Noite de imortais
   
   
  
  Marco Boi sempre deu guarita aos artistas do Beco. Sempre incentivou. É um 
autêntico Mecenas. Nato. Com certeza, imortal na galeria dos heróis anônimos.
  
  O maior colecionador de arte da cidade é Jácio Torres; na categoria mecenato 
visual, Júnior Offset é o único; Marco é terceiro lugar, categoria mecenato 
geral. Os três resumem a atividade de mecenas em Natal.
  
  Marcos é o mais boêmio dos três, de cantar samba em mesa de bar.
  
  Cervejas, cigarros e tira-gosto apimentado. Vida sedentária. Taí, uma 
combinação letal para o relógio de qualquer pessoa. Some isso ao automóvel e 
você terá a receita certa para um enfarte.
  
  De casa para o elevador, do elevador até o carro, que corre até o trabalho. 
Do trabalho até o restaurante, de carro. Almoça, e carro novamente. Nenhum 
passo, nenhuma caminhada. Cerveja e cigarro entre um translado e outro.
  
  Marcos acabou enfartando. Foi levado para a Promater, onde fez cateterismo, 
que até que é uma cirurgia simples. Encontra-se a aorta e nela injeta-se 
pressão. 
  
  Ainda sonolento, sob efeitos da anestesia Rack, Marcos acorda e nota 
movimento estranho na cama ao lado. Uma muralha de gente, flores nas mãos, 
muito choro. O paciente parecia importante, fez Marcos Boi tornar-se invisível. 
Em pouco tempo, o vizinho roubou toda a atenção da comunidade médica.
  
  O efeito da Rack passou, e uma dor de cabeça chegou sem pedir licença. 
Imaginou logo a coisa ficando feia pro seu lado. Nenhum médico no raio de sua 
cama. Agora, aquela música de Paulinho da Viola, Nervos de Aço, dividia seus 
pensamentos com a nova preocupação.
  
  Chegavam três, quatro, cinco médicos de uma vez. E o Boi esquecido.
  
  Tinha muito Babão também. Sempre eles.
  
  - Doutor, vou ficar com o senhor até o fim.
  
  Senhoras feitas carpideiras choravam, soluçavam. Marcos Boi sem entender 
nada, desinformado, começava a imaginar coisas: vou morrer também. Pensava. 
Nenhum médico dava satisfação a e ele. Seria a mais-valia cardíaca?
  
  E Marcos Boi ali, já de pé, na janela do quarto, pensando. E a dorzinha de 
cabeça.
  
  Os barcos do Potengi, noite na ribeira, as marolas arrebentavam lascivamente 
sob a luz da lua que as desnudavam. Era um sábado de lua cheia. Marcos 
projetava seu espírito ao alto da ponte nova, para ver as ondas pixeladas do 
rio Potengi e não via nada, porque da ponte não se pode ver nada, nenhuma 
paisagem. É a modernidade. Os barcos que passavam por debaixo da ponte não eram 
vistos também. Nem por Marcos Boi, nem por ninguém. Os faróis dos barcos e a 
luz da lua, ambos, contra as marolas, iluminavam demais. Marolas pastorinhas, 
serelepes meninas, no frio da madrugada, doidas por privacidade.
  
  Viagens à parte, tava na hora de se despedir da paisagem camuflada e voltar 
para a cama do hospital.
  
  Finalmente, a identidade do ilustre seria revelada. Sua auta de souza estava 
próxima. Voltar para casa era só o que Marcos Boi queria.
  
  Felizmente, para os dois, o hospital fora só um susto e Marcos mataria sua 
curiosidade em breve.
  
  Quem será o figura?
  
  Ao receber alta, ele vestiu a roupa, penteou o cabelo, sorriu para sua 
esposa. Deu uma última olhada no espelho, era ele mesmo. Foi saindo 
discretamente, esticou o pescoço entre a muralha humana e pode ver: na cama ao 
lado, deitado com a cabeça sobre dois travesseiros de pena de ganso, um imortal 
presidente de academia norte-riograndense de letras.
   
  
  Serrão

       
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