Albert Hofmann e o LSD, 1906-2008 April 30th, 2008 · · 278
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O químico suíço Albert Hofmann, que sintetizou a molécula de LSD, morreu ao
longo da madrugada após um ataque cardíaco. Tinha 102 anos. Muitos o viam
como um doidão – mas era só um cientista. Seu passeio de bicicleta mítico,
após ingerir uma superdose de LSD, aconteceu no dia 19 de abril de 1943. É
celebrado hoje como o 'dia da bicicleta', todos os anos. Apesar de uma
ligeira simpatia, jamais se adaptou muito ao movimento psicodélico. Não era
sua praia.

Em 2006, quando Hofmann completou 100 anos, publiquei um perfil seu em
NoMínimo. É um texto do qual gosto bastante, escrito com sincera admiração
pelo professor. No dia de sua morte, republico aqui no Weblog.


*O pai do LSD*

Por volta das cinco horas da tarde do dia 19 de abril em 1943, Albert
Hofmann começou a sentir tonturas. "Ansiedade", escreveu em seu diário,
"distorções visuais, sintomas de paralisia, vontade de rir." Aí não escreveu
mais nada. Hofmann tinha dificuldades para falar. Seu assistente no
laboratório estava preocupado. A mulher do químico tinha viajado, não havia
carros à disposição para levá-lo para casa – estavam todos em uso no esforço
de guerra. Então, foram os dois de bicicleta.

Albert Hofmann tinha 37 anos naquela dia em abril. Hoje, neste 11 de janeiro
de 2006, o homem que sintetizou o LSD completa 100. Continua lúcido, faz
parte do comitê de notáveis que seleciona os vencedores do Prêmio Nobel, sua
maior preocupação é com a falta de cuidados com o meio ambiente. Mas, na
época, era um químico em meio de carreira nos Laboratórios Sandoz, em
Basiléia, na Suíça.

Quando chegou em casa, ele pediu leite, um antídoto comum para envenenamento
por produtos químicos. Bebeu dois litros ao longo da noite. "Um demônio
havia me invadido", escreveu em "LSD, meu filho problema", livro de 1979.
"Ele me possuiu o corpo, a mente, a alma; pulei, gritei tentando me livrar
dele, mas então me afundei novamente no sofá, sem o que fazer." Sua
empregada se transformara numa bruxa horrível.

Quando o médico chegou, seu assistente explicou o que ocorrera. Três dias
antes, o cientista havia entrado em contato com um concentrado do produto
que estava sintetizando, o ácido lisérgico dietilamida. Talvez o ácido tenha
tocado seu nariz, ouvido, até mesmo boca: ele é absorvido pelas mucosas.
Após o acidente, sentiu uma leve intoxicação e, por umas duas horas, viu um
caleidoscópio de intensas imagens coloridas. Intrigado, preparou-se para uma
nova experiência com uma dose bastante pequena - 0,25 miligrama. Quando
ingeriu a substância no "dia da bicicleta" foi lançado num mundo de terror.

O médico tomou seus sinais vitais e, fora as pupilas dilatadas, não percebeu
nada de errado. Era esperar. E o horror passou, substituído por uma sensação
agradável. Aí tornaram as cores. "Elas alteravam", escreveu, "abriam e
fechavam sobre si mesmas em círculos e espirais, explodiam em fontes
multicoloridas se arranjando num fluxo constante." No dia seguinte,
experimentou o mais gostoso café da manhã de sua vida, os raios do sol da
primavera faziam tudo brilhar, seus sentidos estavam num pico de
sensibilidade que persistiram até a noite.

*A mágica numa floresta suíça*

Uma vez, quando ainda era criança, numa manhã de maio e no meio da floresta,
Hofmann viveu a experiência que marcaria suas escolhas. Os passarinhos
cantavam, o dia estava bonito e aí tudo pareceu muito claro, uma sensação
inebriante de felicidade o tomou – ele sentia que não era apenas um
observador daquela paisagem, mas fazia parte dela. Ele e tudo em volta eram
uma coisa só e a nitidez da constatação, não tanto racional, mas sensorial,
como que inebriante, o comoveu. Aí, depois, passou. "Como poderia contar a
todos sobre aquilo, e na minha felicidade eu queria contar, se não havia
palavras para explicar o que vi?"

Este encantamento o levou para a ciência e, em particular, para a química
orgânica, a química de animais, de vegetais, de fungos – a química das
coisas vivas. Queria compreender. O LSD nasceu de seus estudos com um fungo
de cereais, mais comum nos campos de centeio, chamado ergot. Desde a Idade
Média que parteiras ofereciam ergot às grávidas para facilitar o parto, mas
apenas nos anos 30 estudos mais sofisticados com o fungo procuraram
identificar que substância induzia as contrações uterinas.

Quando Hofmann foi trabalhar com os derivados de ergot, o ácido lisérgico já
havia sido isolado dentre os componentes do alcalóide que a Sandoz vendia
como remédio para parto. Mas era um ácido muito sensível, instável, qualquer
manipulação fazia com que a molécula se quebrasse. O desafio era encontrar
alguma outra molécula que, juntada a ele, estabilizasse a fórmula. O químico
produziu várias combinações possíveis. A 25a variante, o ácido lisérgico
dietilamida, ficou pronta em 1938. Era uma molécula tão parecida
estruturalmente com a de alguns estimulantes circulatórios que Hofmann
chegou a achar que pudesse ter um novo remédio em mãos. Mas os farmacólogos
da Sandoz a testaram em animais e observaram agitação e inquietação. LSD-25
foi posta de lado.

Muitos remédios nasceram daqueles estudos, de remédios para circulação a
remédios para combate à debilitação mental em idosos. E, no entanto, o
cientista não conseguia esquecer o LSD-25. Por quê? Outras substâncias que
compôs foram largadas de presto – por que não aquela? No dia 16 de abril de
1943, repetiu o processo de anos antes para sintetizar novamente uma pequena
quantidade de ácido lisérgico dietilamida. Quando estava purificando a
substância, cristalizando-a na forma de um sal, veio a sensação de tontura.
Tinha tomado os cuidados que sempre tomava no laboratório. Vieram as
mandalas.

*O ácido vira pop*

Nos anos seguintes, o LSD e outros alucinógenos naturais foram pesquisados
por cientistas em todo o mundo. Desconfiava-se que, na verdade, simulavam os
sintomas psicóticos. Compreender como funcionavam poderia trazer a cura da
loucura – não é mais algo em que muitos acreditem. Mas a divulgação de seus
efeitos incentivou que outros os procurassem.

"Tomei minha pílula às onze", escreveu Aldous Huxley em seu "As portas da
percepção", livro de 1954. "Uma hora e meia depois, eu não estava mais
olhando para um arranjo de flores. Estava vendo o que Adão viu na manhã de
sua criação – o milagre, a existência nua, momento a momento. 'São bonitas?'
alguém me perguntou. 'Nem bonitas, nem feias. Simplesmente são' - respondi."

Em 1960, um professor de psicologia de Harvard chamado Timothy Leary, que
tinha experimentado um alucinógeno apenas alguns meses antes, começou seus
próprios experimentos com LSD. Ao longo da década seguinte, Leary foi
expulso de Harvard, largou a ciência e se transformou num dos principais
inspiradores da cultura hippie – pelo LSD.

Leary e o pai do LSD só foram se conhecer em 1971. "Seria injusto chamá-lo
de um apóstolo do uso de drogas", escreveu Hofmann em suas memórias. "Ele
fazia uma distinção clara entre as psicodélicas, de cujo efeito saudável
estava convencido, e os outros narcóticos, como heroína. Minha impressão é
de que estava convicto de que tinha uma missão. Defendia suas opiniões com
humor, mas sem fazer compromissos. Ele realmente acreditava nos formidáveis
efeitos dos psicodélicos e subestimava as dificuldades práticas e os perigos
do uso."

Os dois, o pai do LSD e o popularizador do LSD, nunca se entenderam de todo.
Entre as coisas que mais incomodavam Hofmann em Leary estava a ligação entre
alucinógenos e prazer sexual, tão em voga nos anos 60. Hofmann achava, e
ainda acha, que na popularização de seu filho problemático ele foi
vulgarizado. Seus delicados efeitos transformaram-se numa estética pop
multicolorida, promoveram um encantamento também pop com religiões
orientais, mas as portas da percepção que serviram de tema ao poeta William
Blake foram abusadas, tratadas sem o respeito devido.

*As portas da percepção*

Segundo o livro "From chocolate to morphine", uma enciclopédia de
substâncias que alteram a percepção, os psicodélicos todos têm composições
diferentes, mas provocam os mesmos efeitos. Mescalina, cogumelos, ervas
diversas e o ácido lisérgico variam na quantidade, variam no tempo da
viagem, mas o resultado prático é fundamentalmente o mesmo.

O mecanismo fisiológico do LSD ainda é desconhecido. Parece, de alguma
forma, ocupar no cérebro os mesmos lugares que a serotonina, mas isto
explica pouco. Há várias teorias e, ainda assim, são teorias de um campo
sobre o qual se avança lentamente. Mesmo que se conheça o efeito
físico-químico no sistema nervoso central, que substâncias coíbe, quais
incentiva, onde atua, ainda assim isto será apenas um mapa de causas e
efeitos. Como esta sopa química lança o sujeito noutra dimensão é um
mistério.

Em alguns casos, aparentemente, viagens de LSD não têm volta. São a exceção.
Uma estimativa do governo norte-americano sugere que 8% da população já
experimentou ácido e os casos de quem enlouqueceu são raríssimos. Mas
acontecem.

O pecado original do Ocidente é grego. Toda a estrutura do pensamento
europeu se baseia na idéia de que o homem é um observador do mundo, que é
separado de alguma forma. Ele é racional e desconfia de qualquer percepção
que não mediada pelo intelecto. É uma ilusão, evidentemente, uma ilusão
íntima da qual não nos livramos com facilidade. O homem separado,
observador, desenvolveu uma ciência fantástica e esta ciência criou uma
droga maldita.

"Havia em mim uma inocência que só posso chamar de pré-natal", escreveu o
poeta mineiro Paulo Mendes Campos sobre sua primeira experiência com a droga
de Hofmann. "Mais fundo, muito mais fundo, em minha soma de carne e
espírito, nos espaços ilimitados de meu tempo, suspeitei (vislumbrei? rocei?
– o verbo é improvável) a presença duma inocência cósmica, e esta se passava
tão longe que nem se pode exprimir. Caso ela fosse atingida, caso talvez eu
ousasse, seria uma árvore, a relva, a pedra, a mesa; sem dor e sem medo eu
me integraria indescritivelmente no cosmos."

Um após o outro, cada depoimento de uma primeira viagem de ácido ou de
outros psicodélicos parece recorrer, sempre, à mesma idéia de integração com
o mundo. Uma percepção de fazer parte do todo que remete às lições de Buda,
aos koans do Zen, ou à idéia não de uma força, mas de um algo que une todas
as coisas tal qual expressa na filosofia chinesa do Tao. É como se as drogas
psicodélicas trouxessem, para um ocidental, aquilo que orientais – ou índios
americanos – já têm em suas culturas naturalmente. As próprias mandalas
indianas ou os dragões chineses remetem às alucinações despertadas pelo LSD
e suas primas.

No entanto, não consta que para o monge budista ou o mestre Zen seja
necessário o uso de qualquer substância para atingir aquilo que chamam de
iluminação. E Albert Hofmann, que hoje completa cem anos e passa bem, é
conselheiro do Nobel, um cientista respeitado, não flutua, tampouco atira
flechas com os olhos fechados qual mestre japonês. Não dá muito crédito para
a cultura psicodélica e vê com desconfiança o consumo de ácido pela
juventude – até porque, muito do que se vende como LSD é só anfetamina, não
tem nada do original. Ainda assim, ele é a seu modo um místico. Se suas
maiores preocupações têm a ver com o meio ambiente é porque acha que o homem
se descolou da idéia de que faz parte do todo.

Em geral, quando se conta a história do LSD, diz-se que Albert Hofmann o
descobriu por acidente. Talvez não tenha ingerido da primeira vez
propositalmente, é verdade. Mas a ingestão em 43 de uma substância que criou
em 38 não é um acidente – é uma busca. E, se ao experimentar os efeitos
tóxicos de uma superdose após seu passeio de bicicleta ainda assim não a
abandonou, é porque, intuitivamente, ele sabia o que tinha encontrado. Sabia
porque, numa certa manhã de maio em sua infância, sem ingerir absolutamente
nada, encontrou abertas as portas da percepção.

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