*_A verdade e a ficção (por /Clotilde Tavares)/_
Publicada n'A União, em junho de 2007

Sou uma série-maníaca compulsiva. Isso quer dizer que acompanho com entusiasmo muitas das séries que passam na TV fechada. Gosto sobretudo dos enredos policiais, de detetives, e daqueles que envolvem perícia médica, um ramo da medicina que sempre me atraiu muito. Também gosto de séries cômicas e românticas. Só para você ter uma idéia, acompanho com fervor: Gilmore Girls, E.R., Without a Trace, Close to Home, no canal Warner; Desperate Housewives, C.S.I. Las Vegas e Medium, no Sony; Bones e Justiça Sem Limites, na FOX; Criminal Minds e C.S.I. Miami, no AXN e Heroes e Law & Order S.V.U., no Universal.

Parece muito, hein, meu caro leitor? Mas a maioria dessas séries têm episódios independentes, e não faz muita diferença você ficar sem ver um ou outro. Além disso, os canais oferecem cinco ou seis oportunidades de ver o mesmo episódio na semana; e nos períodos entre uma e outra temporada nova, os capítulos passam todos novamente. É bem diferente de assistir à novela das oito, onde você só tem aquela oportunidade para ver o capítulo, o que lhe faz ficar prisioneiro da história e da emissora.

Mas o que estava querendo dizer era outra coisa. Imaginem vocês que chegou aqui em casa uma pessoa conhecida e ficou reclamando de mim. Disse que eu passava o meu tempo vendo essas séries cheias de crimes, de roubos, de assassinatos, de violência e que isso não era legal pra mim. Além disso, o tempo gasto dessa forma na frente da TV me impedia de ler um jornal, de ver o noticiário, de me inteirar do que estava acontecendo no país.

Pensei um pouco e concordei. Na noite seguinte, em vez de assistir à minha série preferida, liguei a TV no Jornal Nacional.

Foram crimes, assassinatos, extorsão, corrupção ativa e passiva, crimes de ódio, tiroteios, tráfico de armas e drogas, abuso sexual, exploração e prostituição de menores, pedofilia, e todo tipo de desgraça que você possa imaginar! E tudo de verdade. Tudo acontecendo de verdade com gente de carne e osso que nem eu e você.

Voltei para as minhas séries porque, além de serem ficcionais, nelas os ladrões e criminosos vão todos para a cadeia. Já os que vi no Jornal Nacional, põem um paletó e uma gravata e continuam indo todos para Brasília, onde se encontram posando de "homens bons" no Congresso, nos Tribunais Superiores, nas presidências das estatais.
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