Sertão Fenomenal


Cai à tarde na curva do crepúsculo

Deita o sol sobre o corpo da amplidão

Nuvens negras convidam a escuridão

E deixam o céu num estado minúsculo.

Um carão dar um grito no arbúsculo

Quando vê claridade no horizonte

Que é o raio cortando bem defronte

Uma nuvem, que grávida se inclina,

Para abrir as goteiras da cortina

E verter uma chuva sobre o monte



Cada pássaro busca o seu abrigo

Entre as folhas da mata virginal

Só o feio tristonho bacurau

Não parece temer qualquer perigo.

O relâmpago joga o seu castigo

Sobre o tronco da velha aroeira

A faísca lhe corta a madeira

Assustando a árvore secular

Que resiste e consegue não tombar

Se mostrando fantástica guerreira.



Toda a noite se cobre no aguaceiro

Desde o monte ao vale campesino

Desce a água buscando seu destino

Estrondando nos mil desfiladeiros.

Velhos troncos redondos e maneiros

São levados ao sabor da correnteza

Olham as aves da sua fortaleza

O inverno nas telas do Sertão

Dando estrondo e mostrando seu clarão

Enfeitando o nordeste de beleza.



De manhã bem depois da enxurrada

A natura se acorda bem contente

Fica grávida a plácida semente

Canta alegre no campo a passarada.

A lagoa transborda engravidada

Lindos tufos de água cristalina;

E o feliz alazão sacode a crina

Relinchando no campo orvalhado

Esperando o vaqueiro no roçado

Pra tanger todo gado pra campina.



A rolinha pequena eriça as penas

Derramando gotículas de orvalhos

Como lindos cristais caem dos galhos

Sobre as flores das plácidas verbenas.

Na floresta se escuta as cantilenas

Da orquestra de pássaros cantantes;

As marrecas desfilam nas vazantes

Dando vôos numa linda procissão,

E as águas estrondam num grotão

Entre as rochas de lâminas cortantes.



Sobre os galhos frondosos da braúna

Onde o sol faz cortina de fulgores

Lindos pássaros são líricos cantores

Sob o toque regente da graúna

Borboletas na flor da ibituruna

Batem as asas de seda delicada,

A campina de cor bem enfeitada

Mostra as telas sutis da natureza

Desenhando a paisagem da beleza

Pelas mãos da manhã sofisticada.



As vazantes que ficam alagadas

São lugares de mágica existência

Onde as águas com lírica cadência

Mostra a dança das gotas orvalhadas.

As abelhas nas poças inundadas

Com galões levam pingos de orvalhos

Pra usarem durante os trabalhos

Nas colméias fazendo o doce mel

Recolhido nas rosas do vergel

Ou nas flores dos plácidos carvalhos.



Sobre o ventre da terra brota a vida

Colorindo com tintas multicores

Nos jardins naturais mil beija-flores

Buscam o néctar da flor mais colorida

O sutil rouxinol sai da guarida

Orquestrando o seu canto matinal

As ovelhas despertam no curral

Cada qual demonstrando a cor da lã

São belezas que surgem de manhã

Demonstrando o sertão fenomenal



                                            Gilmar Leite



-- 
Gilmar Leite

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