "no caso da urna, se entra *software *honesto sai eleição limpa. Se
entra*software *desonesto sai eleição fraudada". Aí cabe não só a ambos mas
a toda a sociedade brasileira confiar na justiça eleitoral, que já deu ao
longo desses anos a prova do seu trabalho em prol da democracia e do
processo eleitoral. Além disso, como já mencionado, é possível a vários
setores de nossa sociedade, como à OAB, verificar a instalação e o
desenvolvimento desses*softwares*, certificando sua confiabilidade.

É importante ainda mencionar que é possível fiscalizar todas as fases de
preparação das eleições, sendo inclusive realizada auditoria, no dia das
eleições, nas urnas eletrônicas, por meio da chamada "votação paralela",
acompanhada de fiscais dos partidos políticos e representantes do
Ministério Público Eleitoral e da OAB. O articulista pode se informar a
respeito lendo as resoluções do TSE que tratam do assunto.

Dessa forma, como o próprio articulista diz, "até o momento a população não
tem restrições às mudanças, nem se constatou nenhum desvio grave.
Entretanto, institutos de pesquisas fizeram alguns prognósticos que depois
não se confirmaram nas urnas".  Digo mais: não se constatou desvio de
votos, pois a vontade do eleitor é respeitada pela Justiça Eleitoral. A
pesquisa, por essência, representa uma amostragem do eleitorado, não sendo
exata.

Finaliza o articulista questionando se "nosso passado político, nossa
prática de coronelismo, enxada e voto, mesmo com todos os avanços inegáveis
ocorridos no país, não nos sugeriram um maior cuidado?" Sim. E esse cuidado
vem justamente ao encontro do sistema eletrônico de votação. Aos eleitores
cabe fiscalizar o que vem sendo feito pelos seus representantes eleitos
para coibir práticas de corrupção como as mencionadas pelo articulista.

Na verdade, se realmente neste país se desvia merenda escolar e se rouba
remédio popular, o que o articulista, como ministro da Cultura e advogado,
fez de concreto contra práticas dessa natureza? Fica a pergunta.

*Alexandre de Carvalho Mesquita é Corregedor do Tribunal Regional Eleitoral
do Rio de Janeiro*

Alguns esclarecimentos parecem, de fato, pertinentes. Mas tem uma coisa que
continua incomodando muito, como uma pulga atrás da orelha: por que raios
os americanos, franceses, japoneses e alemães evitam a urna eletrônica?

Sim, "é de se destacar que o desenvolvimento econômico de um país não está
vinculado ao sistema de votação utilizado". Mas alguém poderia alegar que
falta a tecnologia para tanto? Claro que não! Portanto, que fatores
"culturais" seriam esses que fazem tais países, bem mais avançados,
rejeitarem esta tecnologia na eleição?

Essa pergunta, a mais importante de todas, continua sem resposta...

*Rodrigo Constantino*

*Tags:* Alexandre de Carvalho
Mesquita<http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/tags/alexandre-de-carvalho-mesquita/>
, Luiz Roberto Nascimento
Silva<http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/tags/luiz-roberto-nascimento-silva/>
, TRE <http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/tags/tre/>, urna
eletrônica<http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/tags/urna-eletronica/>

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