VIVA A REVOLUÇÃO
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Data: Tue, 6 May 2008 14:24:14 -0300
Assunto: [becodalama] Unabomber: os velhos luditas nunca morrem
> Unabomber: os velhos luditas nunca morrem
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> *Iñaki Arzoz e Andoni Alonso*
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> *"Ou luta ou se cala. Não é tempo de queixas". John Zerzan *
>
> *Detido há 10 anos, que lições nos deixa Theodore Kaczynski*
>
> Nessa irreversível globalização tecnológica não é ouro tudo que reluz. Assim
> ao menos pensam alguns. Diante dos discursos triunfantes de Bill Gates ou
> Nicholas Negroponte, ouvem-se numerosas vozes críticas, cada vez mais
> severas, diante do avanço irreversível de uma impiedosa economia globalizada
> - segundo Manuel Castells: mais perigosa em certas ocasiões que uma bomba de
> neutrons - e de uma técnica desumana que arrasa tanto o meio ambiente como
> as distintas culturas vernáculas.
>
> O velho rei Ludd está de parabéns, vendo como seus seguidores não somente
> não têm desaparecido, como também têm-se reproduzido e tentam revolucionar
> este estado de dominação tecnológica, amiúde, por meio da mesma tecnologia.
> Internet ferve de páginas "neoluditas" onde incluem-se arquivos e livros
> eletrônicos para os fieis súditos à causa rebelde do fantasioso Ned Ludd.
> Nas filas destes novos luditas podemos contar os famosos Hakim Bey ou John
> Zerzan e, naturalmente, Theodore Kaczynski, mais conhecido como Unabomber,
> cujo apelido já é um sinônimo de neoludismo do século XX.
>
> Este é hoje o protagonista de nossa seção, um anti-herói ludita, não tanto
> por suas idéias - legítimas em muitos aspectos - mas por seus métodos
> atrozes e absurdos, que sem dúvida atingiram seu objetivo: suas críticas
> foram ouvidas e conhecidas popularmente.
>
> **
>
> *Um intelectual brilhante*
>
> Theodore Kaczynski (1941). Este ex-professor de matemática da Universidade
> de Berkeley passou à história como um dos casos de intelectuais mais
> singulares do século (a revista People concedeu-lhe em 1996 o prêmio como
> uma das personalidades mais estranhas do momento). Um intelectual brilhante,
> segundo as declarações de seus companheiros e professores, porém de caráter
> antisocial, com um grande talento pela matemática, abandona sua promissora
> carreira universitária em 1969 sem maiores explicações, para dedicar-se a
> trabalhos semi-especializados, até que finalmente retira-se para os bosques
> de Montana, para viver como um ermitão em uma cabana.
>
> Kaczynski confessou posteriormente que desde 1979 não havia cobrado nenhum
> tipo de salário, isto é, que viveu 17 anos sem remuneração, completamente
> autosuficiente, como Thoreau - o modelo dos luditas norte-americanos - na
> cabana Walden.
>
> Ao mesmo tempo, desde 1978, e esta é a parte mais notória de sua "carreira
> pública", envia pelo correio uma série de bombas artesanais - num total de
> 23 -, a diferentes personalidades da universidade (daí o apelido:
> Una-bomber) e de empresas de informática (entre eles Bill Gates), cujo
> resultado foram 22 feridos e mutilados e 2 mortos. A razão que argumentou
> para sua campanha terrorista é um tópico do neoludismo: o desenvolvimento
> tecno-econômico ameaça com a destruição do mundo.
>
> Portanto, segundo seu raciocínio, todo aquele que colabore com o
> desenvolvimento da tecnologia é cúmplice do previsível genocídio da
> humanidade. 1995 foi o ano Unabomber por excelência, pois conseguiu que o
> "Washington Post" publicasse, pois prometeu que se isso ocorresse já não
> enviaria mais bombas, seu libelo entitulado:"Manifesto: Industrial Society
> and Its Future"
> (Sociedade
> Industrial e seu futuro), (tradução espanhola no "El manifiesto
> Unabomber", Coletivo Likiniaño, 1999).
>
> *Espaço na mídia*
>
> E então o FBI enlouqueceu, começando uma campanha nacional com a
> distribuição de supostos retratos do terrorista, um rosto sinistro com
> bigode, oculto por trás de óculos negros e sob um capuz. A busca do inimigo
> público número 1 se estendia demasiadamente e ademais, o terrorista ganhava
> terreno no espaço da mídia. O contra-ataque da polícia interestadual não
> podia ser mais curioso: humilharam a Kaczynski chamando-o de terrorista a
> assassino em série, esperando com isso desacreditar seu Manifesto.
>
> E justamente a chave do caso, mais que nos atentados, estava neste
> Manifesto. De estilo lacônico e severo, porém bem documentado e, segundo os
> especialistas, dá sequência à linha crítica contra a tecnologia do sociólogo
> francês Jacques Elull (com ecos de Mumford y Winner), este Manifesto não
> passou despercebido entre a intelectualidade norte-americana. Pois
> manifestava sem rodeios o desespero de uma ampla minoria alternativa - desde
> ecologistas a esquerdistas marginais - que vêem o progresso acabar com uma
> forma de vida "natural" e que vai impor outra dominação do império da
> tecnologia.
>
> Por ele, este texto - um dos manifestos definitivos da nascente cibercultura
> junto à Declaração de Perry Barlow e o Manifesto de Dona Haraway sobre o
> cyborg - se começa a utilizar como livro de textos em cursos universitários
> (enquanto o FBI efetua infrutíferas buscas em vários campus suspeitos) onde
> é distribuido amplamente, tanto em papel como na Internet, o qual
> converteu-se em um pequeno best-seller da contracultura.
>
> *Washington Post*
>
> O Manifesto expressa, de forma radical, que nossa sociedade aproxima-se do
> desastre, afirmação que, por outra parte, o Clube de Roma mostra-se disposto
> a aceitar, apesar de que não compartilha com os remédios violentos de
> luditas como Unabomber. Já não adianta negociar reformas ou mudanças nos
> estabelecimentos tecno-industriais, e muito menos agora, envolvidos como
> estamos com a economia ultratecnológica e virtual dessa grande rede. Nem
> sequer a esquerda é capaz de encontrar um ponto de equilíbrio entre as
> idéias e os métodos para mitigar seus efeitos ou atrasar seu avanço, pois já
> faz tempo que perdeu-se o norte e conforma-se com as migalhas que o duro
> mercado livre lhe oferece.
>
> Ainda que haja algo tão familiarmente norte-americano nessa visão, ao mesmo
> tempo populista e individualista, de Unabomber, que não é de se estranhar
> que algum tempo depois, mais tarde, o jornal "Washington Post" publicou um
> artigo com um surpreendente título "Ex 'pluribus', Unabomber", imitando
> assim a velha inscrição que aparece nas notas dos dólares: "de muitos, um só
> povo". E o que acontece é que detemo-nos um instante a pensar, seguramente
> toma-nos um forte desejo de que Unabomber e os luditas podem ter algo de
> razão, e que provavelmente, de imediato ou mais tarde, dirigimo-nos até uma
> catástrofe global. Esta é a sensação que transmite o Manifesto, e aí reside
> seu particular atrativo.
>
> *La cárcel
> *
> Pode-se afirmar que Unabomber é uma espécie de "anarquista conservador",
> defensor do individualismo norte-americano e muito distante de qualquer
> tentação comunista, o qual faz-se ainda mais interessante para a
> intelectualidade norte-americana. O indivíduo na solidão ou muito enrraigado
> em uma pequena comunidade - o neo-pioneiro ecologista -, é a única esperança
> para sobreviver distante dos fluxos de poder internacionais, das corporações
> multinacionais ou de instituições como a Organização Mundial do Comércio
> (OMC) ou o Fundo Monetário Internacional (FMI). Não é de se estranhar que,
> pouco depois da prisão de Unabomber, um dos anarquistas teóricos mais
> conhecidos e respeitados, John Zerzan, foi visitá-lo no cárcere.
>
> E tampouco foi casual porque Zerzan, durante muitos anos, foi o candidato
> mais provável para ser o verdadeiro Unabomber (apesar de declarar-se
> pacifista). Muitos consideravam que sua idéia de um "Futuro Primitivista"
> parecia-se muito com os postulados de Unabomber, o que se confirmou
> realmente, segundo todos os indícios, no claro instigador intelectual das
> revoltas de rua de 1999 contra a OMC em Seattle e contra a recente reunião
> do FMI em Nova York.
>
> *Internauta e pacifista...
> *
> Estes são os herdeiros de Unabomber, a nova geração de luditas; jovens
> inconformados que se coordenam pela Internet para montar barricadas contra a
> globalização; o ludismo convervador, anti-tecnológico e sangrento, derivando
> até um ludismo possibilista, internauta e pacifista.
>
> Unabomber, como se sabe, foi finalmente detido em 1998, sua exígua cabana de
> madeira transportada em um reboque para ser exaustivamente analisada e,
> diante das provas encontradas, finalmente acusado.
>
> Depois de longo tempo do processo e um sem-fim de sutilezas legais de
> Unabomber e seus advogados, uma espera mais que provável pela condenação - a
> prisão perpétua sem indulto ou perdão, tal como foi pedido pelo juiz -, e
> pelo que parece, Walt Disney vai filmar o caso (suponhamos que devam incluir
> a delação de seu irmão, que cobrou um milhão de dólares de recompensa).
>
> Ninguém parece defender hoje os métodos de Unabomber, moral ou
> estrategicamente, porém seu Manifesto seguirá inquietando-nos durante muito
> tempo.
>
> Os velhos luditas nunca morrem...
>
> *Iñaki Arzoz y Andoni Alonso - São licenciados em Belas Artes e doutor em
> Filosofìa, respectivamente, pela Universidad del País Vasco. Tradução e
> adaptação do texto por Luiz Cirne.*
>
> *Texto pentencente a biblioteca* Bitniks.es *,
> revista espanhola parceira há oito anos da NovaE, que os reedita e republica
> com exclusividade em português. O real é atual. Credibilidade não envelhece.
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> *1999-2009 - NovaE - !0 anos - Porque história é para ser contada.*
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