*Brancas mãos e negros olhos
/por Clotilde Tavares
/publicada na Tribuna do Norte em 2004/
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Nos meus tempos de louca e airada juventude, de aventuras e delírios,
uma pessoa amiga, receosa de que algo de ruim me acontecesse, disse que
tudo aquilo não era coisa minha: era obra de uma entidade que vivia
perto de mim e que me levava a ser tão trelosa e aventureira. No meu
irrecorrível ceticismo, não quis dar atenção ao caso; mas os meus dez
por cento supersticiosos começaram a me incomodar e vez por outra eu me
pegava olhando por cima do ombro para ver se surpreendia a tal entidade
que supostamente estava me jogando nos caminhos da perdição.
Por via das dúvidas, fui então a um lugar onde há gente habilitada para
lidar com esse tipo de coisa, sendo recebida por uma mulher muito mais
velha do que eu, sábia e maternal, que me esclareceu e aconselhou.
Descobri então que a entidade era uma certa Maria Padilha, figura
popular nos cultos afro-brasileiros, às vezes identificada com a
Pomba-Gira, mulher bonita, doida por homem, com algo de prostituta e
feiticeira. Algumas obrigações então me foram impostas para satisfazer
os apetites da aparição, principalmente sua sede pelo bom vinho tinto,
que lhe presenteei largamente através de muitas garrafas quebradas nas
encruzilhadas.
Devo dizer que não entendo nada dessas coisas; apenas faço o que é
preciso quando chega a hora de fazer e quem quiser saber mais sobre esse
povo encantado pode perguntar ao professor Luiz Assunção, pesquisador
desse lado oculto, oculto ele mesmo numa sala da UFRN onde pesquisa e
estuda, como os verdadeiros estudiosos, com discrição e em silêncio.
Então o meu caro leitor não imagina a minha surpresa quando, lendo sobre
história da Espanha no período medievo dou de cara logo com quem? Com
Dona Maria Padilha, ela mesma, em pessoa, carne, osso e história. O
livro conta a história de Pedro, conhecido como "o Cruel", filho de
Afonso XI de Castela. O rei tinha uma esposa legítima - a mãe de Pedro -
e uma amante fértil, que lhe deu vários filhos bastardos, preferidos
pelo pai. Aos quinze anos, depois de uma infância obscura e amargurada,
Pedro subiu ao trono em 1350 e baniu todos os irmãos, condenando à morte
a amante do pai. Quando sua noiva, Branca de Bourbon, chegou da França,
desposou-a, passou duas noites com ela e depois desprezou-a, indo em
busca da amante, Dona Maria de Padilla, "cuja beleza era tão
embriagadora que os cavaleiros da corte bebiam extasiados a água na qual
ela tomava banho". Quevedo a descreve : "Era hermosa la Padilla/ Manos
blancas e ojos negros/ Causa de muchas desdichas/ Y desculpa de más
yerros." Pedro foi mais tarde assassinado por um seu meio-irmão, que se
tornou Henrique II de Castela.
A partir daí, fui rastrear o que teria Dona Maria de Padilla, amante de
Pedro, o Cruel, a ver com a entidade cultuada nas religiões
afro-brasileiras. Encontrei então o excelente livro "Maria Padilha e
toda a sua quadrilha: de amante de um rei de Castela a pomba gira de
umbanda" (São Paulo, Duas Cidades, 1993) da autoria de Marlyse Meyer,
essa pesquisadora incansável que conheci em Natal, onde ela esteve
várias vezes para palestras e seminários. Marlyse Meyer estabelece, em
uma narrativa encantadora, sem perder o rigor da pesquisa, todos os
links entre a criatura de verdade e o ser imaterial que andou, ao meu
lado, ou melhor, atrás de mim, por uns tempos.
Quer dizer: andou, não. Ainda anda. E o interessante disso tudo é que,
com os anos, eu amadureci, mas a criatura não. Como gente encantada que
se preza, permanece perene e imutável no tempo-que-não-é-tempo e
continua comigo, muito mais calma agora porque cabe a ela todo o álcool
que eu não consumo há quase vinte anos. Hoje já consigo vislumbrá-la
quando olho por cima do ombro, especialmente nas noites em que a lua
cheia e a brisa convidam à aventura, ou quando uma bela figura de homem
se levanta e atravessa o bar, a sala, o restaurante, a rua. No acordo
que estabelecemos uma com a outra, finalmente conseguimos viver em paz e
é para ela essa crônica de hoje, para Dona Maria Padilha, minha amiga,
minha acompanhante, de brancas mãos e negros olhos, com todo o respeito
e agradecimento por tudo que, mesmo perigosamente, me fez viver.
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