*Pugilistas cubanos estão há seis meses fora dos ringues *

* Situação dos boxeadores Rigondeaux e Erislandy continua indefinida em Cuba
*

*Os dois abandonaram a Vila Olímpica, durante o Pan do Rio, e foram
deportados pelo governo brasileiro; eles estão proibidos de lutar *
 Eduardo Knapp/Folha Imagem
*Rigondeaux, sua mulher Farah e o filho Guillermo, em sua casa*

* LETÍCIA SANDER*
 ENVIADA ESPECIAL A HAVANA

É manhã de quarta-feira em Havana, capital de Cuba, e Guillermo Rigondeaux
Ortiz está em casa no bairro de Altahavana com a mulher, o filho e a mãe. Um
dos melhores boxeadores do mundo não faz nada de especial. Acabara de se
despedir de Erislandy Lara Zantaya, também pugilista e companheiro de tardes
desocupadas. Os dois acabam de completar seis meses afastados dos ringues,
sem trabalho, numa rotina sem sobressaltos, que se resume à espera e
indefinição.
Rigondeaux, 27 anos, bicampeão olímpico dos pesos-galo (até 54 kg), e Lara,
24 anos, campeão mundial dos meio-médios (até 69 kg), estão proibidos de
treinar com a equipe nacional de pugilistas cubanos, são evitados pelos
antigos colegas e até hoje aguardam uma definição sobre o futuro, sem sinais
da cúpula do regime que antes os badalavam.
"É uma tortura psicológica", define Farah, 31, cubana que, também sem
trabalho, compartilha a angústia do marido, Rigondeaux. "Ele não estava
acostumado a não fazer nada. Se sente muito mal", disse ela à Folha na
quarta passada.
A saga dos dois começou em julho do ano passado, quando abandonaram a
seleção cubana durante os jogos Pan-Americanos no Rio, foram repatriados
depois de alguns dias no Brasil e acabaram acusados por Fidel Castro de
terem tentado se vender ao profissionalismo por um punhado de dólares.
Eles dizem que não foi isso que aconteceu. Seis meses depois do ocorrido,
diante da família e com esperanças de serem perdoados e voltarem a treinar,
os dois ainda se referem à experiência no Rio sem muita disposição em
esclarecer. E poupam o governo de críticas, talvez evitando dificultar ainda
mais as coisas.
Questionados se tentaram fugir do regime comunista e ficar no Brasil, eles
dizem que não. Foram ameaçados? "Não", dizem. Familiares sofreram pressão?
"Também não", repetem. Então o que os fez abandonar o Pan-Americano e passar
mais de dez dias sumidos no Rio? "Foi uma indisciplina", responde
Rigondeaux, sentado em uma poltrona vermelha na sala de menos de 30 metros
quadrados da casa em que mora com a família em Havana.
Tido até há pouco como herói nacional cubano, ele recebe a Folha de bermuda
jeans, camiseta preta, chinelos e boné. De estatura baixa, magro e quieto,
sua imagem à primeira vista não remete a de um campeão do pugilismo, não
fossem as obturações de ouro nos dentes da frente e as mais de cem medalhas
e 20 troféus espalhadas pela estante e paredes da sala. Ele desconversa
sobre os dias no Rio e repetidas vezes menciona que nunca cogitou deixar
Cuba. "Já viajei muitas vezes, nunca tentei nada disso", diz, apontando para
as paredes que comprovam vitórias em lugares como Venezuela, França, Rússia,
Austrália, Tailândia, Grécia e Reino Unido.
Sem trabalhar desde que voltou a Cuba, Rigondeaux só tem hoje um compromisso
fixo diário, a corrida de cerca de duas horas que faz pela manhã, disciplina
de quem precisa manter os 54 quilos da categoria galo e não quer desistir do
esporte, mesmo há tanto tempo sem treinar e dependente de um perdão para
voltar a fazê-lo. Após a revolução de 1959, a prática profissional do boxe
foi abolida em Cuba.
Longe do guarda-chuva do Estado, o pugilismo inexiste em Cuba e convites
aceitos por atletas para deixarem o país são tidos como uma traição ao
regime. Durante muito tempo, principalmente quando a ilha era cliente da
antiga União Soviética, o boxe cubano não viveu grandes desafios para manter
os seus atletas no país.
Teofilo Stevenson tornou-se um lendário peso-pesado cubano não só pelas
vitórias, mas também por ter rejeitado propostas milionárias para que se
tornasse profissional e fosse embora de Cuba. Virou ídolo do regime.
Mas a realidade mudou. Nos últimos anos, cerca de 150 desportistas cubanos
aproveitaram as competições no exterior para fugir. Um exemplo do temor
castrista: diante da possibilidade de novas deserções após o episódio do
Pan, Cuba proibiu que sua equipe nacional fosse a Chicago participar do
Mundial de boxe, em outubro. Nesta mesma competição, Yuriorkis Gamboa,
desertor do país caribenho que desenvolve a carreira na Europa, embolsou
entre US$ 10 mil e US$ 15 mil.
Rigondeaux nega fazer parte desta turma, mas na conversa com a sua família
fica clara a insatisfação com o tratamento reservado pelo regime a um atleta
que define ele mesmo como "o melhor do mundo".
"Protestar? Para quem? Temos que nos acostumar... Se protestar, há
problema", diz Farah, diante do silêncio do marido, e apontando para a
carcomida pintura das paredes da casa.
Mesmo sem um passado glamouroso em Cuba, tudo o que Rigondeaux deseja hoje é
recuperá-lo. Antes do Pan, ele permitia à família uma vida sem luxos, mas
tranqüila na ilha.
O governo lhe cedeu uma casa modesta de três quartos em área residencial de
Havana, a cerca de meia hora do centro de treinamento de boxe.
O salário, diz ele, chegava a 450 pesos cubanos mensais (cerca de US$ 20).
Pouco, muito pouco, mas dentro da média cubana para médicos, por exemplo. E
havia a promessa de em breve começar a ganhar um extra de US$ 300, uma
espécie de prêmio por já ter sido duas vezes campeão olímpico.
Todas as sextas, buscava uma espécie de cesta básica, com arroz, feijão,
carne, galinha e outros itens, também proporcionados pelo Estado. Em Cuba,
saúde e educação são gratuitas.
Rigondeaux continua morando na mesma casa e recebendo mensalmente os 450
pesos cubanos. Mas não há sinal da gratificação em dólar e o que o preocupa
é até quando a situação vai perdurar. "Na prática, não temos casa. Guillermo
é bicampeão e não tem uma casa", reclama Farah.
A semana é especialmente difícil para Rigondeaux e Lara. Enquanto eles
esperam o tempo passar em Havana, os demais pugilistas cubanos estão na
província de Holguín para o Torneio Nacional Playa Girón, um dos mais
importantes de Cuba e tido como teste para os atletas, às vésperas das
Olimpíadas de Pequim.
"Estou assim [faz sinal de braços cruzados]", afirma Rigondeaux, num dos
raros momentos da conversa em que demonstra irritação.
Rigondeaux não tem o mesmo estilo de Lara, que, também sem trabalho, passa
as horas em Havana circulando sobre uma moto com adesivo da coelhinha
símbolo da Playboy, usa jeans e camisetas apertadas e duas argolas douradas
nas orelhas. Lara mora com a mulher, Miriam, e dois filhos na casa da mãe da
sogra, uma modesta residência de dois pisos, dividida por tios, primos, e
outros familiares. Acorda às 5h todos os dias para correr, fala ainda menos
que Rigondeaux e também continua recebendo seus 450 pesos cubanos e a cota
de comida, mesmo sem treinar.
"Ser campeão olímpico é a meta de Lara. Se não puder fazer isso, acredito
que terá um infarto", diz Miriam, que estava grávida quando os boatos sobre
a deserção do marido chegaram à sua casa. Segundo ela, Rigondeaux e Lara
ficaram por três dias numa espécie de casa de hospedagem do governo de Cuba
assim que voltaram do Rio. Conversaram com autoridades, negaram a ambição de
desertar e reafirmaram o desejo de ficar e lutar em Cuba. Foram então, para
casa -Lara, Miriam e o pequeno Roberlandy, de 2 meses.
Enquanto os atletas estavam no Rio, familiares de Rigondeaux e de Lara foram
procurados repetidas vezes por autoridades. Negam que tenham sido
pressionados, mas não escondem a apreensão que viveram.
Rigondeaux se despediu da *Folha* pouco depois de mostrar com orgulho fotos
do filho -Guillermo, cinco anos-, com os punhos cerrados tal qual um
boxeador. "Será um novo campeão?", pergunta a reportagem. "Se eles [o
regime] deixarem...", responde Rigondeaux, em momento franco de reação ao
seu exílio em casa, agravado pela falta da possibilidade de recomeçar que os
exilados possuem.

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