Unabomber: os velhos luditas nunca morrem

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*Iñaki Arzoz e Andoni Alonso*

*"Ou luta ou se cala. Não é tempo de queixas". John Zerzan *

*Detido há 10 anos, que lições nos deixa Theodore Kaczynski*

Nessa irreversível globalização tecnológica não é ouro tudo que reluz. Assim
ao menos pensam alguns. Diante dos discursos triunfantes de Bill Gates ou
Nicholas Negroponte, ouvem-se numerosas vozes críticas, cada vez mais
severas, diante do avanço irreversível de uma impiedosa economia globalizada
- segundo Manuel Castells: mais perigosa em certas ocasiões que uma bomba de
neutrons - e de uma técnica desumana que arrasa tanto o meio ambiente como
as distintas culturas vernáculas.

O velho rei Ludd está de parabéns, vendo como seus seguidores não somente
não têm desaparecido, como também têm-se reproduzido e tentam revolucionar
este estado de dominação tecnológica, amiúde, por meio da mesma tecnologia.
Internet ferve de páginas "neoluditas" onde incluem-se arquivos e livros
eletrônicos para os fieis súditos à causa rebelde do fantasioso Ned Ludd.
Nas filas destes novos luditas podemos contar os famosos Hakim Bey ou John
Zerzan e, naturalmente, Theodore Kaczynski, mais conhecido como Unabomber,
cujo apelido já é um sinônimo de neoludismo do século XX.

Este é hoje o protagonista de nossa seção, um anti-herói ludita, não tanto
por suas idéias – legítimas em muitos aspectos – mas por seus métodos
atrozes e absurdos, que sem dúvida atingiram seu objetivo: suas críticas
foram ouvidas e conhecidas popularmente.

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*Um intelectual brilhante*

Theodore Kaczynski (1941). Este ex-professor de matemática da Universidade
de Berkeley passou à história como um dos casos de intelectuais mais
singulares do século (a revista People concedeu-lhe em 1996 o prêmio como
uma das personalidades mais estranhas do momento). Um intelectual brilhante,
segundo as declarações de seus companheiros e professores, porém de caráter
antisocial, com um grande talento pela matemática, abandona sua promissora
carreira universitária em 1969 sem maiores explicações, para dedicar-se a
trabalhos semi-especializados, até que finalmente retira-se para os bosques
de Montana, para viver como um ermitão em uma cabana.

Kaczynski confessou posteriormente que desde 1979 não havia cobrado nenhum
tipo de salário, isto é, que viveu 17 anos sem remuneração, completamente
autosuficiente, como Thoreau – o modelo dos luditas norte-americanos – na
cabana Walden.

Ao mesmo tempo, desde 1978, e esta é a parte mais notória de sua "carreira
pública", envia pelo correio uma série de bombas artesanais – num total de
23 -, a diferentes personalidades da universidade (daí o apelido:
Una-bomber) e de empresas de informática (entre eles Bill Gates), cujo
resultado foram 22 feridos e mutilados e 2 mortos. A razão que argumentou
para sua campanha terrorista é um tópico do neoludismo: o desenvolvimento
tecno-econômico ameaça com a destruição do mundo.

Portanto, segundo seu raciocínio, todo aquele que colabore com o
desenvolvimento da tecnologia é cúmplice do previsível genocídio da
humanidade. 1995 foi o ano Unabomber por excelência, pois conseguiu que o
"Washington Post" publicasse, pois prometeu que se isso ocorresse já não
enviaria mais bombas, seu libelo entitulado:"Manifesto: Industrial Society
and Its Future"
<http://www.emf.net/%7Eestephen/manifesto/unabe2.html>(Sociedade
Industrial e seu futuro), (tradução espanhola no "El manifiesto
Unabomber", Coletivo Likiniaño, 1999).

*Espaço na mídia*

E então o FBI enlouqueceu, começando uma campanha nacional com a
distribuição de supostos retratos do terrorista, um rosto sinistro com
bigode, oculto por trás de óculos negros e sob um capuz. A busca do inimigo
público número 1 se estendia demasiadamente e ademais, o terrorista ganhava
terreno no espaço da mídia. O contra-ataque da polícia interestadual não
podia ser mais curioso: humilharam a Kaczynski chamando-o de terrorista a
assassino em série, esperando com isso desacreditar seu Manifesto.

E justamente a chave do caso, mais que nos atentados, estava neste
Manifesto. De estilo lacônico e severo, porém bem documentado e, segundo os
especialistas, dá sequência à linha crítica contra a tecnologia do sociólogo
francês Jacques Elull (com ecos de Mumford y Winner), este Manifesto não
passou despercebido entre a intelectualidade norte-americana. Pois
manifestava sem rodeios o desespero de uma ampla minoria alternativa – desde
ecologistas a esquerdistas marginais – que vêem o progresso acabar com uma
forma de vida "natural" e que vai impor outra dominação do império da
tecnologia.

Por ele, este texto – um dos manifestos definitivos da nascente cibercultura
junto à Declaração de Perry Barlow e o Manifesto de Dona Haraway sobre o
cyborg – se começa a utilizar como livro de textos em cursos universitários
(enquanto o FBI efetua infrutíferas buscas em vários campus suspeitos) onde
é distribuido amplamente, tanto em papel como na Internet, o qual
converteu-se em um pequeno best-seller da contracultura.

*Washington Post*

O Manifesto expressa, de forma radical, que nossa sociedade aproxima-se do
desastre, afirmação que, por outra parte, o Clube de Roma mostra-se disposto
a aceitar, apesar de que não compartilha com os remédios violentos de
luditas como Unabomber. Já não adianta negociar reformas ou mudanças nos
estabelecimentos tecno-industriais, e muito menos agora, envolvidos como
estamos com a economia ultratecnológica e virtual dessa grande rede. Nem
sequer a esquerda é capaz de encontrar um ponto de equilíbrio entre as
idéias e os métodos para mitigar seus efeitos ou atrasar seu avanço, pois já
faz tempo que perdeu-se o norte e conforma-se com as migalhas que o duro
mercado livre lhe oferece.

Ainda que haja algo tão familiarmente norte-americano nessa visão, ao mesmo
tempo populista e individualista, de Unabomber, que não é de se estranhar
que algum tempo depois, mais tarde, o jornal "Washington Post" publicou um
artigo com um surpreendente título "Ex 'pluribus', Unabomber", imitando
assim a velha inscrição que aparece nas notas dos dólares: "de muitos, um só
povo". E o que acontece é que detemo-nos um instante a pensar, seguramente
toma-nos um forte desejo de que Unabomber e os luditas podem ter algo de
razão, e que provavelmente, de imediato ou mais tarde, dirigimo-nos até uma
catástrofe global. Esta é a sensação que transmite o Manifesto, e aí reside
seu particular atrativo.

*La cárcel
*
Pode-se afirmar que Unabomber é uma espécie de "anarquista conservador",
defensor do individualismo norte-americano e muito distante de qualquer
tentação comunista, o qual faz-se ainda mais interessante para a
intelectualidade norte-americana. O indivíduo na solidão ou muito enrraigado
em uma pequena comunidade – o neo-pioneiro ecologista -, é a única esperança
para sobreviver distante dos fluxos de poder internacionais, das corporações
multinacionais ou de instituições como a Organização Mundial do Comércio
(OMC) ou o Fundo Monetário Internacional (FMI). Não é de se estranhar que,
pouco depois da prisão de Unabomber, um dos anarquistas teóricos mais
conhecidos e respeitados, John Zerzan, foi visitá-lo no cárcere.

E tampouco foi casual porque Zerzan, durante muitos anos, foi o candidato
mais provável para ser o verdadeiro Unabomber (apesar de declarar-se
pacifista). Muitos consideravam que sua idéia de um "Futuro Primitivista"
parecia-se muito com os postulados de Unabomber, o que se confirmou
realmente, segundo todos os indícios, no claro instigador intelectual das
revoltas de rua de 1999 contra a OMC em Seattle e contra a recente reunião
do FMI em Nova York.

*Internauta e pacifista...
*
Estes são os herdeiros de Unabomber, a nova geração de luditas; jovens
inconformados que se coordenam pela Internet para montar barricadas contra a
globalização; o ludismo convervador, anti-tecnológico e sangrento, derivando
até um ludismo possibilista, internauta e pacifista.

Unabomber, como se sabe, foi finalmente detido em 1998, sua exígua cabana de
madeira transportada em um reboque para ser exaustivamente analisada e,
diante das provas encontradas, finalmente acusado.

Depois de longo tempo do processo e um sem-fim de sutilezas legais de
Unabomber e seus advogados, uma espera mais que provável pela condenação – a
prisão perpétua sem indulto ou perdão, tal como foi pedido pelo juiz -, e
pelo que parece, Walt Disney vai filmar o caso (suponhamos que devam incluir
a delação de seu irmão, que cobrou um milhão de dólares de recompensa).

Ninguém parece defender hoje os métodos de Unabomber, moral ou
estrategicamente, porém seu Manifesto seguirá inquietando-nos durante muito
tempo.

Os velhos luditas nunca morrem...

*Iñaki Arzoz y Andoni Alonso - São licenciados em Belas Artes e doutor em
Filosofìa, respectivamente, pela Universidad del País Vasco. Tradução e
adaptação do texto por Luiz Cirne.*

*Texto pentencente a biblioteca* Bitniks.es <http://www.bitniks.es/>*,
revista espanhola parceira há oito anos da NovaE, que os reedita e republica
com exclusividade em português. O real é atual. Credibilidade não envelhece.
*

*1999-2009 - NovaE - !0 anos - Porque história é para ser contada.*

<http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=1009&print=1>

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