"Luciano Ramalho" <[EMAIL PROTECTED]> writes:

> Porque será isso? Eu tenho uma teoria: as empresas normalmente ODEIAM dar
> crédito a seus funcionários (existem exceções, mas são raríssimas). Na mente
> corporativa, os funcionários são como engrenagens em uma máquina. Dar
> destaque ao trabalho individual de um funcionário vai contra os interesses
> corporativos. O filme Rollerball fala sobre isto (o original de 1975 é uma
> obra prima de direção de arte; da versão mais recente eu só vi o lamentável
> trailler).

É interessante o teu comentário.  Não apenas por mostrar só um dos lados da
moeda, mas por levar a diversas outras considerações e razões para que as
coisas sejam dessa maneira.

Teoricamente uma empresa publica apenas informações corporativas, onde ela é a
responsável legal por todo e qualquer prejuízo que aquela informação venha
causar.  Acaba, então sendo também uma proteção ao autor do documento o fato
de seu nome não constar ali.  

Outro ponto é que um documento não é publicado exatamente como foi escrito.
Há um processo de adequação ao linguajar da empresa, revisões, orientação do
assunto, editoração, etc. portanto o autor do texto geralmente não é o único
envolvido.  O webmaster foi lá e mexeu, o gerente foi lá e leu / autorizou, o
diretor definiu os rumos da empresa e áreas onde os funcionários deveriam
focar seu trabalho, etc. fazendo do documento não a criação de um indivíduo --
em horário de trabalho pago pela empresa, diga-se de pessagem -- mas sim uma
criação conjunta de várias pessoas.  (Obviamente para pequenas empresas isso
não é tão verdade...)

Outro ponto, também, é a continuidade da prestação do serviço.  Você compra um
produto e tem um defeito.  Quando você liga para o fabricante quer a solução.
Não importa se o engenheiro que projetou o produto (leia-se: criou a idéia)
está ou não trabalhando lá.  Você quer um suporte àquele produto.  O mesmo
acontece com uma idéia ou um texto.  Não importa se quem escreveu aquilo é
ainda funcionário da empresa ou não, aquele documento é responsabilidade da
empresa.  Você o lê com o respaldo de "aprovado" pela empresa.

Processos de qualidade, por exemplo, exigem que o autor seja identificável.
Mas este não precisa ser identificado diretamente no portal do site ou no
documento.  Ele deve ser conhecido e encontrável.  Assim como revisores,
responsáveis pela aprovação, etc.

Um fator que também pesa bastante -- e esse eu já senti na pele algumas vezes
-- é o medo da companhia de perder seu empregado.  Muitas vezes ela o prende
dentro do escritório, não permite que ele se exponha diretamente para clientes
/ fornecedores e "protege-o" (isola seria um termo mais adequado...) do mundo
exterior.  Por quê?  Simplesmente porquê cobrir todas as ofertas dos
concorrentes é algo caro demais.

Há ainda o caso de contratos assinados quando se é contratato.  Quando
trabalhei em uma grande empresa na área de telecomunicações um dos documentos
que assinávamos era justamente a cessão dos direitos de tudo o que criássemos
ali (o que faz com que a empresa seja automaticamente a dona das criações).
Se a empresa não tivesse interesse ela poderia nos ceder a criação de volta ou
participar como sócia da idéia.  Isso valia para tudo, até mesmo planilhas
eletrônicas com lógicas simples.  Se criado dentro ou fora do trabalho é algo
irrelevante pois as informações não seriam obtidas sem o acesso por ele
garantido. 

O problema, portanto, não é apenas o apontado de "cobiça" ou "ganância", mas
engloba muitos outros fatores que podem ou não fazer sentido para quem olha de
fora ou não está acostumado com os meandros de grandes corporações /
negócios. 

> A maior lição que o software livre traz para o mundo é a seguinte: a
> meritocracia, dando crédito a cada colaborador, e o trabalho voluntário
> permitem que a gente crie coisas incríveis e de muito valor *sem*
> dependermos de empresas. Admirável mundo novo!

E também nos mostra que estes produtos devem ser usados "as is", "sem
garantias", "por sua própria conta e risco".  A mudança de paradigma de um
mundo onde a pessoa / empresa que publicou um documento era responsável por
aquela informação para um mundo onde o autor diz "funcionou pra mim, se não
funcionar pra você azar o seu" é bastante grande.

> PS. Não, eu não odeio empresas em geral. Odeio apenas a maioria delas, e
> principalmente aqueles oligopólios com que somos obrigados a nos relacionar:
> bancos, telefônicas, planos de saúde, seguradoras...

E isso não é um consenso mundial? ;-)  Assim como taxistas que dirigem
mal... ;-) 


Eu também não sou um defensor de empresas e nem nada, mas acho que cabe olhar
um pouco mais longe do que simplesmente para créditos de documentos publicados
em sítios web.

-- 
Jorge Godoy      <[EMAIL PROTECTED]>

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