O tema não me deixa calar. Esse projeto vem sendo discutido e otimizado
desde o império. O maior problema do São Francisco é o não cumprimento a Lei
que protege as matas ciliares e a falta de saneamento nas cidades em torno
do velho Chico.
Agora, não fornecer 1% da água que será misturada com a do mar, é descabido.
O objetivo único da transposição: ofertar água. É a garantia dela e o uso
racional para todos os meios necessários.
Hugo


Em 23/12/07, Clotilde Tavares <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
>
>   *Repito: leiam "Dom Sertão Dona Seca" de Otavio Sitonio Pinto, Editora
> Funesc, e vão ver um posicionamento corajoso e científico sobre a questão da
> transposição.
> Clotilde*
>
> Ørf escreveu:
>
>  Muitos riem do Bispo, mas aqui tem outra versão...
>
> -----
> De: Mendel <[EMAIL PROTECTED]>
> Assunto: O Rio São Francisco
> Data: Thu, 20 Dec 2007 14:25:22 -0200
>
> Queridos amigos e amigas
>
> Estou escrevendo com um pedido a todos. Espero que encontrem tempo para
> ler este email, e se puderem, fazer alguma coisa. E que o espalhem para
> todos que possam se interessar em fazer algo.
>
> Desde fim de setembro nós (Mendel Hardeman e minha mulher Susanne) estamos
> no interior da Bahia, na região de Canudos, trabalhando na realização de um
> documentário entitulado "O Mar do Conselheiro".
>
> No dia 21 de outubro, em Canudos, conheci um homem muito especial. Ele
> veio almoçar na pousada onde nós estávamos hospedados, e como o lugar é
> pequeno e não havia mesas suficientes para todo mundo, ele e seus dois
> acompanhantes se desculparam e vieram sentar conosco na nossa mesa. Era um
> homem simpático e muito sereno, com uns 60 anos de idade, que falava de
> maneira pausada e bem-pensada. Começamos a conversar, e quando ele terminou
> de comer eu perguntei pelo seu nome. Eu já imaginava quem deveria ser, mas
> queria ter certeza. Um dos homens que lhe acompanhava respondeu por ele, e
> disse: "Ele é, você sabe,  " - no que eu completei: "Bispo Luís Cappio?"
>
> Eu sabia que Dom Luís estaria dando uma palestra em Canudos naquela noite.
> Ele é bispo da cidade de Barra - BA, às margens do São Francisco. O São
> Francisco é a artéria principal de água em todo o semi-árido nordestino. Sem
> o São Francisco, o clima no Nordeste inteiro se tornaria tão seco que
> qualquer forma de vida humana se tornaria insustentável. Já há muitos anos o
> rio está sendo afetado por grandes obras: Hidrelétricas que fornecem
> eletricidade para o Nordeste todo, e projetos de irrigação gigantescos que
> possibilitam a produção em escala inconcebível de uvas para exportação no
> meio do semi-árido. As uvas são irrigadas através de sistemas caríssimos,
> enquanto a população a poucos quilômetros de distância é dependente de um
> carro-pipa para o seu consumo diário.
>
> Na construção deste tipo de projetos, normalmente a população local é
> levada a deixar suas terras para dar lugar a empreendedores do exterior ou
> do Sul e Sudeste do Brasil. Com isso, esta população acaba vivendo em terras
> tão afastadas do rio que a água para irrigação e consumo se torna muito
> cara. Enquanto isto, as empresas que tem um forte lobby junto ao governo
> recebem as terras mais férteis, com água a baixo custo por estarem pertos do
> rio. Depois de todas estas obras, o Rio São Francisco está sofrendo uma
> morte lenta. Já há muitos anos, o governo Federal reconheceu que o rio está
> agonizante, e que deveria-se fazer planos para revitalizá-lo. Estes planos
> nunca saíram do papel. O que sim saiu do papel foi o plano megalomaníaco da
> transposição do rio para o interior do Ceará, um plano que foi formulado
> durante o Império de D. Pedro II e que nunca ninguém teve a "audácia" de
> realizar. Serão construídos uma série de canais grandes que levarão água
> para que no interior do Ceará seja possibilitada a irrigação de plantações
> de empresários provenientes do Sul e Sudeste do Brasil, além de culturas de
> peixe e camarão.
>
> O governo Lula defende este plano dizendo que 12 milhões de "brasileiros
> pobres" terão os benefícios desta transposição. Mas quem analisa os dados vê
> que três quartos da água se destina `a irrigação do agronegócio, outros 20%
> irão para a indústria, sobrando exatamente 4% para a população local. Além
> disso, o preço que estes consumidores terão de pagar para receber esta água
> é tão alto (devido aos custos do projeto) que nenhum "brasileiro pobre" terá
> condições de pagá-lo. E o que é pior, o rio sofrerá danos irreparáveis. Todos
> conhecem a música de Luís Gonzaga: "O Rio São Francisco vai bater no meio do
> mar..." - esta frase hoje já não é mais real. Um fato pouco divulgado é que
> nos últimos anos o Rio São Francisco tem sido tão fraco durante a estiagem
> que o Oceano Atlântico está entrando rio adentro, em vez de o Rio entrar no
> Oceano. Tendo como consequência a salinização das terras da população
> ribeirinha na foz.
>
> No Brasil, normalmente costuma-se dar voz aos fortes, e raramente aos
> fracos. Os fortes, que tem dinheiro, crêem ter com isso também mais direitos
> que o fraco. E o fraco é pisado. Quem tem dinheiro tem influência na
> política e na mídia, quem não tem dinheiro não tem acesso a nada; sua voz
> não precisa ser ouvida. A não ser que ele grite muito alto, com muitas vozes
> ao mesmo tempo. Porque quem é que teria interesse em ouvir a voz de um
> camponês analfabeto da caatinga? Ele só aparece na mídia se falar daquilo
> que todos já sabem - reclamando da seca e esperando que no ano que vem Deus
> mande mais chuva; e exigindo o paliativo que o governo deve mandar na forma
> de um carro-pipa...
>
> Nós acabamos de passar uma semana no município de Macururé - BA, às
> margens do São Francisco. Apesar da proximidade do rio, o município está em
> estado de emergência por falta de água, e a população do interior do
> município é obrigada a caminhar quilômetros e quilômetros todos os dias à
> procura de água para os seus animais. Para quê transpôr o rio por centenas
> de quilômetros, se até hoje nenhum governo se preocupou em fornecer água às
> pessoas que moram quase à beira dele? A transposição não vai mudar em nada a
> vida do povo de Macururé, que na sua maioria é analfabeta, não tem nenhum
> poder político ou financeiro, e por isto nunca esteve em nenhuma lista de
> beneficiados.
>
> Dom Luís Cappio passou sua vida inteira lutando pelo Rio São Francisco e
> suas populações ribeirinhas, que dependem do rio para o mais básico que todo
> ser humano busca: a sobrevivência diária. Nos anos '90 ele organizou a
> Marcha pelo São Francisco, uma marcha de organizações populares e ONG's
> desde a nascente do Rio, em Minas Gerais, até o lugar onde ele se encontra
> com o Oceano Atlântico, inventarisando as histórias de todas as populações
> ribeirinhas.
>
> Quando, em 2005, os planos para a transposição foram apresentados sem que
> tivesse havido qualquer forma de consulta das populações locais, Dom Luís
> Cappio entrou em greve de fome. Ele sempre fez campanha para Lula e para o
> PT, porque este era o único partido de porte que enxergava a população do
> semi-árido - os outros sempre têm se mantido cegos e surdos. Mas o próprio
> bispo reconhece o problema atual: o PT pôde se manter no poder graças ao
> apoio de grandes empresas, principalmente empreiteiras, que agora exigem o
> retorno em forma de grandes obras. O fato de a transposição ser tão mal
> projetada que mais de 40% da água se perderá através de evaporação antes de
> chegar ao seu destino, pouco importa - o que importa é que há uma Grande
> Obra a ser feita, e muito dinheiro a ser dividido.
>
> A greve do bispo em 2005 se tornou manchete mundial. Depois de 11 dias o
> governo Lula se viu tão pressionado que prometeu rever o projeto e iniciar
> amplas consultas com as populações locais. Dom Luís interrompeu sua greve de
> fome, e todos os envolvidos no sertão nordestino - que são muitos - se
> articularam e ficaram esperando o próximo passo do governo. Mas nada
> aconteceu. O governo não cumpriu suas promessas. O projeto foi revisto, mas
> sem consulta local nenhuma, e reapresentado como "projeto definitivo".
>
> E de repente o exército apareceu às margens do São Francisco, e cercou a
> região onde as obras seriam iniciadas. Nem mesmo durante a ditadura militar
> houve a necessidade de defender, com tanques de guerra e artilharia, uma
> obra que se afirma ser para o bem da população local. As obras começaram,
> bem protegidas do ódio desta mesma população. E a mídia pouco comentou...
>
> No dia 27 de novembro, 5 semanas depois do dia em que eu lhe conheci em
> Canudos, o Bispo Dom Luís Cappio iniciou sua segunda greve de fome. Hoje
> entra no vigésimo terceiro dia.
>
> Enquanto isto, o governo Lula mantém o mito dos 12 milhões de pobres que
> serão atendidos. Se alguém se preocupasse com estes pobres, os R$ 20 bilhões
> (ou seja, um 2 seguido de dez zeros) que a obra deve custar até que seja
> terminada, dos quais R$ 6 bilhões serão gastos durante o governo Lula,
> seriam usados de outra forma.  20 bilhões equivale a 10.000 x R$ 2
> milhões, ou seja, dez mil pequenas localidades no semi-árido (nem sequer há
> tantas localidades no semi-árido) poderiam receber dois milhões de reais
> cada, para resolver o problema da falta de água de suas populações do modo
> mais apropriado para cada local, com ampla consulta de todos os envolvidos e
> sem precisar de tanques de guerra.
>
> Enquanto isto a mídia pouco informa sobre a situação na região. Para quem
> lê a revista Veja, na semana passada esta revista publicou um artigo sem pé
> nem cabeça, cuja única intenção era ridicularizar o bispo, sem fornecer
> nenhuma informação concreta. Cito a reação de um leitor indignado:
>
> "Parecem não conheçer a ordem dos franciscanos. Digo isso porque nas
> entrelinhas tentam zombar, subestimar, e até mesmo ridicularizar uma
> reputação tão séria e respeitosa como tem sido a vida de Dom Cappio, a quem
> devo profundo respeito, embora não professando fé católica. Engraçado que os
> políticos e a mídia pensam que os religiosos são iguais a eles, pois digo,
> não o são. Um religioso é um mártir vivo, durante 24 horas do dia, ele não
> apenas morre por uma causa. Ele vive em função dessa causa. O governo
> deveria agir mais sensatamente com esse caso, estão dando pouca
> significancia da influencia da ICAR na vida nacional."
>
> Esta questão toda não me deixa em paz. Desde que cheguei no Sertão tenho
> me sentido tão em casa e me identificado tanto com a gente daqui que não sou
> capaz de deixar de ver o que está acontecendo. Durante o dia é difícil
> pensar em outra coisa, e à noite não durmo porque as palavras do bispo, na
> palestra daquela noite em Canudos, ecoam pela minha cabeça. Palavras
> fundamentais, sobre Mahatma Gandhi e sua resistência pacífica, e sobre a
> questão "Quando é que vale a pena dar a vida por alguma coisa?". Me pergunto
> o que é que eu posso fazer, mas ainda não encontrei a resposta.
>
> Acabo de ouvir no Jornal Nacional que Dom Luís Cappio foi internado depois
> de ter perdido a consciência. Deixei de jantar e decidi que caso nada mude
> nos próximos dias, deixarei de comer durante o Natal também - passarei os
> dias 24 e 25 sem comer. Se penso naquele homem que estava sentado ao meu
> lado naquela mesa, não consigo engolir comida nenhuma.
>
> O único que posso fazer neste momento é pedir a todos vocês que visitem o
> seguinte site:
>
>    Uma Vida pela Vida - http://www.umavidapelavida.com.br
>
> Ali se encontra toda a documentação relevante para quem procura saber mais
> sobre este tema. E pedem a todos aqueles que queiram apoiar a ação em defesa
> do Rio São Francisco e as populações ribeirinhas, que baixem uma
> manifestação de apoio, e a mandem para o endereço indicado.
>
> E quem se interessar: Continue pesquisando! Se informe! É medonho ver como
> o povo do Brasil sabe tão pouco sobre toda esta história... Procure na
> internet! Discuta! Tenha uma opinião baseada em dados concretos! E cuidado
> para não se perder no labirinto de cifras que o Governo construiu para
> enganar quem não conhece a situação na região. Não que os cálculos do
> Governo estejam mentindo de forma aberta - mas sim, são um ajuntamento de
> meias-verdades tão bem feito que até eles mesmos parecem acreditar no que
> dizem.
>
> Para você o Rio São Francisco pode parecer muito longe, mas esta questão é
> de importância fundamental para grande parte do Brasil.
>
> E por favor: espalhe esta mensagem!!! Mande este email para todas as
> pessoas das quais você acha que elas possam se interessar no tema! É
> URGENTE!
>
> Finalizando, eu queria pedir a todos aqueles que crêem num Deus maior que
> nós seres humanos, que ponham toda esta questão perante Ele em oração.
>
> Um forte abraço!
>
> Mendel
>
> --- clip ---
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> Version: 7.5.516 / Virus Database: 269.17.6/1193 - Release Date: 22/12/2007 
> 14:02
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-- 
Hugo Macedo
www.fotohugo.blogspot.com

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