Mais uma crônica, das muitas que publiquei n'A União - onde escrevo às
quartas-feiras.
Clotilde
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*O Céu e o Inferno (por /Clotilde Tavares)
/Publicada n'A União, em 5 de dezembro de 2007./
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Andei confessando aí umas maldades que havia feito. Maldades bestas,
como, por exemplo, azucrinar as moças do telemarketing que ligam para
minha casa, interrompendo meu trabalho. Feito menino ruim, divirto-me em
alugar as pobres coitadas, pedindo a elas RG e CPF, nome completo e
endereço, do mesmo jeitinho que elas fazem comigo, depois digo que vou
consultar meu marido, ou meu pai, e deixo o fone junto da FM ligada
tocando forró-de-plástico. Uma amiga alegou que essas garotas não
mereciam serem tratadas assim porque estão apenas fazendo o trabalho
delas, e eu concordei, e bati no peito: mea culpa, mea culpa, mea máxima
culpa. E fiquei cá comigo pensando que devo merecer o Inferno por tanta
maldade praticada.
Com efeito, o que seria a minha vida no Céu? Cânticos, paz profunda,
anjinhos, nuvens cor-de-rosa e onze-mil-virgens. Os santinhos atarefados
atendendo pedidos dessa Humanidade sofredora, sem tempo para um dedo de
prosa. E eu, provavelmente, encontraria fechada a porta de tão augusta
morada da mesma forma que a encontrou Lampião, como foi relatado no
célebre folheto de José Pacheco "O grande debate de Lampião com São
Pedro": "Chegou no céu Lampião/ A porta estava fechada/ Ele subiu a
calçada/ E ali bateu com a mão/ Ninguém lhe deu atenção/ Ele tornou a
bater/ Ouviu São Pedro dizer:/ - Demore-se lá! Quem é?/ Estou tomando
café!/ Depois o vou atender!"
Isto posto, terminei chegando à conclusão, meu pacientíssimo leitor, que
o meu lugar deve ser mesmo no Inferno. Lá encontrarei meus maiores
ídolos: Jim Morrison, Janis Joplin, Jimmi Henrix, James Dean, Marilyn
Monroe e todos os que morreram arrastados pela mistura fatal de overdose
com talento em estado puro. Isso incluiria até a minha mais declarada
paixão, o Bardo de Stratford, o imortal William Shakespeare que, como
rezam os relatos, morreu depois de uma bebedeira com os amigos.
Lá estarão com certeza aqueles que, como eu, e por toda a vida, se
consumiram no fogo vivo da paixão, desejaram a mulher ou o homem do
próximo, comeram demais, beberam muito, fumaram todos os cigarros,
viajaram de ácido, passaram horas no desfrute quando deveriam estar
trabalhando, fizeram de tudo para acanalhar com a ordem e o progresso,
votaram nulo, repudiaram o Estado, gostaram mais de rock and roll do que
de MPB, foram politicamente incorretos, não construíram sólidos
patrimônios materiais e gastaram tudo com livros, discos e DVDs, e
perderam sempre o controle porque amaram, amaram, amaram desbragada,
pagã e pecaminosamente, sem olhar a quem.
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