Muitos riem do Bispo, mas aqui tem outra versão...

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De: Mendel <[EMAIL PROTECTED]>
Assunto: O Rio São Francisco
Data: Thu, 20 Dec 2007 14:25:22 -0200

Queridos amigos e amigas

Estou escrevendo com um pedido a todos. Espero que encontrem tempo para ler
este email, e se puderem, fazer alguma coisa. E que o espalhem para todos
que possam se interessar em fazer algo.

Desde fim de setembro nós (Mendel Hardeman e minha mulher Susanne) estamos
no interior da Bahia, na região de Canudos, trabalhando na realização de um
documentário entitulado "O Mar do Conselheiro".

No dia 21 de outubro, em Canudos, conheci um homem muito especial. Ele veio
almoçar na pousada onde nós estávamos hospedados, e como o lugar é pequeno e
não havia mesas suficientes para todo mundo, ele e seus dois acompanhantes
se desculparam e vieram sentar conosco na nossa mesa. Era um homem simpático
e muito sereno, com uns 60 anos de idade, que falava de maneira pausada e
bem-pensada. Começamos a conversar, e quando ele terminou de comer eu
perguntei pelo seu nome. Eu já imaginava quem deveria ser, mas queria ter
certeza. Um dos homens que lhe acompanhava respondeu por ele, e disse: "Ele
é, você sabe,  " - no que eu completei: "Bispo Luís Cappio?"

Eu sabia que Dom Luís estaria dando uma palestra em Canudos naquela noite.
Ele é bispo da cidade de Barra - BA, às margens do São Francisco. O São
Francisco é a artéria principal de água em todo o semi-árido nordestino. Sem
o São Francisco, o clima no Nordeste inteiro se tornaria tão seco que
qualquer forma de vida humana se tornaria insustentável. Já há muitos anos o
rio está sendo afetado por grandes obras: Hidrelétricas que fornecem
eletricidade para o Nordeste todo, e projetos de irrigação gigantescos que
possibilitam a produção em escala inconcebível de uvas para exportação no
meio do semi-árido. As uvas são irrigadas através de sistemas caríssimos,
enquanto a população a poucos quilômetros de distância é dependente de um
carro-pipa para o seu consumo diário.

Na construção deste tipo de projetos, normalmente a população local é levada
a deixar suas terras para dar lugar a empreendedores do exterior ou do Sul e
Sudeste do Brasil. Com isso, esta população acaba vivendo em terras tão
afastadas do rio que a água para irrigação e consumo se torna muito cara.
Enquanto isto, as empresas que tem um forte lobby junto ao governo recebem
as terras mais férteis, com água a baixo custo por estarem pertos do rio.
Depois de todas estas obras, o Rio São Francisco está sofrendo uma morte
lenta. Já há muitos anos, o governo Federal reconheceu que o rio está
agonizante, e que deveria-se fazer planos para revitalizá-lo. Estes planos
nunca saíram do papel. O que sim saiu do papel foi o plano megalomaníaco da
transposição do rio para o interior do Ceará, um plano que foi formulado
durante o Império de D. Pedro II e que nunca ninguém teve a "audácia" de
realizar. Serão construídos uma série de canais grandes que levarão água
para que no interior do Ceará seja possibilitada a irrigação de plantações
de empresários provenientes do Sul e Sudeste do Brasil, além de culturas de
peixe e camarão.

O governo Lula defende este plano dizendo que 12 milhões de "brasileiros
pobres" terão os benefícios desta transposição. Mas quem analisa os dados vê
que três quartos da água se destina `a irrigação do agronegócio, outros 20%
irão para a indústria, sobrando exatamente 4% para a população local. Além
disso, o preço que estes consumidores terão de pagar para receber esta água
é tão alto (devido aos custos do projeto) que nenhum "brasileiro pobre" terá
condições de pagá-lo. E o que é pior, o rio sofrerá danos
irreparáveis.Todos conhecem a música de Luís Gonzaga: "O Rio São
Francisco vai bater no
meio do mar..." - esta frase hoje já não é mais real. Um fato pouco
divulgado é que nos últimos anos o Rio São Francisco tem sido tão fraco
durante a estiagem que o Oceano Atlântico está entrando rio adentro, em vez
de o Rio entrar no Oceano. Tendo como consequência a salinização das terras
da população ribeirinha na foz.

No Brasil, normalmente costuma-se dar voz aos fortes, e raramente aos
fracos. Os fortes, que tem dinheiro, crêem ter com isso também mais direitos
que o fraco. E o fraco é pisado. Quem tem dinheiro tem influência na
política e na mídia, quem não tem dinheiro não tem acesso a nada; sua voz
não precisa ser ouvida. A não ser que ele grite muito alto, com muitas vozes
ao mesmo tempo. Porque quem é que teria interesse em ouvir a voz de um
camponês analfabeto da caatinga? Ele só aparece na mídia se falar daquilo
que todos já sabem - reclamando da seca e esperando que no ano que vem Deus
mande mais chuva; e exigindo o paliativo que o governo deve mandar na forma
de um carro-pipa...

Nós acabamos de passar uma semana no município de Macururé - BA, às margens
do São Francisco. Apesar da proximidade do rio, o município está em estado
de emergência por falta de água, e a população do interior do município é
obrigada a caminhar quilômetros e quilômetros todos os dias à procura de
água para os seus animais. Para quê transpôr o rio por centenas de
quilômetros, se até hoje nenhum governo se preocupou em fornecer água às
pessoas que moram quase à beira dele? A transposição não vai mudar em nada a
vida do povo de Macururé, que na sua maioria é analfabeta, não tem nenhum
poder político ou financeiro, e por isto nunca esteve em nenhuma lista de
beneficiados.

Dom Luís Cappio passou sua vida inteira lutando pelo Rio São Francisco e
suas populações ribeirinhas, que dependem do rio para o mais básico que todo
ser humano busca: a sobrevivência diária. Nos anos '90 ele organizou a
Marcha pelo São Francisco, uma marcha de organizações populares e ONG's
desde a nascente do Rio, em Minas Gerais, até o lugar onde ele se encontra
com o Oceano Atlântico, inventarisando as histórias de todas as populações
ribeirinhas.

Quando, em 2005, os planos para a transposição foram apresentados sem que
tivesse havido qualquer forma de consulta das populações locais, Dom Luís
Cappio entrou em greve de fome. Ele sempre fez campanha para Lula e para o
PT, porque este era o único partido de porte que enxergava a população do
semi-árido - os outros sempre têm se mantido cegos e surdos. Mas o próprio
bispo reconhece o problema atual: o PT pôde se manter no poder graças ao
apoio de grandes empresas, principalmente empreiteiras, que agora exigem o
retorno em forma de grandes obras. O fato de a transposição ser tão mal
projetada que mais de 40% da água se perderá através de evaporação antes de
chegar ao seu destino, pouco importa - o que importa é que há uma Grande
Obra a ser feita, e muito dinheiro a ser dividido.

A greve do bispo em 2005 se tornou manchete mundial. Depois de 11 dias o
governo Lula se viu tão pressionado que prometeu rever o projeto e iniciar
amplas consultas com as populações locais. Dom Luís interrompeu sua greve de
fome, e todos os envolvidos no sertão nordestino - que são muitos - se
articularam e ficaram esperando o próximo passo do governo. Mas nada
aconteceu. O governo não cumpriu suas promessas. O projeto foi revisto, mas
sem consulta local nenhuma, e reapresentado como "projeto definitivo".

E de repente o exército apareceu às margens do São Francisco, e cercou a
região onde as obras seriam iniciadas. Nem mesmo durante a ditadura militar
houve a necessidade de defender, com tanques de guerra e artilharia, uma
obra que se afirma ser para o bem da população local. As obras começaram,
bem protegidas do ódio desta mesma população. E a mídia pouco comentou...

No dia 27 de novembro, 5 semanas depois do dia em que eu lhe conheci em
Canudos, o Bispo Dom Luís Cappio iniciou sua segunda greve de fome. Hoje
entra no vigésimo terceiro dia.

Enquanto isto, o governo Lula mantém o mito dos 12 milhões de pobres que
serão atendidos. Se alguém se preocupasse com estes pobres, os R$ 20 bilhões
(ou seja, um 2 seguido de dez zeros) que a obra deve custar até que seja
terminada, dos quais R$ 6 bilhões serão gastos durante o governo Lula,
seriam usados de outra forma.  20 bilhões equivale a 10.000 x R$ 2 milhões,
ou seja, dez mil pequenas localidades no semi-árido (nem sequer há tantas
localidades no semi-árido) poderiam receber dois milhões de reais cada, para
resolver o problema da falta de água de suas populações do modo mais
apropriado para cada local, com ampla consulta de todos os envolvidos e sem
precisar de tanques de guerra.

Enquanto isto a mídia pouco informa sobre a situação na região. Para quem lê
a revista Veja, na semana passada esta revista publicou um artigo sem pé nem
cabeça, cuja única intenção era ridicularizar o bispo, sem fornecer nenhuma
informação concreta. Cito a reação de um leitor indignado:

"Parecem não conheçer a ordem dos franciscanos. Digo isso porque nas
entrelinhas tentam zombar, subestimar, e até mesmo ridicularizar uma
reputação tão séria e respeitosa como tem sido a vida de Dom Cappio, a quem
devo profundo respeito, embora não professando fé católica. Engraçado que os
políticos e a mídia pensam que os religiosos são iguais a eles, pois digo,
não o são. Um religioso é um mártir vivo, durante 24 horas do dia, ele não
apenas morre por uma causa. Ele vive em função dessa causa. O governo
deveria agir mais sensatamente com esse caso, estão dando pouca
significancia da influencia da ICAR na vida nacional."

Esta questão toda não me deixa em paz. Desde que cheguei no Sertão tenho me
sentido tão em casa e me identificado tanto com a gente daqui que não sou
capaz de deixar de ver o que está acontecendo. Durante o dia é difícil
pensar em outra coisa, e à noite não durmo porque as palavras do bispo, na
palestra daquela noite em Canudos, ecoam pela minha cabeça. Palavras
fundamentais, sobre Mahatma Gandhi e sua resistência pacífica, e sobre a
questão "Quando é que vale a pena dar a vida por alguma coisa?". Me pergunto
o que é que eu posso fazer, mas ainda não encontrei a resposta.

Acabo de ouvir no Jornal Nacional que Dom Luís Cappio foi internado depois
de ter perdido a consciência. Deixei de jantar e decidi que caso nada mude
nos próximos dias, deixarei de comer durante o Natal também - passarei os
dias 24 e 25 sem comer. Se penso naquele homem que estava sentado ao meu
lado naquela mesa, não consigo engolir comida nenhuma.

O único que posso fazer neste momento é pedir a todos vocês que visitem o
seguinte site:

   Uma Vida pela Vida - http://www.umavidapelavida.com.br

Ali se encontra toda a documentação relevante para quem procura saber mais
sobre este tema. E pedem a todos aqueles que queiram apoiar a ação em defesa
do Rio São Francisco e as populações ribeirinhas, que baixem uma
manifestação de apoio, e a mandem para o endereço indicado.

E quem se interessar: Continue pesquisando! Se informe! É medonho ver como o
povo do Brasil sabe tão pouco sobre toda esta história... Procure na
internet! Discuta! Tenha uma opinião baseada em dados concretos! E cuidado
para não se perder no labirinto de cifras que o Governo construiu para
enganar quem não conhece a situação na região. Não que os cálculos do
Governo estejam mentindo de forma aberta - mas sim, são um ajuntamento de
meias-verdades tão bem feito que até eles mesmos parecem acreditar no que
dizem.

Para você o Rio São Francisco pode parecer muito longe, mas esta questão é
de importância fundamental para grande parte do Brasil.

E por favor: espalhe esta mensagem!!! Mande este email para todas as pessoas
das quais você acha que elas possam se interessar no tema! É URGENTE!

Finalizando, eu queria pedir a todos aqueles que crêem num Deus maior que
nós seres humanos, que ponham toda esta questão perante Ele em oração.

Um forte abraço!

Mendel

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