Sem querer ser sabichão, ou metido, Srta Clotilde Tavares, mas um detalhe se
lhe escapou neste artigo abaixo. Detalhe esse da maior relevância.
Como a arte sempre imitou a vida, não há sombra de dúvida que em nossos
modern times (também título do último trabalho em estúdio do incomparável Bob
Dylan - agora estudado nas escolas Oxford da velha Albion) a vida decerto que
imita (e copia), todos os dias, a 'arte', principalmente aquela mostrada by TV
- os canais fechados em menor escala, todavia com mais competência, pois que
vistos por criminosos de maior poder aquisitivo.
O maior erro e conseqüente dano de ordem moral à sociedade em geral
proporcionado pela televisão é que esta leva direta e virtualmente a realidade
nua e crua aos lares de toda a população em todas as classes sociais.
Por isto que deveria haver censura no Brasil. Este talvez seja o único país
do mundo (por isto é um país singularíssimo) onde não existe censura nenhuma na
TV.
Seguramente, motivado pelo período da ainda recente ditadura militar, a
palavra 'censura', no Brasil, passou a ser quase que pejorativa. Nos EUA onde
dizem - existe a maior democracia do mundo, há censura na tv. E severa.
A violência em termos genéricos que vivenciamos é copiada pelas mentes
criminosas, quase à exaustão, dos filmes da "telinha". A maioria dos criminosos
assiste os filmes da televisão para aprender as "técnicas".
Pode perceber que muitos crimes ocorridos concretamente e mostrados pelos
telejornais têm lances e características iguais aos mostrados nos filmes.
A TV deveria ser apenas um veículo de entretenimento. As cenas mais cruas e
violentas deveriam ser deixadas para o cinema. A valer ainda no que concerne ao
erotismo.
Nunca assisti novela em minha vida - me refiro no sentido de acompanhá-las.
Quando morei no Rio de Janeiro e as novelas ainda engatinhavam, gostei muito de
uma novela chamada Assim na Terra como no Céu. Chequei mesmo, quase, a
acompanhá-la quando tinha oportunidade, ou seja, quando me encontrava, no
horário da novela, em ambiente onde existisse um aparelho. Depois gostei muito
de Beto Rockfeller. E ficou por aí.
Anos depois, casado, minha então esposa fissurada em novelas, eu assistia,
inevitavelmente, alguns capítulos, assim, circunstancialmente.
Um dia ao assistir o capítulo inicial de uma delas cujo título já não me
lembro mais, fiz um juramento solene: o de nunca mais assistir uma novela na
vida.
Tal juramento foi motivado por uma cena em que o ator Tony Ramos, ou o seu
(ou a sua?) personagem, traído pela mulher enquanto ele cumpria pena numa
prisão, matava-a a porradas com uma pá das que os pedreiros (profissão do
personagem) usam na construção civil. Aquilo me causou tal mal-estar que corri,
estabanadamente, até o banheiro a vomitar.
Foi uma cena tão chocante, tão crua, tão brutal que eu fiz aquele juramento.
E cumpri.
Isso tudo naquele horário em q estamos em casa, após o jantar ainda sequer
digerido, com os filhos ao redor, aquele ambiente familiar meio besta...
Enfim, acho que a TV é responsável, um bocado, pela banalização da violência.
Filmes violentos ou com notável dose de erotismo deveriam ser deixados para o
cinema, com censura e tudo mais, como antigamente: "proibido para menores de 18
anos", por exemplo. Só ia assistir quem estivesse a fim (afim?).
Logicamente que a 'telinha' não vai influenciar, Srta Clotilde, mentes do
nível da sua, que tem personalidade formada, culta, com conhecimentos os mais
diversos, todavia o vosso artigo publicado em jornal - formador de opinião, por
conseguinte - deixa muitos panos para as mangas...
E assim assistimos, dia a dia, como acontece com o próprio meio-ambiente
degradado todo, opiniões, conceitos, valores - todos eles indo,
inexoravelmente, sei lá pra onde...
Sem mais, respeitosamente,
Maurílio non-Pinto.
Clotilde Tavares <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
A verdade e a ficção (por Clotilde Tavares)
Publicada n'A União, em junho de 2007
Sou uma série-maníaca compulsiva. Isso quer dizer que acompanho com entusiasmo
muitas das séries que passam na TV fechada. Gosto sobretudo dos enredos
policiais, de detetives, e daqueles que envolvem perícia médica, um ramo da
medicina que sempre me atraiu muito. Também gosto de séries cômicas e
românticas. Só para você ter uma idéia, acompanho com fervor: Gilmore Girls,
E.R., Without a Trace, Close to Home, no canal Warner; Desperate Housewives,
C.S.I. Las Vegas e Medium, no Sony; Bones e Justiça Sem Limites, na FOX;
Criminal Minds e C.S.I. Miami, no AXN e Heroes e Law & Order S.V.U., no
Universal.
Parece muito, hein, meu caro leitor? Mas a maioria dessas séries têm episódios
independentes, e não faz muita diferença você ficar sem ver um ou outro. Além
disso, os canais oferecem cinco ou seis oportunidades de ver o mesmo episódio
na semana; e nos períodos entre uma e outra temporada nova, os capítulos passam
todos novamente. É bem diferente de assistir à novela das oito, onde você só
tem aquela oportunidade para ver o capítulo, o que lhe faz ficar prisioneiro da
história e da emissora.
Mas o que estava querendo dizer era outra coisa. Imaginem vocês que chegou aqui
em casa uma pessoa conhecida e ficou reclamando de mim. Disse que eu passava o
meu tempo vendo essas séries cheias de crimes, de roubos, de assassinatos, de
violência e que isso não era legal pra mim. Além disso, o tempo gasto dessa
forma na frente da TV me impedia de ler um jornal, de ver o noticiário, de me
inteirar do que estava acontecendo no país.
Pensei um pouco e concordei. Na noite seguinte, em vez de assistir à minha
série preferida, liguei a TV no Jornal Nacional.
Foram crimes, assassinatos, extorsão, corrupção ativa e passiva, crimes de
ódio, tiroteios, tráfico de armas e drogas, abuso sexual, exploração e
prostituição de menores, pedofilia, e todo tipo de desgraça que você possa
imaginar! E tudo de verdade. Tudo acontecendo de verdade com gente de carne e
osso que nem eu e você.
Voltei para as minhas séries porque, além de serem ficcionais, nelas os ladrões
e criminosos vão todos para a cadeia. Já os que vi no Jornal Nacional, põem um
paletó e uma gravata e continuam indo todos para Brasília, onde se encontram
posando de "homens bons" no Congresso, nos Tribunais Superiores, nas
presidências das estatais.
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