COMO PASSAM AS NUVENS Por: Rafael Duarte
O Centro Histórico absorve e preserva alguns personagens de fazer inveja a
qualquer Machado de Assis. Uma dessas criaturas, que ainda não conheço como
gostaria, o que deve acontecer em breve, é o seo Arnaldo.

Figura das mais simpáticas e excêntricas que já vi pelo meio dessas ruas do
Centro, o cara é um passado de fidalguia. Quase todos os dias, desce a rua
Letícia Cerqueira, onde moro há três meses, com um rádio negro daqueles
gigantes com o volume lá em cima. A máquina é tão antiga que, pelo nível e a
idade das canções que inundam a rua, parece inerte na primeira estação de
rádio que seo Arnaldo sintonizou na vida.

Outro dia, quando corri para o portão assim que ouvi, mesmo de longe, a
chegada de seo Arnaldo, um desses doidos de rua resolveu pegar carona no
caminhada nostálgica do dono do rádio e disse para um vizinho que estava na
janela, como se estivesse numa gafieira de antigamente:

- Bonito isso...

Definitivamente, ouvir serestões e boleros das décadas de 20, 30 e 40 em
pleno Centro às quatro da tarde é para poucos. Como foi, para pouquíssimas
pessoas, o diálogo que ouvi no dia em que conheci seo Arnaldo, ainda que ele
não saiba até hoje da minha existência.

De saída do Beco da Lama, onde cobri as eleições da Sociedade dos Amigos do
Beco da Lama e Adjascências (SAMBA), em 2006, decidi aguardar o ônibus na
avenida Ulisses Caldas. Poucas pessoas na parada. Entre elas, uma coroa
simples que, até então, não havia chamado a atenção de ninguém. Até aparecer
um senhor pra lá dos 70 anos com cara de personagem de desenho animado
andando como se entre uma perna e outra coubessem dois passos, ao invés de
um. Ao ver a coroa, o velho pára, passa-lhe uma cantada com o olhar e,
então, acontece a seguinte conversa:

- Seo Arnaldo, como vai o senhor?

- Vou bem, dona Verônica. E a senhorita?

- Também. Passando por aqui?

- Passando, dona Verônica. Passando como passam as nuvens.

Pois é. Não preciso dizer mais nada.

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