Olá cineasta.
É um personagem, pois não?
Aproveita.Carlos Tourinho


To: [EMAIL PROTECTED]; [EMAIL PROTECTED]: [EMAIL PROTECTED]: Thu, 27 Nov 2008 
16:57:28 -0200Subject: [becodalama] Como passam as nuvens





COMO PASSAM AS NUVENS
Por: Rafael Duarte 

O Centro Histórico absorve e preserva alguns personagens de fazer inveja a 
qualquer Machado de Assis. Uma dessas criaturas, que ainda não conheço como 
gostaria, o que deve acontecer em breve, é o seo Arnaldo. Figura das mais 
simpáticas e excêntricas que já vi pelo meio dessas ruas do Centro, o cara é um 
passado de fidalguia. Quase todos os dias, desce a rua Letícia Cerqueira, onde 
moro há três meses, com um rádio negro daqueles gigantes com o volume lá em 
cima. A máquina é tão antiga que, pelo nível e a idade das canções que inundam 
a rua, parece inerte na primeira estação de rádio que seo Arnaldo sintonizou na 
vida. Outro dia, quando corri para o portão assim que ouvi, mesmo de longe, a 
chegada de seo Arnaldo, um desses doidos de rua resolveu pegar carona no 
caminhada nostálgica do dono do rádio e disse para um vizinho que estava na 
janela, como se estivesse numa gafieira de antigamente:- Bonito isso... 
Definitivamente, ouvir serestões e boleros das décadas de 20, 30 e 40 em pleno 
Centro às quatro da tarde é para poucos. Como foi, para pouquíssimas pessoas, o 
diálogo que ouvi no dia em que conheci seo Arnaldo, ainda que ele não saiba até 
hoje da minha existência.De saída do Beco da Lama, onde cobri as eleições da 
Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjascências (SAMBA), em 2006, decidi 
aguardar o ônibus na avenida Ulisses Caldas. Poucas pessoas na parada. Entre 
elas, uma coroa simples que, até então, não havia chamado a atenção de ninguém. 
Até aparecer um senhor pra lá dos 70 anos com cara de personagem de desenho 
animado andando como se entre uma perna e outra coubessem dois passos, ao invés 
de um. Ao ver a coroa, o velho pára, passa-lhe uma cantada com o olhar e, 
então, acontece a seguinte conversa:- Seo Arnaldo, como vai o senhor?- Vou bem, 
dona Verônica. E a senhorita?- Também. Passando por aqui?- Passando, dona 
Verônica. Passando como passam as nuvens. Pois é. Não preciso dizer mais nada. 
 





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