A sua crônica “O Céu e o Inferno” Clotilde apareceu na tela do computador no 
exato momento que estava lendo o texto de Ferreira Gullar na FSP de hoje (ctrl 
C ctrl V abaixo). Tristes tempos os de hoje. A caretice impera. Sexta feira 
passada passou num canal pago Woodstock, o filme. “Meus heróis morreram de 
overdose, meus inimigos estão no poder”. Este ano faz quarenta anos que a 
imaginação sonhou em tomar o poder numa Paris hoje sem a fumaça dos Gitanes nos 
cafés.OK vocês venceram gritava a Blitz. Sim, a qualquer momento o capitão 
Nascimento vai invadir a minha casa com um saco plástico e uma escopeta e 
depois nem deus sabe o que vai acontecer com o meu vizinho. Mamãe eu quero ir 
ver o céu de São Luís porque a vida não devia ser assim. Sejam felizes em 2008 
porque 2009 vai ser muito pior. Abraço. Augusto lula

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 FERREIRA GULLAR 
Diamba 
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Tidos como "caretas", fomos excluídos de certas festas que, a bem dizer, já não 
eram festas 
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EU SOU do Maranhão, terra da maconha, que lá se chama diamba. Dos 13 aos 15 
anos, fora da escola, tornei-me uma espécie de campeão mirim de bilhar, no 
botequim do Constâncio, na praia do Caju. Como era de menor e não tinha 
dinheiro, jogava numa sala escura que havia nos fundos do boteco, num bilhar 
velho, e pagava moendo cana, numa pequena moenda que havia ali mesmo. Um dia, 
Carrapicho me chamou num canto e me deu um cigarro de diamba para eu tragar. 
Achei horrível, com gosto de capim velho, e quase vomito. Já Maninho 
experimentou e gostou. Da diamba passou para a cocaína, virou marginal, veio 
parar numa favela do Rio, onde sumiu. Foi encontrado muitos anos depois, 
internado numa clínica psiquiátrica, em Belo Horizonte, e lá morreu.
Em São Luís, naquele tempo, fumar maconha era coisa de marginal e, de vez em 
quando, nos subúrbios por onde eu andava, surgia um bafafá, provocado por algum 
maconhado que endoidara e ameaçava matar alguém a facadas. Uma tarde, na Madre 
de Deus, vi um sujeito sair "nuinho" na rua, com um revólver na mão ameaçando 
atirar em todo mundo. Amarrara um bode.
É verdade que, naquele tempo, essa expressão não existia nem era charmoso 
curtir um baseado, como passou a ser depois que os Beatles tornaram as drogas a 
salvação da juventude. Quem não fumava maconha nem cheirava cocaína era 
"careta", um pobre de espírito, que acreditava em gente com mais de 30 anos. 
Não se ia a uma festa de aniversário que não rolasse um baseado. Alguém acendia 
o cigarro, que passava de mão em mão. Nas festinhas de adolescente era a mesma 
coisa, quem não topava não era mais convidado e terminava aderindo.
A pressão para o cara se drogar era grande. Maconha e cocaína tornaram-se uma 
espécie de seita, que identificava quem era da tribo e quem não era. Eu, 
Vianinha, Teresa, Paulo Pontes não éramos. Tidos como "caretas", fomos 
excluídos de certas festas que, a bem dizer, já não eram festas, mas simples 
pretextos para se drogarem, ao som atordoante da guitarra de Jimi Hendrix. 
Dizia-se, com orgulho, que ele era doidão e que, de tanto injetar cocaína nas 
veias, já não tinha uma veia incólume nos braços e estava injetando nas da 
cabeça. Era, como se vê, uma maravilha! Tempos heróicos aqueles. Pena que os 
heróis daquele tempo deram-se todos muito mal, morrendo de overdose. Era a 
contracultura. E eu pensava comigo: se o homem é um ser cultural, em que se 
transformará destruindo a cultura?
Depois que alguns dos nossos conhecidos se deram mal e terminaram no Pinel, em 
camisa-de-força, passou-se a alegar que perigoso mesmo era cheirar cocaína, mas 
fumar maconha, não, a maconha era inofensiva. Um casal conhecido nosso -ele era 
um pacato funcionário público e a mulher, professora do Instituto de Educação- 
decidiu experimentar um baseado, numa roda de amigos. Ela amarrou um bode, quis 
se jogar pela janela do apartamento, foi preciso chamar a ambulância. Ficou 
internada alguns dias e, depois que voltou para casa, vestiu um chambre branco, 
fez uma cruz com cabos de vassoura e ficou a andar pela casa, murmurando 
palavras sem nexo. O marido mau-caráter mandou chamar os pais dela e a entregou 
a eles: toma que a filha é tua.
Como se vê, a maconha é inofensiva e quem fala mal dela é por puro preconceito 
de pequeno burguês. Sim, porque o burguês, esse não tem preconceitos, muito 
pelo contrário. Que seria do comércio de drogas sem essa parte avançada da 
classe média?
Oduvaldo Viana Filho, o nosso saudoso Vianinha, certa ocasião foi com uma 
equipe de filmagem para uma praia perto do Rio. Findo o trabalho, começava o 
fumacê. Vianinha ficava isolado e ainda tinha que suportar a catequese dos 
companheiros de trabalho. A pressão foi se tornando insuportável e ele chegou 
mesmo a admitir que estava sendo demasiado irredutível. A verdade é que aquele 
pessoal fumava e no dia seguinte trabalhava normalmente. Decidiu experimentar. 
Na quarta tragada, endoidou, sua cabeça parecia que ia estourar, amarrara um 
bode. Entrou mar adentro e, sem saber nadar, quase morre afogado, não fosse 
retirado das águas por alguns desconhecidos que o acudiram.
Mas até hoje há quem defenda a legalização da maconha, que seria uma droga leve 
e inofensiva. Na verdade, estudos científicos demonstraram que ela causa os 
mesmos males que o fumo (dependência, câncer no pulmão, bronquite crônica, 
enfisema), além de, em certas pessoas, provocar surtos psicóticos.
É o que dizem os médicos, mas não basta sabê-lo, uma vez que a adesão às drogas 
tem causas mais complexas do que a mera necessidade de contestar ou 
experimentar o proibido.


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      De: [email protected]
    Para: 
      Cc: 
    Data: Sun, 06 Jan 2008 10:13:43 -0300
 Assunto: [becodalama] O Céu e o Inferno

> Mais uma crônica, das muitas que publiquei n'A União - onde escrevo às 
> quartas-feiras.
> Clotilde
> 
> ------------------------------------------------------------------------
> *O Céu e o Inferno (por /Clotilde Tavares)
> /Publicada n'A União, em 5 de dezembro de 2007./
> /
> Andei confessando aí umas maldades que havia feito. Maldades bestas, 
> como, por exemplo, azucrinar as moças do telemarketing que ligam para 
> minha casa, interrompendo meu trabalho. Feito menino ruim, divirto-me em 
> alugar as pobres coitadas, pedindo a elas RG e CPF, nome completo e 
> endereço, do mesmo jeitinho que elas fazem comigo, depois digo que vou 
> consultar meu marido, ou meu pai, e deixo o fone junto da FM ligada 
> tocando forró-de-plástico. Uma amiga alegou que essas garotas não 
> mereciam serem tratadas assim porque estão apenas fazendo o trabalho 
> delas, e eu concordei, e bati no peito: mea culpa, mea culpa, mea máxima 
> culpa. E fiquei cá comigo pensando que devo merecer o Inferno por tanta 
> maldade praticada.
> 
> Com efeito, o que seria a minha vida no Céu? Cânticos, paz profunda, 
> anjinhos, nuvens cor-de-rosa e onze-mil-virgens. Os santinhos atarefados 
> atendendo pedidos dessa Humanidade sofredora, sem tempo para um dedo de 
> prosa. E eu, provavelmente, encontraria fechada a porta de tão augusta 
> morada da mesma forma que a encontrou Lampião, como foi relatado no 
> célebre folheto de José Pacheco "O grande debate de Lampião com São 
> Pedro": "Chegou no céu Lampião/ A porta estava fechada/ Ele subiu a 
> calçada/ E ali bateu com a mão/ Ninguém lhe deu atenção/ Ele tornou a 
> bater/ Ouviu São Pedro dizer:/ - Demore-se lá! Quem é?/ Estou tomando 
> café!/ Depois o vou atender!"
> 
> Isto posto, terminei chegando à conclusão, meu pacientíssimo leitor, que 
> o meu lugar deve ser mesmo no Inferno. Lá encontrarei meus maiores 
> ídolos: Jim Morrison, Janis Joplin, Jimmi Henrix, James Dean, Marilyn 
> Monroe e todos os que morreram arrastados pela mistura fatal de overdose 
> com talento em estado puro. Isso incluiria até a minha mais declarada 
> paixão, o Bardo de Stratford, o imortal William Shakespeare que, como 
> rezam os relatos, morreu depois de uma bebedeira com os amigos.
> 
> Lá estarão com certeza aqueles que, como eu, e por toda a vida, se 
> consumiram no fogo vivo da paixão, desejaram a mulher ou o homem do 
> próximo, comeram demais, beberam muito, fumaram todos os cigarros, 
> viajaram de ácido, passaram horas no desfrute quando deveriam estar 
> trabalhando, fizeram de tudo para acanalhar com a ordem e o progresso, 
> votaram nulo, repudiaram o Estado, gostaram mais de rock and roll do que 
> de MPB, foram politicamente incorretos, não construíram sólidos 
> patrimônios materiais e gastaram tudo com livros, discos e DVDs, e 
> perderam sempre o controle porque amaram, amaram, amaram desbragada, 
> pagã e pecaminosamente, sem olhar a quem.
> *
> 

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