02/01/2008

Por William Correia, especial para a Gazeta Eesportiva.Net

Falta de planejamento faz do América o pior time da Série A em 12 anos
Protecionismo do Clube dos 13 deixou Lori Sandri meses sem receber
Clube chegou a sonhar com título, mas teve grupo "morto" no fim

Loucura é pouco para o Mecão: prisão, dois amarelos sem expulsão e 
craque do Showbol dopado Rumo à terceirização, ninguém quis 
presidir o América após fracasso

Curiosidades da campanha
- Entrou na zona do rebaixamento na quarta rodada e nunca mais saiu. 
- Foi lanterna em 32 das 38 rodadas.
- Aproveitamento de 14,91% dos pontos foi o pior dos últimos 12 anos 
na Série A.
- Em 34 anos de disputa do Nacional, somente dois times foram pior em 
torneios com mais de 20 participantes: o União São João de Araras-SP 
em 1995, com 13,04% de aproveitamento, e o Sergipe em 1972, que 
conquistou 14,67% dos pontos que disputou.
- As 29 derrotas acumuladas no Brasileirão de 2007 fazem do Mecão a 
equipe mais perdedora da história da competição.
- O clube ostenta a pior média de gols marcados desde 1993, com 0,63 
gols por jogo. Há 14 anos, Atlético-MG e Botafogo tiveram média de 
0,5 gols.
- O América foi mandante do segundo menor público da Série A em 2007: 
América-RN 0 x 3 Juventude, em 01/09/2007, quando o Machadão recebeu 
1.446 espectadores.
- A equipe potiguar fecha o Brasileiro com o maior número de cartões 
amarelos (96) e a terceira com mais expulsões (10).
Por William Correia, especial para a GE.Net
A palavra planejamento tem sido corriqueira desde a implantação do 
Campeonato Brasileiro por pontos corridos, em 2003. Nos últimos cinco 
anos, a capacidade de prever as dificuldades em um torneio de 
aproximadamente sete meses é apontada como principal responsável pela 
conquista dos campeões. Por outro lado, a falta de organização também 
faz vítimas na parte de baixo da tabela, e, em 2007, ela foi fatal de 
maneira histórica para o América de Natal.
Depois de se tornar a primeira equipe a subir dentro de campo da 
Série C para a Série A em dois anos, o clube potiguar viu ruir sua 
ascensão da pior maneira possível: amargou a última colocação da 
primeira divisão com apenas 17 pontos em 38 jogos e o rebaixamento 
decretado a sete rodadas do final da competição.
Mais do que isso, o aproveitamento de 14,91% dos pontos foi o pior 
das últimas 12 temporadas. Nas 37 edições do Nacional, somente dois 
times tiveram desempenho pior, quando atuaram, pelo menos, 20 vezes 
na temporada: o União São João-SP em 1995, com 13,04% de 
aproveitamento, e o Sergipe em 1972, que conquistou 14,67% dos pontos 
que disputou. Para completar, as 29 derrotas acumuladas no 
Brasileirão de 2007 tornam o Mecão a equipe mais perdedora da 
história da competição em uma edição.
Diante deste cenário negativo, o diagnóstico de vários dos envolvidos 
põe a culpa no Campeonato Potiguar. Nele, o Dragão liderou a primeira 
fase do estadual com folga, somando 15 pontos a mais que o time que 
detinha a segunda melhor campanha, o ABC. As finais com resultado 
adverso diante do arqui-rival, no entanto, sentenciaram o desempenho 
do clube por toda temporada.
Após o empate por 1 a 1 na partida de ida, a goleada por 5 a 2 
sofrida na volta fez com que o presidente Gustavo Carvalho trocasse a 
comissão técnica capitaneada por Estevam Soares e boa parte do 
elenco. Opção que, segundo a maioria, resultou na triste campanha no 
Brasileiro.
"A perda do campeonato para o ABC gerou uma mudança radical. Nós 
tomamos de cinco! O presidente Gilberto Carvalho achou que tinha que 
mudar, talvez não fosse a equipe que ele esperava para a Série A. 
Quis motivar a torcida e dispensou muita gente", explica um dos 
profissionais americanos mais antigos, o médico Maeterlinck Rêgo 
Mendes, que viu centenas de técnicos irem e virem nos 36 anos em que 
está no clube. "Em todo esse tempo, nunca tinha visto uma campanha 
como essa no Brasileiro".
Contudo, o vice-presidente de assuntos ligados ao futebol, Ricardo 
Bezerra justifica a estratégia, apesar de admitir o equívoco. "Nós 
erramos no início do planejamento. No estadual, o América foi o 
melhor em toda a competição, mas fizemos a avaliação do plantel em 
campos ruins, duros, pequenos. Fomos bem pela fragilidade dos 
adversários. Não tínhamos condição de permanecer com a comissão 
técnica. Apesar de gostarmos do trabalho do Estevam Soares, eles 
(ABC) estavam na Série C e a gente na A. Qualquer clube é assim. 
Imagina se o Flamengo perde do Vasco por cinco gols...", compara.
Porém, as justificativas não servem para um dos que mais sofreram com 
a opção americana: o técnico Lori Sandri, que iniciou o Brasileiro 
com a equipe. "O América começou errado. Não houve um preparo com a 
perda do titulo estadual. Íamos começar o campeonato no dia 13, eu 
cheguei dia 3 e nem goleiro tinha. Eles contrataram o Renê em São 
Paulo na quarta, ele assinou no aeroporto e jogou no domingo com oito 
quilos a mais", conta o treinador, que encarou os problemas durante 
toda a preparação para as oito partidas em que esteve à frente do 
time.
"Na primeira folga, mais ou menos na sexta rodada, fizemos avaliações 
físicas. Dos 28 jogadores, 26 estavam abaixo do normal. Apenas o 
Arlon e mais um foram aprovados. Na época, não divulgamos para não 
criar tumulto. Levamos o caso para a diretoria e vimos que teríamos 
muita dificuldade", relata.
Foto Fernando Pilatos/Gazeta Press 

São Paulo comemora o gol que lhe deu o título, enquanto o América-RN 
só lamenta. Uma cena rotineira dos potiguares. 
Marcelo Veiga, técnico do time nas 13 rodadas seguintes à saída de 
Lori, faz coro na crítica ao planejamento. "Se eu pensar só no 
Estadual, me preocupar em ser campeão, eu caio no Brasileiro. Tem que 
contratar jogador para o ano todo, se preocupar em se manter bem e 
ter regularidade no Brasileiro. Não fazer loucura, aí o time não 
agüenta", ensina o treinador, que deixou Natal para voltar ao 
Bragantino e ser campeão da Série C.
Os jogadores também concordam com seus comandantes e culpam as 
decisões imediatistas tomadas pela diretoria. "O clube vinha de 
ascendência na Série B, deveria acontecer a permanência de atletas. 
Nossa equipe é limitada. Se você traz vários a uma semana da 
competição já dificulta bastante", condena o meia Leandro Sena, 
presente nos dois acessos seguidos do América desde 2005.
O goleiro Sérvulo, titular no fim da temporada, foi uma das vítimas 
desta política. Logo depois do Campeonato Potiguar, não teve o 
vínculo renovado, mas retornou na semana anterior ao Brasileiro 
porque não havia arqueiro reserva. "Meu contrato acabou com o 
estadual e não queriam renovar, mas o Marcelo Bonan, que era titular, 
se machucou e renovaram", relembra, lamentando a decisão dos 
dirigentes na época. "O grupo do estadual era um bom time, estava bem 
entrosado. Mas a diretoria ficou com raiva".
Para agravar ainda mais a situação americana, que já figurava na zona 
de rebaixamento desde a quarta rodada, o rodízio de jogadores 
continuou, na tentativa de montar um time dentro da competição. Ao 
todo, 53 atletas entraram em campo com a camisa da equipe pelo 
Brasileiro, e o clube fecha 2007 com o alarmante número de 47 
dispensas durante a temporada. Isso sem contar as quatro comissões 
técnicas que passaram pela equipe – Paulo Moroni comandou os rubros 
nos últimos 17 jogos do Nacional.
"Com certeza isso atrapalhou. Quem entende um pouquinho de futebol 
sabe que é difícil trabalhar assim", diz Leandro Sena, acompanhado 
por seus treinadores. "Fizeram uma rotatividade muito grande. Isso 
não dá segurança para o grupo, nem para o jogador", emenda Marcelo 
Veiga. "Se mantivessem a estrutura, com algumas modificações, teriam 
menos dificuldade no Brasileiro", completa Lori Sandri.
Entretanto, há quem não condene a dispensa em massa. "Não podemos 
culpar o presidente. Depois que acontece é fácil dizer, ninguém 
tomaria essa decisão. Mas tinha que ser tomada uma posição. Se perde 
uma final de cinco, tem que mudar. Hoje em dia, vemos que isso serviu 
de exemplo e espero que não aconteça mais", afirma o supervisor de 
futebol Carlos Moura Dourado.
E até Leandro Sena isenta os diretores. "Quando a coisa não dá certo, 
tem que haver mudança. A diretoria buscou de todas as formas, mas 
isso não foi possível. O futebol é muito complexo. Às vezes, você faz 
uma coisa sem muito fundamento e dá certo. Às vezes você planeja, se 
projeta, injeta dinheiro e não dá. Dava tempo para se programar e 
objetivar a permanência na Série A. Foram cinco meses até começar o 
Brasileiro. Mas não jogo a culpa na direção, cada setor teve sua 
parcela de culpa: nós jogadores, as comissões técnicas...", opina.
Falta de planejamento faz do América o pior time da Série A em 12 anos
Protecionismo do Clube dos 13 deixou Lori Sandri meses sem receber
Clube chegou a sonhar com título, 
mas teve grupo "morto" no fim

Loucura é pouco para o Mecão: prisão, dois amarelos sem expulsão e 
craque do Showbol dopado
Rumo à terceirização, ninguém quis presidir o América após fracasso




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