Senhoras e senhores, foi dada a largada. Então, como prometi ontem à noite para 
algumas pessoas, segue a reportagem que fiz sobre a votação da eleição passada, 
quando trabalhava no VIVEr, da TN. À propósito, Civone e Plínio estavam certos 
e eu errado. O dia da eleição, que caiu num sábado, foi dia 29 de abril, e não 
1º de maio. A matéria foi publicada no dia 2 de maio, na edição de terça-feira. 
Um detalhe: nada do que foi prometido pela gestão que assumiu foi cumprido. 
Principalmente os projetos sociais. O Alex, na época, também cobriu a eleição 
para o Correio da Tarde (manda a matéria aí, Alex!!!!) Divirtam-se.

 

Abs,

 

Rafael Duarte



 


Beco vivo da lama

Junior SantosCENTRO - Beco da Lama é ponto de encontro de artista
02/05/2006 - Tribuna do Norte 

Rafael Duarte - Repórter 

Caldo de mocotó, “churrasquinho de gato” e cerveja gelada. Tudo isso no meio da 
rua com a população desavisada, mas de olho na urna instalada no coração do 
Beco. Na medida certa para consagrar o novo presidente da Sociedade dos Amigos 
do Beco da Lama e Adjacências (Samba) - entidade organizada há 14 anos para 
levantar a imagem de um dos pontos mais tradicionais da cultura boêmia de Natal 
- na primeira eleição direta da história da comunidade.

O pleito ocorreu sábado passado em frente ao bar Quatro Cantos (antigo bar do 
Nasi) e “lavou” o Beco. Agora, a responsabilidade pela gestão da Samba, durante 
os próximos três anos, está nas mãos do professor de xadrez e matemática 
Ubiratan Lemos, de 43 anos. Ele encabeçou a chapa Beco Vivo e conquistou 72 dos 
100 votos válidos. A concorrente liderada pelo jornalista Alex Gurgel, Sempre 
Samba, teve o apoio de apenas 26 pessoas. Dois sócios anularam o voto.

Ao todo, 322 eleitores estavam aptos a escolher o sucessor do poeta e 
jornalista Eduardo Alexandre (Dunga), segundo presidente da história da Samba e 
reconhecido pelo trabalho que fez à frente da entidade. A posse  da nova gestão 
deve ocorrer no dia 17 de maio, durante o II Carnabeco.

Professor Bira diz que grande projeto para o Beco é social

Poeta, comunista, libertário, casado, pai de uma menina e freqüentador do Beco 
há 18 anos, o “Professor Bira” acredita que a vitória veio pelo empenho dos 38 
componentes de chapa. Ele prometeu equilibrar as ações culturais e sociais da 
região ao lembrar que o carro chefe da campanha, o projeto “Dê uma hora ao 
Beco”, pretende ocupar a juventude que freqüenta o Beco da Lama e as 
adjacências, como a praça André de Albuquerque. “Vamos manter e ampliar os 
projetos culturais desenvolvidos pela gestão passada porque ninguém é doido de 
fazer o contrário se deu certo. Mas o grande projeto da gente é social. Aqui 
tem muito jovem abandonado, menino de rua mesmo, sem ter para onde ir. 

Acho que temos o dever de mudar isso. E não vai custar nada. Vamos pedir que 
quando os freqüentadores vierem tomar sua cerveja, que  cheguem uma hora mais 
cedo para orientar, ensinar e passar alguma mensagem para a juventude que 
cresce aqui. No Beco a gente tem artista, jornalista, advogado, professor... A 
idéia é fazer uma programação e até remunerar esse pessoal”, explicou.

O plano prevê parcerias com empresas privadas através das leis de incentivo à 
cultura. “Nosso primeiro contato será com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) 
para mostrar as idéias e tentar acertar um apoio. A gente tem que ocupar essa 
garotada. Todo mundo tem que participar”, disse.

Bira conta que seu nome surgiu entre os “amigos de copo” quando a chapa 
concorrente já havia sido definida. No entanto, o nome de Alex Gurgel não foi 
digerido pelo grupo, segundo ele, pela ausência do jornalista nos principais 
eventos realizados no Beco. Na verdade, o Beco da Lama ganhou tanta 
visibilidade nos últimos anos por conta dos eventos organizados pela Samba com 
o apoio do Estado, que a eleição teve uma importância ainda maior para a 
comunidade que freqüenta o local. Prova disso é que em vez de um grupo apontar 
um nome para administrar a Samba, como ocorria até então, pela primeira vez na 
história do Beco o pleito foi decidido através de votação direta.

De fato, por atrás do discurso fraterno do vencedor, havia uma declarada 
disputa de terreno. “Todo mundo das duas chapas se conhece, toma cerveja junto. 
Mas o Alex é muito recente aqui. Quando ele anunciou a candidatura, vieram me 
perguntar se a gente ia deixar ele tomar o Beco da gente. No I Carnabeco ele 
não apareceu, no I Pratodomundo também não veio. Acho que não chegou a vez 
dele”, disse.

Procurado pela reportagem ainda durante a votação, Gurgel desmentiu o 
concorrente e criticou algumas propostas da Beco Vivo, como o “Tributo à Che 
Guevara” que, com a vitória de Bira, deve ocorrer durante esta gestão.

O jornalista centrou suas propostas na área cultural e defendia a construção de 
uma sede para a entidade. “Essa história de que eu não estava aqui nos eventos 
é conversa fiada dele. O problema é que eu dou aula no sábado e não posso 
chegar aqui mais cedo. Agora, eles têm umas propostas que não entendi. 
Homenagear Che Guevara!? A gente tem tanta gente importante do nosso Estado que 
poderia ser valorizada, como Newton Navarro, Câmara Cascudo, Auta de Souza... e 
eles querem fazer um tributo à Guevara!? O Beco tem que valorizar a cultura da 
terra”.

Mesmo diante das provocações veladas e tão comuns em eleições, a votação 
ocorreu num clima de harmonia até às 17h, quando a comissão eleitoral divulgou 
o resultado. Daí para frente não mudou muita coisa. Mais caldo de mocotó, 
“churrasquinho de gato” e muita cerveja gelada.

A fauna do beco só cresce

Marcos Boi, Ajax Felipe, Zé da Pindoba e Anaxágoras de Lima. Artemilson, 
Robério “O Coisa” e Biba Thompson. Paulo Zero Grau e Adebal Galego Feio. Assim 
de supetão, a relação parece a escalação de um time de pelada. Mas estavam 
todos lá marcando presença. Titulares absolutos da lista de sócios da Samba. 
Afinados para a escolha do presidente mais popular do Beco.

Ainda que consagrado pelo tempero libertário, o universo do Beco da Lama  é 
democrático. Principalmente quando o assunto é o convívio humano. A rotina da 
região é feita sem distinção. Da anarquia à direita. Da esquerda ao que sobrou 
do paraíso. É onde o guardador de carros e o deputado passam para tomar a 
saideira antes de voltar para casa.

Ponto de encontro de artistas, jornalistas, advogados, professores e 
autoridades, o Beco, hoje, tem mesa reservada até na Câmara Municipal de Natal, 
onde cinco vereadores montaram o que a boemia local chama de “bancada do beco”. 
A idéia é trazer à tona carências como questões de infra-estrutura ligadas ao 
espaço.

O presidente da Comissão Eleitoral que organizou o pleito de sábado, Plínio 
Sanderson, contou que o grupo de parlamentares incluiu no orçamento geral deste 
ano uma verba de R$ 300 mil para a urbanização do Beco. “O Beco hoje está 
precisando de ajuda. Está sujo, largado nesse aspecto”.

Cerveja e nome na lista

Em dia de eleição, regra é regra até no Beco da Lama. É verdade que a boca de 
urna estava institucionalizada pelo megafone na mesa da comissão eleitoral - 
usado pelo sócios que quisessem declarar o voto. Mas só votou quem tinha o nome 
na lista. Ainda assim, alguns “companheiros de copo” desavisados insistiam em 
participar.

O caso mais curioso foi o de uma senhora meio “alta” com pinta de alemã que se 
identificou, atropelando as palavras e depois de muita discussão, como artista 
plástica Josineide Varela, de 63 anos. Ela queria votar de qualquer jeito, 
mesmo admitindo que não conhecia os candidatos nem as chapas concorrentes.

A cena não chegou a ser um “barraco” (não passou de um bate-boca com o 
candidato pela chapa Sempre Samba, Alex Gurgel) mas valeu pelo inusitado e para 
mostrar porque o Beco da Lama é considerado ainda o ponto mais rico da boemia 
natalense. Eis os “melhores momentos” do diálogo entre Josineide e Alex Gurgel: 


 

Josineide: Eu gosto de chutar (faz o movimento rápido como se levasse o copo à 
boca) por aqui. Mas onde é que a gente vota?.

Alex: O nome da senhora está na lista? 

J: Que lista, meu amigo! Venho aqui todos os dias. Só quero votar... A: Mas a 
senhora só pode votar se tiver o nome na lista. Se não tem, não vota.

J: Como é que é? Você vai me dizer agora como eu devo fazer, é? Minha mãe morou 
por aqui a vida toda! Todo mundo me conhece aqui. Vou votar sim.

A: Minha senhora, entenda: é uma regra. Imagine se todo mundo que quisesse 
votar viesse para cá? Não ia ter condições. Se o prefeito de Natal quisesse 
votar hoje ele não podia porque o nome dele não está na lista. Me diga porque a 
senhora votaria?

J: O que é isso, meu amigo!? O prefeito é uma autoridade! Você não pode fazer 
isso. Vou votar e ainda trouxe dois amigos que vieram da Alemanha para votar 
também.

A: Minha senhora, não pode! A senhora conhece pelo menos os candidatos que 
estão participando da eleição?

J: E eu lá quero saber de candidato, meu amigo! Vou votar no melhor. Me diga 
uma coisa: vocês tem sede?

A: Não. 

J: Meu amigo, vocês não têm nem sede e ainda querem me impedir de votar? Como é 
que pode?

A: Mas se a senhora não sabe nem quem são os candidatos... J: E você lá conhece 
algum candidato! 

A: EU SOU CANDIDATO! Ta vendo? Como é que a senhora quer participar se não sabe 
de nada? 

J: Olha aqui, quero uma cerveja. Não dá para conversar com você sem tomar 
cerveja.

A: Tem vários bares aqui...(ele aponta para a região) J: (depois de entrar e 
sair do bar em frente onde a discussão se dava, ela volta provocando) Aqui não 
tem cerveja. Quero votar.

A: Eu já lhe disse que a senhora não vai votar.

J: Que absurdo! Você sabe porque isso está acontecendo?

A: Porque a senhora não tem o nome na lista...

J: Não! Porque não tem organização! Isso é coisa de brasileiro! O Congresso 
Nacional só tem safado. Isso o que está acontecendo aqui é uma sacanagem...

A: A senhora está misturando as coisas. Não tem nada a ver uma coisa com outra. 
Aqui é a eleição da Samba.

J: De quem? Está vendo? Até o nome é uma porcaria (diz o nome Samba com desdém 
e dança na frente do repórter e do candidato numa cena que lembrava as 
chanchadas da década de 70).

A: Mas Samba é Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências. Olhe,  a 
senhora não sabe nem o que significa o nome da entidade. Quanto mais votar...

J: Olhe aqui, meu amigo: eu vou me candidatar à vereadora nas próximas eleições 
e ainda vou ter mais votos que você! Agora eu vou tomar uma cerveja e depois 
vou votar, você não vai me impedir! (depois de se despedir, ao seu estilo, 
Josineide vai até à urna e fala alguma coisa para o mesário, que balança a 
cabeça negativamente. Em seguida, ela resmunga, olha para o lado e entra no bar 
mais próximo atrás da famigerada cerveja).

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