*Bob, você, como sempre, arrasa e fica com a última palavra!
Grande poema!
Clotilde*

Bob Motta escreveu:
Cara Profa. Clotilde:
Aí está minha humilde crença.
*O CREDO DO MATUTO*
* ** *
                    Creio in Deus Pai Adorado,
                    acima do sufrimento,
                    do sertanejo sedento,
                    passando a quage água e pão.
                    Qui Êle, de nóis, num s'isquece,
                    qui sempre manda prá cá,
                    mode ais coisa amiorá,
                    relâmpo, chuva e truvão.
Creio no amanhincê,
                    creio no trabáio braçá,
                    na sariema a cantá,
                    no linguaja puro e rude.
                    Creio, Sinhô; no matuto,
                    qui isbanja sabiduria,
                    na viola, na canturia,
                    e na sangria do açude.
Creio no suó pingando,
                    da quentura e só a pino,
                    do côipo do nordestino,
                    c'á sua inxada nais mão.
                    Creio no ispíin queimando,
                    p'ru gado se alimentá,
                    mode a sêca atrevessá,
nais caatinga do sertão. Creio no xique xique assando,
                    no sertanejo sufrido,
                    qui prá lá de dirnutrido,
                    de mago, quage se some.
                    No pranto qui êle derrama,
                    quando um quixó, vai aimá,
                    mode pegá um preá,
                    mode num morrê de fome.
Creio tombém na cáiga d'água,
                    de barrenta, quage prêta,
                    dento de quato ancurêta,
                    pindurada na cangáia.
                    Creio no jegue qui carrega,
                    do barrêro prá uma jarra,
                    quage sem fôrça, na marra,
                    de tanto qui êle trabáia..
Creio na luz do candinhêro, no fugão de aivenaria; de menhã, na vacaria ?!
                    Creio nais vaca leitêra.
                    Creio nuis barrão, nais póica,
                    nais uvêia, nais marran;
                    e no sábo de menhã;
                    creio no carro da fêra.
Creio no cavalo bom,
                    no faro de uma boiada,
                    na sombra de uma latada,
                    no aboio do vaquêro.
                    Creio no latido avisando,
                    numa noite inluarada,
                    qui a caça tá acuada,
                    purum cachorro perdiguêro.
Creio no gimido do fole,
                    no ripique do zabumba,
                    no triângo, na ritumba,
                    da batida do pandêro.
                    Creio na vazante do açude,
                    na iscassêiz, na fartura,
                    creio in cada cubertura,
                    de um bode pai de chiquêro.
Creio nais nuve se fóimando,
                    creio no só s'iscondendo,
                    cuma quem surrí, dizendo;
                    tem boa nova no á.
                    Creio qui a boa nova é a chuva,
                    qui cumeça librinando,
                    adispôi vai aimentando,
                    e vira torrenciá..
Na oração do irmão matuto,
                    qui aís vêiz nem sabe rezá;
                    mais, qui in seu modo de orá,
                    agradece ao Criadô.
                    No vaquêro istrupiado,
                    qui diz no finá do dia,
                    na hora da Ave Maria:
                    OBRIGADO, MEU SINHÔ!....
Obs. Faixa no. 2 do CD POETA MATUTO CUM NOME DE AMERICANO. Bob Motta
NATAL-RN
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*/Clotilde Tavares <[EMAIL PROTECTED]>/* escreveu:

    *Eu acredito
    /por Clotilde Tavares/
    Publicada na Tribuna do Norte em 200**3
    (na semana seguinte à crônica /Brancas mãos e negros olhos)/

    Na semana passada andei aqui falando em aparições, em gente
    encantada, em espíritos. Aí um monte de gente telefonou e mandou
    e-mails para saber em que é que eu acredito. Ou seja, o meu caro
    leitor quer saber se eu acredito em Deus e qual é a minha religião.

    Confesso que eu acho essa curiosidade meio abusada, meio
    descabida, meio fora de propósito porque crença e religião é uma
    coisa de foro íntimo e não deve interessar a mais ninguém. Por
    outro lado, já me acostumei com essas atitudes do meu leitor,
    sempre querendo saber mais sobre mim e isso é compreensível uma
    vez que sou eu mesma que vez por outra lhe dou esse cabimento,
    confessando aqui, neste espaço público, coisas que deveriam ficar
    no terreno pessoal. Então vou tentar responder às duas perguntas
    colocadas no início: se acredito em Deus e qual é a minha religião
    mas, antes de responder se acredito em Deus, quero falar sobre
    outras coisas nas quais acredito com toda a força do meu coração.

    Acredito que o mundo tem jeito. Acredito que o ser humano é bom, e
    se vez por outra fica mau e criminoso isso acontece por motivos
    que a minha pequena mente não consegue entender, porque também
    acredito que tem uma mente maior dirigindo todo esse movimento que
    chamamos de Vida, Mundo, ou Eternidade.

    Acredito na Natureza, quando o raio fende o céu, o trovão ribomba
    e as nuvens se despejam sobre nós, numa chuva carregada da energia
    das estrelas. Acredito na força das asas do beija-flor, que o
    equilibra no ar enquanto ele sorve tão gulosinho o mel dos
    hibiscos do jardim. Acredito que o nascer do sol é um dos mais
    belos espetáculos da terra, muito embora eu nem sempre esteja
    acordada para vê-lo. Mas contemplo seu esplendor ao contrário
    vendo o pôr-do-sol, principalmente naqueles começos de noite em
    que o arco prateado da lua nova se desenha no céu, como que
    retesado e disposto a levar nossa mente através do azul até as
    estrelas.

    Acredito na Música, no Teatro, na Literatura. Acredito na Arte e
    na Filosofia. Acredito na Ciência e nas Tradições que dão
    sustentação e essência aos povos e civilizações. Acredito na
    cultura simples do meu povo, nos cantadores de viola, nas panelas
    de barro e nos cestos de palha, nas histórias de trancoso e nos
    cantos das romanceiras. Acredito no brotar das sementes e na sua
    transformação em espiga, e na canjica e na pamonha que posso
    fabricar com ela.

    Acredito nas maravilhas da tecnologia, nos prodígios da
    informática, nas viagens interplanetárias. Acredito em tudo que
    vejo estampado nos olhos dos meus netos Marcelo e Isabela.
    Acredito na confiança que meus gatos sentem quando se entregam aos
    meus carinhos, e me deixam coçar a sua barriga e puxar suas orelhas.

    Acredito nos mistérios. Acredito no que está oculto e naquilo que
    a minha mente não alcança. Acredito que existe uma batalha entre o
    Bem e o Mal, e que eu estou alinhada com as forças do Bem, da
    Justiça e da Verdade.

    Acredito em você, meu caro leitor, como ser humano especial e
    único entre todos. E também acredito em mim e na força que existe
    quando dois ou mais de nós nos juntamos com um objetivo comum.
    Estas crenças formam a minha religião e garanto a você que, se
    Deus existe, está de acordo com elas.*


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