O Carnatal, maior evento do estado, encontrou porto seguro na nossa cidade,
sempre travestida de modernidade, seduzida pelo "outro", fadada à aculturação.
A Baianidade, azeitada pelo caldeamento de todos os santos e raças, lança
ritmos e concomitantemente consolida mercado, numa estratégia perfeita - sem
crise, nem baixa estação. Os defensores proferem argumentos hiperbólicos ("é o
maior fora de época do...") ou naturalizam ("é gerador de renda e emprego").
De um lado, o Carnatal, do outro, a fome geral catando latinhas. Papangus
modernosos, fantasiados de abadébeis e a corriola, pipocando além das
fronteiras marginalizantes das cordas. Aqui, essa indústria transforma e
transtorna a cidade, que passa por toda uma reengenharia, do trânsito, da
iluminação, na segurança/policiamento e na saúde, os serviços públicos
tornam-se otimizados, com aparatos eficientes, enquanto que no cotidiano
real...
Car(na)téis. Na horda da política (estadual e municipal) orbitam vereadores,
deputados, secretários, interagindo numa clara intervenção estatal no processo
de acumulaçãode riqueza, introduzindo novos elementos para dinamizar a
economia, sob a égide do turismo e do folclore artificial. A configuração do
poder local, em comunhão com os principais grupos econômicos, sincronizam
interesses ávidos, que convergem para a sustentação da animosidade carnabestial.
Vivalha a lamaravilha. A SAMBA (Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e
Adjacências), em movimento de resistência ao estorvo micareta, realiza o II
Carnabeco, homenageando foliões etéreos e eternos: Maestro Mainha, Lelo
Melodia, Blackout, Boscopeta. Axé ou ôxente? Um paralelo de parabélum na língua
- mais forte são os saberes do povo!
P.S: é um fragmento do texto
CASCUDO E CAR(NA)TÉIS
publicado no Jornal de Hoje Dez de 2003
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