Cara Profa. Clotilde:
   
  Aí está minha humilde crença.

  O CREDO DO MATUTO
    
                      Creio in Deus Pai Adorado,
                      acima do sufrimento,
                      do sertanejo sedento,
                      passando a quage água e pão.
                      Qui Êle, de nóis, num s’isquece,
                      qui sempre manda prá cá,
                      mode ais coisa amiorá,
                      relâmpo, chuva e truvão.
   
                      Creio no amanhincê,
                      creio no trabáio braçá,
                      na sariema a cantá,
                      no linguaja puro e rude.
                      Creio, Sinhô; no matuto,
                      qui isbanja sabiduria,
                      na viola, na canturia,
                      e na sangria do açude.
   
                      Creio no suó pingando,
                      da quentura e só a pino,
                      do côipo do nordestino,
                      c’á sua inxada nais mão.
                      Creio no ispíin queimando,
                      p’ru gado se alimentá,
                      mode a sêca atrevessá,
                      nais caatinga do sertão.               
   
                       Creio no xique xique assando,
                      no sertanejo sufrido,
                      qui prá lá de dirnutrido,
                      de mago, quage se some.
                      No pranto qui êle derrama,
                      quando um quixó, vai aimá,
                      mode pegá um preá,
                      mode num morrê de fome.
   
                      Creio tombém na cáiga d’água,
                      de barrenta, quage prêta,
                      dento de quato ancurêta,
                      pindurada na cangáia.
                      Creio no jegue qui carrega,
                      do barrêro prá uma jarra, 
                      quage sem fôrça, na marra,
                      de tanto qui êle trabáia.
   
                      Creio na luz do candinhêro,
                      no fugão de aivenaria;   
                      de menhã, na vacaria ?!
                      Creio nais vaca leitêra.
                      Creio nuis barrão, nais póica,
                      nais uvêia, nais marran;
                      e no sábo de menhã;
                      creio no carro da fêra.
   
                      Creio no cavalo bom,
                      no faro de uma boiada,
                      na sombra de uma latada,
                      no aboio do vaquêro.
                      Creio no latido avisando,
                      numa noite inluarada,
                      qui a caça tá acuada,
                      purum cachorro perdiguêro.
    
                      Creio no gimido do fole,
                      no ripique do zabumba, 
                      no triângo, na ritumba,
                      da batida do pandêro.
                      Creio na vazante do açude,
                      na iscassêiz, na fartura,
                      creio in cada cubertura,
                      de um bode pai de chiquêro.
   
                      Creio nais nuve se fóimando,
                      creio no só s’iscondendo,
                      cuma quem surrí, dizendo;
                      tem boa nova no á.
                      Creio qui a boa nova é a chuva,
                      qui cumeça librinando,
                      adispôi vai aimentando,
                      e vira torrenciá.
   
                      Na oração do irmão matuto,
                      qui aís vêiz nem sabe rezá;
                      mais, qui in seu modo de orá,
                      agradece ao Criadô.
                      No vaquêro istrupiado,
                      qui diz no finá do dia,
                      na hora da Ave Maria:
                      OBRIGADO, MEU SINHÔ!...
   
  Obs. Faixa no. 2 do CD POETA MATUTO CUM NOME DE AMERICANO.
   
  Bob Motta
  NATAL-RN
   
   
   
   
   
   

Clotilde Tavares <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:          Eu acredito
por Clotilde Tavares
Publicada na Tribuna do Norte em 2003
(na semana seguinte à crônica Brancas mãos e negros olhos)

Na semana passada andei aqui falando em aparições, em gente encantada, em 
espíritos. Aí um monte de gente telefonou e mandou e-mails para saber em que é 
que eu acredito. Ou seja, o meu caro leitor quer saber se eu acredito em Deus e 
qual é a minha religião. 

Confesso que eu acho essa curiosidade meio abusada, meio descabida, meio fora 
de propósito porque crença e religião é uma coisa de foro íntimo e não deve 
interessar a mais ninguém. Por outro lado, já me acostumei com essas atitudes 
do meu leitor, sempre querendo saber mais sobre mim e isso é compreensível uma 
vez que sou eu mesma que vez por outra lhe dou esse cabimento, confessando 
aqui, neste espaço público, coisas que deveriam ficar no terreno pessoal. Então 
vou tentar responder às duas perguntas colocadas no início: se acredito em Deus 
e qual é a minha religião mas, antes de responder se acredito em Deus, quero 
falar sobre outras coisas nas quais acredito com toda a força do meu coração. 

Acredito que o mundo tem jeito. Acredito que o ser humano é bom, e se vez por 
outra fica mau e criminoso isso acontece por motivos que a minha pequena mente 
não consegue entender, porque também acredito que tem uma mente maior dirigindo 
todo esse movimento que chamamos de Vida, Mundo, ou Eternidade. 

Acredito na Natureza, quando o raio fende o céu, o trovão ribomba e as nuvens 
se despejam sobre nós, numa chuva carregada da energia das estrelas. Acredito 
na força das asas do beija-flor, que o equilibra no ar enquanto ele sorve tão 
gulosinho o mel dos hibiscos do jardim. Acredito que o nascer do sol é um dos 
mais belos espetáculos da terra, muito embora eu nem sempre esteja acordada 
para vê-lo. Mas contemplo seu esplendor ao contrário vendo o pôr-do-sol, 
principalmente naqueles começos de noite em que o arco prateado da lua nova se 
desenha no céu, como que retesado e disposto a levar nossa mente através do 
azul até as estrelas. 

Acredito na Música, no Teatro, na Literatura. Acredito na Arte e na Filosofia. 
Acredito na Ciência e nas Tradições que dão sustentação e essência aos povos e 
civilizações. Acredito na cultura simples do meu povo, nos cantadores de viola, 
nas panelas de barro e nos cestos de palha, nas histórias de trancoso e nos 
cantos das romanceiras. Acredito no brotar das sementes e na sua transformação 
em espiga, e na canjica e na pamonha que posso fabricar com ela. 

Acredito nas maravilhas da tecnologia, nos prodígios da informática, nas 
viagens interplanetárias. Acredito em tudo que vejo estampado nos olhos dos 
meus netos Marcelo e Isabela. Acredito na confiança que meus gatos sentem 
quando se entregam aos meus carinhos, e me deixam coçar a sua barriga e puxar 
suas orelhas. 

Acredito nos mistérios. Acredito no que está oculto e naquilo que a minha mente 
não alcança. Acredito que existe uma batalha entre o Bem e o Mal, e que eu 
estou alinhada com as forças do Bem, da Justiça e da Verdade. 

Acredito em você, meu caro leitor, como ser humano especial e único entre 
todos. E também acredito em mim e na força que existe quando dois ou mais de 
nós nos juntamos com um objetivo comum. Estas crenças formam a minha religião e 
garanto a você que, se Deus existe, está de acordo com elas.


                         

       
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