*O lamento do preguiçoso /por Clotilde Tavares/ Publicada na t Tribuna do Norte em agosto de 2002
A preguiça é a mãe de todos os vícios, já dizia minha avó, Dona Clotilde Pereira Tavares, alagoana de quatro costados e cujo bom humor e verve inesgotável a acompanharam até o final da vida, vida longa e produtiva que durou noventa e quatro anos. Mesmo muito velha, e já sem poder andar por causa de uma fratura do colo de fêmur que sofreu aos setenta e cinco anos de idade, nunca cheguei até a pequena casa onde morava na poética rua das Moças, no Arruda, em Recife, que não a encontrasse fazendo alguma coisa. Quando não era crochê, era lendo, era escrevendo, era recortando receitas de bolo do jornal para colar num grande caderno ou rezando a bordo de um velho "Adoremus", que ainda hoje trago comigo. Ela dizia, citando Thomas Fuller, que "os cérebros preguiçosos são a oficina do diabo".
Há um monte de histórias e ditos populares sobre este pecado capital, e os contos do nosso folclore vez por outra abordam o tema do preguiçoso, e de todos os problemas e castigos pelos quais passa a criatura, com todo o conteúdo formador e educativo desses contos. Há também a velha história do bicho-preguiça, que uma velha empregada lá de casa reproduzia em divertido diálogo: "Preguiça, queres mingau?" "Quero", respondia o bicho. "Vai buscar um prato!" E o bicho: "Quero mais não..."
Quando mamãe mandava qualquer um de nós fazer alguma coisa, e com preguiça de ir naquela hora eu dizia "Já vou!", ela imediatamente respondia: "Já-vou é o nome de um cão que tem no inferno." E nós, crianças, com medo de invocar novamente o nome da medonha criatura, íamos imediatamente fazer o mandado.
São Jerônimo dizia: "Arranja sempre alguma coisa para fazer, a fim de que o demônio te veja sempre ocupado" e William Shakespeare no oferece esta pérola: "O cansaço pode roncar sobre uma pedra, ao passo que a preguiça acha duro o travesseiro de penas." Euclides da Cunha, n'Os Sertões, não deixa barato, quando afirma: "O sertanejo é o homem permanentemente fatigado. Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene em tudo: na palavra demorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na cadência langorosa das modinhas, na tendência constante à imobilidade e à quietude". Coisa de sulista apressado, sem entender o nosso ritmo, a nossa suavidade.
Na Internet, encontrei uma frase ótima, atribuída a Mário Quintana e mais a uma meia dúzia de autores: "A preguiça é a alavanca do progresso, pois se o homem não tivesse preguiça de andar, não teria inventado a roda..."
Finalmente, para concluir essa crônica, obrigação semanal que gosto muito de exercer mesmo estando podre de preguiça nesta tarde chuvosa e friorenta, vai uma quadra que ouvi um dia desses de Diógenes da Cunha Lima, da qual não sei quem é o autor e cujo título poderia ser "O lamento do preguiçoso":
"Eu trabalhar desse jeito Com as forças que Deus me deu Pra sustentar um sujeito Vagabundo como eu?..." *
