*O COBERTOR DO ÍNDIO
Por Clotilde Tavares
Publicado na Tribuna do Norte em março de 2000.

Há uma anedota muito antiga que vi em um velho filme de caubói, não me lembro qual. A história era sobre um índio que, chateado porque seu cobertor era pequeno, cortou um pedaço dele e costurou na outra ponta, para que ficasse mais comprido.

Assim é que eu vejo o horário de verão. O dia continua tendo as mesmas vinte e quatro horas; as coisas que precisam do claro ou do escuro para acontecerem continuam acontecendo do mesmo jeito, como aquelas pessoas que se acordam cedinho, quando o dia começa a clarear, não importa se é seis, cinco ou quatro horas da manhã. O perigo das ruas também continua atrelado à escuridão, não importando aquilo que o relógio está marcando.

No Brasil, há um horário muito importante que é o da nossa maior emissora de televisão. O horário global domina várias instâncias de nossas vidas, queiramos ou não. Marcamos compromissos depois do Jornal Nacional ou da novela das oito - que nunca começa às oito. Quando chega o horário de verão temos que fazer algumas adaptações, pois a novela das oito para as sete, e assim por diante. Essas mudanças de horário bagunçam nossas vidas e sofremos um pouco mais ou menos, dependendo da nossa capacidade de adaptação.

Como gosto muito de Televisão e acompanho a programação da TV por assinatura, teve um tempo em que mantive na parede um relógio no horário de Brasília - ou seja, uma hora à frente - para não perder meus programas favoritos. Esse relógio adiantado também me ajudava quando era preciso ligar para meus irmãos, que moram no Rio e em São Paulo, e também para outros telefonemas importantes. Por outro lado, o relógio uma hora adiantado chegou a criar algumas complicações, sendo a maior delas comigo mesma, que pulava da cama muitas vezes uma hora antes, sem me lembrar de que eu mesma adiantei o relógio.

Isso me lembrou a casa de Mamãe, em Campina Grande. No horário de verão ela mantinha compromissos que seguiam o "horário velho" e outros que se baseavam no "horário novo". Nunca compreendi de que forma ela conseguia se organizar.

Enfim, nada é mais relativo do que essa entidade vaga e imponderável chamada Tempo. Fonte de estresse para uns, mas dobrável e manipulável para outros, o tempo é aquilo que é: uma invenção do homem, uma convenção, um acordo coletivo feito pelas pessoas para poderem organizar melhor sua vida.

São minutos que duram horas enquanto o dentista perfura o nosso dente com aquela famigerada broca, ou horas que parecem durar segundos quando estamos ao lado de alguém que amamos, e que precisa se despedir e ir embora. Horário de verão ou de inverno, tempo de amor ou despedida, horas de dor ou paixão, minutos de sofrimento ou de supremo deleite: disso é feita a Vida, essa é a matéria prima da Existência.

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