O cidadão aí merece ser repórter da Caras, da Bravo ou da Papangu
(brincadeirinha, rssss). Alexandro, como é que o cara elege Fernada Tavares o
pináculo mais célebre da tribo potiguar e esquece Marina Elali de Julin?
p.s. celebridade é Cascudo que já foi até dinheiro.
Alexandro Gurgel <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
Caviar, champanhe e Ministério Público
João Moreira Salles
Natal, capital do Rio Grande do Norte, não é exatamente um celeiro de
celebridades. Com exceção da top model Fernanda Tavares, a fama dos personagens
nativos corre na faixa que vai da Paraíba ao Ceará. Mas, se o nordestino é um
forte, o colunista social potiguar é um hércules. A pobreza da lavra não o
impede de suar o rosto nas minas exíguas do jornalismo de sociedade. O ouro é
pouco; a concorrência, imensa. Espalhados por jornais, rádios e tevês, o
contingente de colunistas potiguares é forte de cerca de noventa almas.
O vespeiro se alimenta das festas, farras, intrigas, políticas e segredos de
alcova dos personagens que a tradição local organiza em três castas: os jets
(dotados de classe e dinheiro), os pibs (com mais dinheiro que classe) e os
pebas (sem nenhum dos dois). Nas últimas semanas, entretanto, o que se viu em
Natal foi uma inversão das coisas. Nem jets, nem pibs, nem pebas produziram as
notícias mais apetitosas da estação. Saborosos mesmo se saíram os colunistas.
Houve o episódio no restaurante italiano. Ainda que muitos nomes robustos da
sociedade estivessem matando ali a sua fome, o que atraiu olhos e ouvidos foram
os gritos que cruzaram o salão:
Vagabunda! Você é uma va-ga-bun-da! O autor da crítica mordaz era um dos
decanos do colunismo local. A vítima dos ataques, uma sua colega de profissão,
Eliana Lima, que acabava de ser contratada, a peso de ouro, para dar expediente
no mesmo jornal em que o agressor reinava absoluto. Ele agora teria de dividir
com a intrusa a página em que mandava e desmandava havia duas décadas. Donde o
epíteto eloqüente: Va-ga-bun-da! A moça, jovem e bonita, é conhecida por
haver modernizado a crônica social potiguar seguindo a escola da Mônica
Bergamo, querido.
Mas o caso Vagabunda! é trivial perto do affaire Hilneth Correia, uma senhora
de larga circunferência e feição bonachona que se proclama embaixatriz do Rio
Grande do Norte. Hilneth é a mais querida colunista da cidade. Jamais
imaginaria que alguém do mesmo ofício pudesse magoá-la tanto principalmente
um jornalistazinho jovem, sem história nem procedência nenhuma, segundo
palavras da própria. Em suma, um peba. Pois foi o que aconteceu.
Rodrigo Levino, o jornalista sem procedência, 25 anos, editor de cultura do
jornal JH Primeira Edição, entregou-se durante uma semana à tarefa de denunciar
o patrocínio do governo do estado e da prefeitura de Natal à festa de quarenta
anos de colunismo social de Hilneth. Com o título Celebration, o rega-bofe foi
anunciado em outdoors pela cidade. Numa clara prova de falta do que fazer,
Levino espalhou pela cidade, via e-mail, as logomarcas oficiais que
acompanhavam os anúncios. Insistia que se estava diante de uma farra privada
regada a verba pública. Exigia explicações.
Hilneth explicou. Na sua coluna na Tribuna do Norte, ensinou que o patrocínio,
chamado de master, era uma forma de divulgar as belezas e os atrativos de
Natal pelo sudeste-maravilha afora. A um custo ínfimo, o governo e a
prefeitura se responsabilizariam pelas passagens aéreas, hospedagem e city
tours de personalidades como Bruno Chateaubriand, Hildegard Angel, Glorinha
Távora, Madeleine Saad, André Ramos, Luiz Felipe Francisco, Miriam Galhardi e
Liliana Rodrigues. Tratava-se de uma estratégia notável, cuja conseqüência
natural seria propaganda turística de altíssimo cacife nas rodas do jet set
RioSão Paulo.
A explicação não impediu que o Ministério Público Estadual se interessasse pelo
assunto. O procurador de Justiça, através do promotor de Defesa do Patrimônio
Público, recomendou a abertura de investigação. De uma hora para outra,
produziu-se o impensável: estado, prefeitura e Hilneth não escaparam de prestar
esclarecimentos à Justiça. Como se não fosse horror suficiente, a colunista
ainda teve de se haver com a ameaça de Levino. O jornalista anunciou que, sendo
a festa bancada por dinheiro público, ele alugaria um caminhão e recolheria os
pobres, desdentados, feios e sujos da cidade, para que pudessem todos desfrutar
da Celebration. Hilneth quase infartou. Despeitado! Invejoso!, classificou,
aos prantos.
Encurralados pelo Ministério Público, os poderes locais acabaram suspendendo o
patrocínio. De última hora, e para tristeza da boa sociedade potiguar, quase
todos os VIPs desistiram de ir a Natal. Sem a boca-livre da patronagem oficial,
não houve disposição que resistisse. Adeus Bruno Chateaubriand, André Ramos,
Hildegard Angel, Liliana Rodrigues. Hilneth não se deixou abater. Enfrentou a
desdita com bravura e estoicismo. Imagine, dar satisfação à Justiça como se eu
fosse uma pessoa má, murmurava no camarim da Celebration. Logo eu, com
quarenta anos de história no jornalismo potiguar.
Com vinte manobristas, quarenta garçons, quatro telões, cinco bufês diferentes,
prosecco Pol Clement e uísque Old Parr (doze anos, a gosto), a Celebration foi
animada com show das Frenéticas. Ao som de Eu sei que eu sou/ bonita e
gostosa e Abra as suas asas/ solte as suas pernas, os convidados fincavam os
olhos nos três bravos semidesconhecidos que tinham vindo do sul prestar
solidariedade à embaixatriz potiguar. Madeleine Saad, Glorinha Távora e o
desembargador carioca Luiz Felipe Francisco foram recebidos com deferência. Não
tiveram de pagar 110 reais pela pulseirinha que dava acesso à festa. O
magistrado, bem mais contido do que a expansiva Madeleine, observava os
requebros tomando doses e doses de caipifruta de cajá com kiwi. A discrição se
manteve até o momento em que ele foi abordado pela drag queen Danuza DSalles,
a hostess da celebração. Daí para a pista de dança, foram dois passos. Luiz
Felipe Francisco não dança bem.
À medida que a noite avançava, uma angústia começou a pesar sobre o salão. Não
que se comentasse em voz alta. Seria fulminar a anfitriã, a essa altura com os
nervos à flor da pele. De orelha em orelha, cochichava-se: Será que vai chegar
a caçamba de pobres?
Não chegou. De mesa em mesa, aliviada, Hilneth agradeceu a todos pela atenção,
pelo carinho e pela alegria de suas quatro décadas de crônica social. Na coluna
do dia 18 de novembro, arrematou: Eu tive qualidade e quantidade.
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