Eduardo Alexandre <[email protected]> escreveu:                      
                     

              
Por volta do meio-dia de hoje, faleceu, em sua residência, vítima de parada 
cardíaca, o escritor Aroldo Martins, amigo nosso do Beco da Lama.
      O CLARÃO E A SOMBRA                                  


Zuza desasna beócios e os lorpas instigantes são castigados por um decurião de 
maus bofes, caso promovam azáfama e balbúrdia nas salas de aula.
Gothardo Neto, filho do professor, instrui-se no castiço vernáculo, onde a 
pureza e a forma lingüística são a busca maior da perfeição poética. O soneto 
em alexandrinos o atrai. As belas morenas o inspiram. Um amor proibido o 
consome. 
Sorumbático, sai à noite, com seu sari indiano, entre as veredas dos aningais 
que ladeiam o Tissuru, e para além da Cruz da Bica descamba para a Salgadeira,  
lugar de tugúrios, mansarda, botecos pobres, onde, entre tragos, sacia sua 
desdita. É também Zé Fidélis, o poeta das sombras. 
Viram-no para os lados da nossa última tatajubeira – divisa entre Ribeira e 
Rocas – de fraque azul desbotado, botas rotas, chapéu fora de moda, chapinhando 
em poças de lama, uma corda de caranguejos entre os dedos. É Ferreira Itajubá, 
Azinho. 
Vem dos pastoris, das lapinhas, dos fandangos. E seu violão é coberto com 
folhas-de-fladres. Feito de luz, o poeta é a festa maior da cidade. São suas as 
alvadias dunas. São seus os cajueiros e javaris solitários. 
Nessa noite, Azinho está insone e com sede. Quem sabe, nas barracas da Feira do 
Salgado – futura estação ferroviária – não haverá um caritó aceso e um bom copo 
de aguardente?
- Não tenho nenhuma bebida – disse o bodegueiro.
- Bote água na garrafa, fica o gosto – redargüiu Itajubá.
- Não dá mais, poeta: Gothardo Neto passou aqui e já bebeu a lavagem... 
Aningal  

Aroldo Martins

Prosa do Beco
Aroldo Martins

"Natal é um vale branco entre coqueiros
Logo que desce a luz das alvoradas
Vai Barra afora as velas das jangadas
Cessam no rio as trovas dos barqueiros"
Ferreira Itajubá

O poeta nasceu no Beco, ruela por detrás da Vila Odila, vizinha da Vila 
Cremilde. Água de beber a um pulo da Cruz da Bica, dois pinotes do Tissuru, 
tudo tão de perto, fácil alcance. Dealbar dos dias de ontem, pisara a lama 
primeva, atravessando a Praça da Alegria e indo para a Rua Grande em busca do 
lirismo dos quintais pobres.
Beco da Tatajuba, Beco do Engole, Beco do  Buscapé, Beco da Lama. O resto é o 
mundo ingrato, sáfaro, hostil, mundão de ruas esquisitas, de perigosas 
avenidas. O rei dos becos é o Beco da Lama, centro nervoso e geográfico desde o 
começo das primeiras habitações.
Depois do Beco, a pequena Igreja Matriz derreada ante a mágica visão do Potengi 
com suas catraias e seus barcos de mastros gurupés. A colina é a cidade e seus 
limites não vão além da Igreja do Rosário, cujo baldrame repousa nos ossos dos 
pretos escravos; e a Igreja do Galo, sentinela muda a resguardar apenas o 
sossego das moitas.
No Cantão das Gameleiras, os barnabés conversam os últimos assuntos do Império 
de Dom João. Será depois a Praça da Alegria, a dez passos do Beco, atual Praça 
Padre João Maria.
A sagrada jumenta do padre fez xixi no Beco da Lama, batismo muar abençoado 
saecula saeculorum. Pixinguinha pisou no Beco seresteiro e este ficou melódico, 
chorão, cada vez mais carinhoso.
No Royal Cinema, fins do Beco, a sessão só começa quando  DonAna Cascudo chega.
Tal qual muçulmano que visite Meca uma vez na vida, todo natalense deve ir ao 
Beco libertário, Beco pai das ruas do mundo todo.
No Beco da Quarentena não tem lama, mas no Beco da Lama ninguém fica quarenta 
dias sem vê-lo, atravessá-lo, atraído por sua estreiteza, espremido que é entre 
calçadas e platimbandas.
Becodalamenses: para todos, a Jitanjáfora favorita do Príncipe do Tirol: Larin! 
Toré! Babá!



  Madama Baticum
  Aroldo Martins


   
  Tontas iaiás balouçam os corpos revoltosos num rendilhado de saias 
alvoroçadas, multicoloridas, num ritmo de tantãs atordoando os enfeitiçados. 
  Os atabaques percutem em estonteante pulsação, mesmerizando as iaôs 
dançarinas - algumas, manifestadas, desatando a rir em achaques e tremeliques - 
ululando ao léu, noivas de uma lua em sombrio e tenebroso minguante.
  Um mão-de-faca acende bugias. O terreiro reluz na penumbra num bruxuleio 
misterioso de flamas dispersas, entre sombras escondidas.
  Longe, doce e harmoniosa corimba é entoada, enquanto atravessas com mavioso 
canto o espesso negrume dos incensos, os olhos estranhamente luzidios 
fulgurando na meia  escuridão.
  Albina, gema do Areal, dona de perfumadas noites de macumba, rainha dos 
encantados hotentotes, maga da indiara cabocla, é bem-vinda mãe. 
  Senhora dos seres dos mares, conselheira da mãe-d’água, tu que abafas o silvo 
da pérfida caninana, livra-nos da besta-fera, afasta-nos dos hodiernos miasmas 
da Ribeira.
  Se, num teu pesadelo, ao vislumbrares, em soturna noite de trovoadas no 
Refoles, um vulto chagado cavalgando uma mula-sem-cabeça e que, em disparada, 
uiva, paralisando as ostras, gorando as ninhadas dos pequeninos maçaricos, 
manda-o de volta para a aldeia, mãe: aquele é o calunga de Zé Pretinho, nosso 
primeiro enforcado oficial.
  Mas, se em tua mansuetude dormitas entre nuvens e em lindos sonhos  avistares 
um caboclo velho soprar volutas de um boró, provocando o panapaná das 
borboletas; colher a dália e; espantar a osga cantarolando a música do 
primitivo gentio, traze-o, mãe, faz ogã de mim, cambone teu, e desce, Albina, 
baixa nesse povo que te ama aquele que mexeu com catimbó; aquele que tudo sabe, 
faz e acontece, esse buliçoso e serelepe Zé Pilintra de marca maior: o encosto 
de Cascudo.


PÂNDEGA TANTÃ


Zé do Rojão arregalava os olhos remelentos do excesso da luz dos dias e das 
noitadas de pandeiro e traquinagens, aluado de si, sem saber ao certo onde 
dormira nem ter porventura uma lembrança nítida do beréu que se metera. No 
bolso, um trocado que mal dava para pagar o pernoite e, mais ali adiante, um 
gargarejo demorado em meio copo de cachaça para ajudar a tirar o bafo e  limpar 
garganta afora goela dentro, enganando assim a fome e o cansaço enquanto ficava 
zonzo e renovado na alegria dos truques e das mutretas que o paletó escondia, 
que a voz fraca imitava, que o corpo mole fazia.

Mais uma e dê cá outras, no entremeio da bicada paga aqui pelo estudante ou de 
uma saideira oferecida lá pelo distinto do canto, o recinto já bem animado na 
prosa com zinebra e tira-gosto de papel, o saltimbanco dos becos, o temido 
imoral das donzelas caprichava nas piadas gordamente apimentadas de 
enxerimentos e más intenções, um dengo acanalhado no começo e outro pior no 
fim, o senhor dos gracejos se esmerando em gaiatas contorções de escarninho, um 
rubor indiscreto atingindo velhos, moças e sinhás, o Baixo-Calão expulso do 
ambiente, recolhendo maus augúrios e reprovações dos presentes, se despedindo 
descaradamente com a mais gaiteira voz saída das trôpegas e bêbadas cordas 
vocais: Prazer que me já dão! Até outra!


Aroldo Martins


Cajueiros e javaris solitários
  Zuza desasna beócios e os lorpas instigantes são castigados por um decurião 
de maus bofes, caso promovam azáfama e balbúrdia nas salas de aula.
   
  Gothardo Neto, filho do professor, instrui-se no castiço vernáculo, onde a 
pureza e a forma lingüística são a busca maior da perfeição poética.  O soneto 
em alexandrinos o atrai.  As belas morenas o inspiram.  Um amor proibido o 
consome.   
   
  Sorumbático, sai à noite, com seu sari indiano, entre as veredas dos aningais 
que ladeiam o Tissuru, e para além da Cruz da Bica descamba para a Salgadeira, 
lugar de tugúrios, mansarda, botecos pobres, onde, entre tragos, sacia sua 
desdita. É também Zé Fidélis, o poeta das sombras. 
   
  Viram-no para os lados da nossa última tatajubeira – divisa entre Ribeira e 
Rocas – de fraque azul desbotado, botas rotas, chapéu fora de moda, chapinhando 
em poças de lama, uma corda de caranguejos entre os dedos. É Ferreira Itajubá, 
Azinho.  
    
  Vem dos pastoris, das lapinhas, dos fandangos.  E seu violão é coberto com 
folhas-de-fladres.  Feito de luz, o poeta é a festa maior da cidade. São suas 
as alvadias dunas.  São seus os cajueiros e javaris solitários. 
   
  Nessa noite, Azinho está insone e com sede.  Quem sabe, nas barracas da Feira 
do Salgado – futura estação ferroviária – não haverá um caritó aceso e um bom 
copo de aguardente?
   
  - Não tenho nenhuma bebida – disse o bodegueiro.
   
  - Bote água na garrafa, fica o gosto – redargüiu Itajubá.
   
  - Não dá mais, poeta. Gothardo Neto passou aqui e já bebeu a lavagem... 
   
  Aroldo Martins          

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