Olá Sil!!!

 

Você sabe quem é este Plínio que escreveu a matéria?

 

 

Angela 

 

   _____  

De: [email protected] [mailto:[EMAIL PROTECTED]
Em nome de Silvana Cassiano
Enviada em: terça-feira, 11 de novembro de 2008 13:07
Para: [email protected]
Assunto: {3 Dias de Carinho:1339} Educação Invisível... (leia, apenas 2
minutos)

 

Carinhos, Bom Dia!!
 
Recebi esta mensagem e li até o final, e me fez refletir bastante a
respeito...então resolvi compartilhar com VOCÊS, se tiverem um tempo leiam.
 
Bjuk44s
 
Sil

Experiência que vale a pena ser lida. 

 

Tese de mestrado na USP - Respeito é tudo. 

'O HOMEM TORNA-SE TUDO OU NADA, CONFORME A EDUCAÇÃO QUE RECEBE'

 

'Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível'

Diário de São Paulo - Publicado em 11/4/2006 

Invisibilidade Pública 


Plínio Delphino


O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito
anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou
que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis,
sem nome'. 

Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da
'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente
prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se
somente a função e não a pessoa. 

Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$
400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua
vida: 

'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode
significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o
pesquisador. 

O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um
ser humano. 'Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por
mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu
ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se
tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão', diz. 

Apesar do castigo do sol forte, do trabalho pesado e das humilhações
diárias, segundo o psicólogo, são acolhedores com quem os enxerga. E
encontram no silêncio a defesa contra quem os ignora. 

 

Diário - Como é que você teve essa idéia? 

Fernando Braga da Costa - Meu orientador desde a graduação, o professor José
Moura Gonçalves Filho, sugeriu aos alunos, como uma das provas de avaliação,
que a gente se engajasse numa tarefa proletária. Uma forma de atividade
profissional que não exigisse qualificação técnica nem acadêmica. Então,
basicamente, profissões das classes pobres. 

 

Com que objetivo? 

A função do meu mestrado era compreender e analisar a condição de trabalho
deles (os garis), e a maneira como eles estão inseridos na cena pública. Ou
seja, estudar a condição moral e psicológica a qual eles estão sujeitos
dentro da sociedade. Outro nível de investigação, que vai ser priorizado
agora no doutorado, é analisar e verificar as barreiras e as aberturas que
se operam no encontro do psicólogo social com os garis. Que barreiras são
essas, que aberturas são essas, e como se dá a aproximação? 

 

Quando você começou a trabalhar, os garis notaram que se tratava de um
estudante fazendo pesquisa? 

Eu vesti um uniforme que era todo vermelho, boné, camisa e tal. Chegando lá
eu tinha a expectativa de me apresentar como novo funcionário,
recém-contratado pela USP pra varrer rua com eles. Mas os garis sacaram
logo, entretanto nada me disseram. Existe uma coisa típica dos garis: são
pessoas vindas do Nordeste, negros ou mulatos em geral. Eu sou branquelo,
mas isso talvez não seja o diferencial, porque muitos garis ali são brancos
também. Você tem uma série de fatores que são ainda mais determinantes, como
a maneira de falarmos, o modo de a gente olhar ou de posicionar o nosso
corpo, a maneira como gesticulamos. Os garis conseguem definir essa
diferenças com algumas frases que são simplesmente formidáveis. 

Dê um exemplo. 

Nós estávamos varrendo e, em determinado momento, comecei a papear com um
dos garis. De repente, ele viu um sujeito de 35 ou 40 anos de idade, subindo
a rua a pé, muito bem arrumado com uma pastinha de couro na mão. O sujeito
passou pela gente e não nos cumprimentou, o que é comum nessas situações. O
gari, sem se referir claramente ao homem que acabara de passar, virou-se pra
mim e começou a falar: 'É Fernando, quando o sujeito vem andando você logo
sabe se o cabra é do dinheiro ou não. Porque peão anda macio, quase não faz
barulho. Já o pessoal da outra classe você só ouve o toc-toc dos passos. E
quando a gente está esperando o trem logo percebe também: o peão fica todo
encolhidinho olhando pra baixo. Eles não. Ficam com olhar só por cima de
toda a peãozada, segurando a pastinha na mão'. 

 

Quanto tempo depois eles falaram sobre essa percepção de que você era
diferente? 

Isso não precisou nem ser comentado, porque os fatos no primeiro dia de
trabalho já deixaram muito claro que eles sabiam que eu não era um gari. Fui
tratado de uma forma completamente diferente. Os garis são carregados na
caçamba da caminhonete junto com as ferramentas. É como se eles fossem
ferramentas também. Eles não deixaram eu viajar na caçamba, quiseram que eu
fosse na cabine. Tive de insistir muito para poder viajar com eles na
caçamba. Chegando no lugar de trabalho, continuaram me tratando diferente.
As vassouras eram todas muito velhas. A única vassoura nova já estava
reservada para mim. Não me deixaram usar a pá e a enxada, porque era um
serviço mais pesado. Eles fizeram questão de que eu trabalhasse só com a
vassoura e, mesmo assim, num lugar mais limpinho, e isso tudo foi dando a
dimensão de que os garis sabiam que eu não tinha a mesma origem
socioeconômica deles. 

 

Quer dizer que eles se diminuíram com a sua presença? 

Não foi uma questão de se menosprezar, mas sim de me proteger. 

 

Eles testaram você? 

No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa
térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um
clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua
com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para
ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de
refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha
suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se
servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente,
senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o
cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem
sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a
caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como
se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E
eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a
conversar comigo, a contar piada, brincar. 

O que você sentiu na pele, trabalhando como gari? 

Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu
entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar
térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci
a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a
lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém
em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como
se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se
ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da
comida e voltei para o trabalho atordoado. 

E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou? 

Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a
situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando
- professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia
trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um
poste, uma árvore, um orelhão. 

 

E quando você volta para casa, para seu mundo real? 

Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está
inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que
essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens
hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas
periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão
de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do
que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como
se fossem uma 'COISA'.

Ser IGNORADO é uma das piores sensações que existem na vida! 

 

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