O futuro a deus pertence?
 
Cefas Carvalho
 
Adoro ler e assistir reportagens sobre previsões de ano novo. Acho mais 
divertido que Mr. Bean e Woody Allen juntos. É fascinante ver repórteres sérios 
em noticiários supostamente sérios ouvindo pais de santo, videntes e picaretas 
similares preverem o que vai acontecer em 2008. Na verdade, não é preciso ter 
poderes do além para saber o que tais seres iluminados vão prever para o ano 
que entra: um artista famoso vai morrer... outro, igualmente famoso, vai se 
separar... em algum lugar do Brasil, um avião com passageiros vai cair... um 
grande time de futebol vai passar por dificuldades no campeonato brasileiro... 
em suma, uma criança de dez anos percebe que as “previsões” não passam de fatos 
vagos que acontecem todos os anos e que certamente acontecerão em 2008. Mas, 
admito, é engraçado ver o pessoal cheio de badulaques, jogando búzios e fazendo 
cara de espiritualizado para as câmaras. Sei que estas performances de ano novo 
garantem aos “videntes” muitos clientes no decorrer do ano e como defendo 
veementemente que todo cidadão tem o direito inalienável de perder seu dinheiro 
da forma que quiser (seja com videntes, dando grana para o “bispo” Macedo 
comprar emissoras de TV ou adquirindo revistas de fofocas) acho legal que o 
mercado de trabalho de “previsões” ganhe uma aquecida. Lembro de uma amiga que 
recorreu a uma vidente, uma “Mãe Jaciara” da vida, talvez a própria, e assim 
que sentou em frente a ela, ouviu: “Você está com problemas...” Ora, quem vai a 
um vidente é porque está com problemas (geralmente amorosos e/ou financeiros). 
E assim, videntes, ciganos, pais de santos, gente desta qualidade vai ganhando 
a vida, a custa do dinheiro de gente que não se contenta em viver cada dia e 
fazer – a cada dia – que ele seja melhor, sem esta bobagem de saber o futuro, 
que, como reza a crendice popular, a deus pertence. No fim das contas, 
pragmático que sou, não faço a menor questão de saber meu futuro e sigo, cá 
para mim, os versos de Geraldo Vandré: “Quem sabe, faz a hora, não espera 
acontecer...”
 

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