Texto de Nelson Patriota publicado no blog Substantivo Plural FERREIRA GULLAR, PRECURSOR DE JOÃO GUALBERTO Imaginei, por uma fração de instantes, que o Poema sujo de Ferreira Gullar havia inspirado a Máquina de lavar poemas de João Gualberto Aguiar. Fui obrigado a descartar a idéia por verificar que ela não passaria de um anacronismo, pois o primeiro é de 1976, e o segundo, de 1973. Inverti, então, o raciocínio, que me levou ao seguinte argumento: com Máquina de lavar poemas Gualberto anteciparia o Poema sujo, que viria à luz três anos depois! Esse argumento se inspira na idéia borgiana de que cada escritor cria seus precursores. Embora pareça meio nonsense, trata-se de um argumento tão válido quanto outro qualquer. Perguntemos, então: o que o poema gullartiano, com a sujeira tão particular que sobrepaira à sua geografia e demografia, acrescentaria à engenhosa invenção gualbertiana, em retrospecto? Em que sentido sua escrita radical contribuiria para retirar as impurezas de um poema que se afirma máquina? E, caso lhe acresça ou lhe retire algo, como não o desfiguraria, tornando-o algo diverso do poema de Gualberto? Só em parte tentaremos responder a essas questões. Transformado agora em precursor do Poema sujo, Máquina de lavar poemas de João Gualberto tem necessariamente de ser lido não somente como um capítulo da literatura da era do mimeógrafo, nascido no bojo das transgressões vanguardistas e do experimentalismo do poema concreto e que tais, razão pela qual consta, por exemplo, na Antilogia de J. Medeiros. Ao estabelecer um vínculo (não importando se arbitrário) com o rigoroso livro de Gullar, e apoiado apenas numa hipótese borgiana, o engenho gualbertiano pode ser lido agora livre da fuligem vanguardista que o protegia da luz solar, quando deixava ver tão-somente silhuetas e formas imprecisas. Tomemos um poema da Máquina: TANTO NÃO ADIANTA PREVER AS CICATRIZES PENÚLTIMAS PELO AVESSO DAS MATRIZES AS RAÍZES DO ANTIGO PORTO MORTO ONDE ERAS UM RIO NAVIO ONDE ERAS UMA PRAIA UM ALTAR ONDE ERAS UM MAR UM VELÓRIO AO V ENTO DE VELAS ACESAS ONDE ERAS UM FRIO Com a inocência própria às vanguardas, leríamos o poema acima como um conjunto de idéias soltas mas perfeitamente aceitáveis (as vanguardas em geral não costumam estabelecer limites para si mesmas) porque o poeta assim quis, porque poesia é isso aí..., ou por qualquer outro argumento propositivo. A leitura do Poema ujo nos faz ver os excessos praticados pelo invento gualbertiano, bem como seu aspecto fragmentário, e nos levar a questionar o método que dispara seu mecanismo. E aí aparecem revelações que, à época, passariam ao largo. Vemos, por exemplo, que o poema se guia claramente pelo processo de associar cada nova palavra posta, a partir de uma dada palavra qualquer, uma que lhe guarde semelhança fonética ou semântica. CICATRIZES, MATRIZES e RAÍZES; PORTO e MORTO; PORTO, essa palavra-valise, convoca palavras como NAVIO, PRAIA, MAR; poderíamos até admitir VELÓRIO, devido à sua semelhança com VELEIRO, ou à palavra MORTO, por afinidade semântica; esta, por sua vez, gera as palavras VELAS ACESAS. Note-se, porém, que a palavra ALTAR também é origem para VELAS ACESAS, haja vista a polissemia da palavra vela (de barco, de altar) o que nos leva a concluir que o método gualbertiano pode admitir outras fontes. A palavra conclusiva FRIO tem a ver com sua análoga RIO, embora apareçam distanciadas no verso. Observe-se ainda o que o invento gualbertiano foi capaz de fazer com os versos de Serenata do Pescador, do poeta Otoniel Meneses e do musicista Eduardo Medeiros: praieira dos meus amores dos meus rigores giroflácidos afogados em alto mar praieira dos meus pecados originais pecados mortais vividos a pensar em luas e lobisomens praieira dos meus desejos dos meus fracassos dos meus recados dos teus poetas ao sussurro das ondas praieira dos meus amores Ferida sem gravidade em seu lirismo original, a canção de Otoniel & Eduardo sai da lavanderia gualbertiana levemente alterada, com pequenos acréscimos anarco-antropofágicos. O uso do nonsense em palavras como giroflácidos apenas acentua as liberdades a que o poeta se dá quando sai à caça não do sentido, mas da sonoridade das palavras. Quanto ao acréscimo Luas e lobisomens, podemos vê-lo como uma nota de humor sugerida pela aliteração que irmana essas palavras. Se atentarmos para outros detalhes do livro, veremos que ele tem momentos confessionais, intimistas, onde o poeta parece se despojar de toda a aura e de qualquer pompa, para se assumir em sua frágil temporalidade humana. O texto, embora posto à maneira de poema, já que vem aparece após um poema anterior, vale como uma espécie de apresentação ou nota do autor. Nele lemos coisas essenciais para a compreensão do livro: Escreviver é viver a escrita por um ato de amor De prazer por um brinquedo de papel uma máquina De escrever e uma folha de papel o meu univer O meu universo é a escrita, a forma da palavra, o dizer o que se tem abc. Pode ser o verso ou o inverso da minha vida, do meu ser, do meu respirar A máquina de lavar os poemas nasceu por sentir-me sujo no terreno baldio [...]Sou um repórter, prefiro entrevistar a a ser entrevistado o que eu queria mesmo era ser cantador de feira, porém não sei cantar: só sei ler e escrever e isso me basta[...]. A essência do livro de João Gualberto é, porém, sua alteridade, localizada naquele ponto em que o poeta resolve ir além da semântica e da fonética e busca algo que incorpore um sentido tão amplo das coisas que, ao dizê-las, elas nele percam o que tenham de individual, somando-se a um sentido resultante dessa massa verbal. Há poetas para quem esse tipo de projeto é uma rematada tolice. Gualberto não pensa assim. Máquina de lavar poemas na verdade encobre sua verdadeira identidade sob essa denominação. Sua verdadeira natureza vai além do ato de lavar poemas; depura-os de tantos elementos portadores de significado que se precipita rumo a um sentido total. Embora não o alcance, ainda, impele muitas palavras a se habituarem ao convívio com outras com as quais raramente se cruzam. Esse processo é domínio próprio da poesia. Se uma idéia inicial perde o rumo, como enveredando por becos, vielas, atalhos, está pagando um preço pela transgressão ambiciosa de resgatar valores mais adiante. Poderíamos ler aí um processo de livre associação, ou algo ainda mais notável: o famoso stream of consciousness, brilho e glória do Ulisses de James Joyce. O processo de leitura dos demais poemas, escritos em maiúsculas, da máquina gualbertiana, se atém mais ou menos fiel à análise propugnada por Borges. É evidente que poemas visuais, destituídos, à primeira leitura, de qualquer compromisso semântico, dispensam o auxílio borgiano. O próprio fato de serem denominados visuais é porque se destinam preferencialmente ao sentido visual... Do mesmo modo que Gullar ilumina a leitura de Máquina de lavar poemas, podemos afirmar que este último ilumina a leitura de certos poemas que Avelino Araújo, Bosco Lopes e Franklin Capistrano escreveriam mais tarde. Para essa tarefa, porém, podemos dispensar a hipótese borgiana, já que voltamos ao terreno da cronologia. A propósito da edição recém-lançada de Máquina de lavar poemas temos a observar que ela não se distingue muito da edição mimeógrafo desse livro, feita em 1974, em pelo menos um aspecto editorial importante, a ausência de uma ficha catalográfica. Isso explica por que lhe falta uma informação importante como seu ano de impressão. Em se tratando de uma gráfica que pretende voltar ao mercado, depois de anos de afastamento, é uma falha grave. Incluído em: 27/12/2007
