05/05/2009 - 08:08 | Atualizada em: 05/05/2009 às 08:08 por Sérgio Vilar Eleições movimentam Beco da Lama; confira entrevista com diretor da Samba Rafael Duarte/Divulgação
O Beco da Lama é rua sem vontade de avenida. E talvez pela simplicidade de essência se dispa do estigma de galinha e voe as alturas da águia. Consegue o barulho necessário aos ouvidos da província. A eleição para a nova diretoria da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (Samba), na última sexta-feira, trouxe até parlamentar de Brasília para votação na Cidade Alta. São Pedro segurou a chuva. E Deus esperou mais um dia para levar um dos personagens mais enigmáticos daqueles chãos, o filósofo das ruas José Helmut Cândido, 76. Tudo para que a contagem dos votos transcorresse nas mais civilizada guerra comumente presenciada naquele território boêmio. Não fossem poucos os espaços na mídia nas últimas semanas, os becodalamenses elegem Lula presidente (não o Luís Inácio, da República proclamada após uma quartelada, mas o Augusto Luís, da Samba). Foram 93 votos para a chapa Nós do Beco contra os 63 conquistados pela chapa Acorda Samba, encabeçada pelo produtor cultural e poeta Eduardo Alexandre, o Dunga. Dos 158 votantes, dois chapados anularam os votos (leia-se chapados como admiradores das duas chapas, ambas formadas por poetas, professores, artista plástico, produtores culturais, jornalistas, médicos, e outros profissionais liberais, libertários). Já no dia anterior começa a boca de urna; o beco diuturno entre em ação. Ligações sequenciais aos becodalamenses inscritos no chamado Livro Preto - de coloração cinza desbotado - ocorrem durante todo o dia. À noite, no Bardallos, os ânimos esquentam entre representantes das duas chapas. E o Beco volta ao status de galinha de voos baixos. A temperatura indicava dia quente para o dia seguinte. Mas a sexta-feira, Dia do Trabalho, foi mais ameno. O único ensaio de pugilato foi travado na adjacência mais tradicional do Beco, no Bar de Nazaré. Os dois candidatos à presidência da entidade, cerca de uma hora e meia antes da contagem, trocaram farpas. Nada muito além de acusações de rejeição. Mais à frente, onde o Beco é mais beco, próximo ao Bar de Nazi, a concentração maior de boêmios. Era local da urna, ou de um quase alforje lacrado com cadeado. Quem aparecesse na hora era cercado pela tentativa de convencimento. Tudo na santa democracia e a espera de um chorinho que nunca começava. Os ânimos subiram mesmo quando a ‘‘urna’’ seguiu para o Bardallos às 17h, seguida por uma procissão, cortejo ou coisa parecida. Era o fim da votação. No bar de Lula (não os barbudos da República ou da Samba, mas o Belmont, do Bardallos), o tumulto foi formado. A comissão eleitoral formada pelo produtor Júlio César Pimenta, o poeta Cefas Carvalho e o professor Hélio Marques fugiram para a cozinha do restaurante/bar para, primeiro, jantarem após um dia sem comida nem arte. Na bancada de entrada da cozinha, muita gritaria. Dois representantes de cada chapa (apesar de a comissão eleitoral ser mista) acompanharam o jantar da comissão como provas comprobatórias da lisura do pleito. Pontualmente às 18h - hora marcada para início da contagem - a comissão, já no salão do bar e cercado de becodalamenses ávidos, iniciam a apuração dos votos. Os dois primeiros votos para a Acorda Samba acenderam esperanças vis. Aos poucos a chapa comandada pelo antigo presidente da entidade, Dunga, adormecia para um sono de mais três anos. Quando se contavam cerca de 80 votos e a diferença entre os dois era de apenas 15, já se comemorava timidamente a vitória. E nem precisava da ciência de Francis Bacon estampada na camisa de Augusto Lula para decifrar: a chapa Nós do Beco era a dona da Samba. No dia seguinte, o folclore do Beco da Lama reaparece pomposo nas comemorações da vitória. O Presidente (da Samba) informa que recebeu telefonema da ministra Dilma Rousseff que, mesmo combalida pelo câncer, parabenizou a vitória e prometeu incluir os projetos culturais da Samba no PAC. Os buxixos contam que Lula (o tomador de run, não o de cachaça) se vendeu ao PT para, em alguma data destes próximos três anos, trazer o companheiro homônimo e menos importante aos chãos enlameados do Beco. A meladinha de Nazaré foi o principal argumento para o presidente (sim, o da República) aceitar o convite. O segundo foi a de que o PSTU e o PCdoB estão tomando conta do Beco. A terceira, última e mais evidente, é para estreitar os laços da Samba e a Fundação José Augusto, do petista Crispiniano Neto. Enquanto isso, Lula, o sambista, comemora os louros da vitória junto ao fiel Sancho Pança, Abimael Silva. *“Sou a favor do combate de ideais. Viva o Beco da Lama!” * O Beco da Lama integra as lembranças adolescentes do natalense da gema, Augusto Lula. Ainda menino morou no coração da Ribeira: Rua Nísia Floresta, ainda de quintal de fruteiras voltadas à Tavares de Lyra. Mas foi na adolescência que o rapaz subiu a ladeira até a Cidade Alta. Morou na Rua Felipe Camarão. Entre um gole e outro de caldo de cana orós, o rapazote frequentava o Cinema Nordeste, o Bar de Nazi, Odete, Ploc, Gimmi Lanche, Cinderela, Balalaika, 664, Zoom Bar e outros points impublicáveis. A paixão pelo cinema o fez autodidata na área áudio visual. A publicidade foi o meio mais curto para chegar à sétima arte. Já aos 21 anos produzia a primeira campanha para a televisão. Hoje é convidado especialmente para campanhas de marketing político. A alcunha de cineasta sem filme é inverídica. Augusto Lula realizou alguns vídeos autorais, como Ribeira Velha de Guerra e Senhora e Poço Festim Mosaico. Desbocado, apreciador de Run com Coca-cola, este é o Augusto Lula, novo diretor executivo da Samba. *Diário de Natal - O que representa o Beco da Lama pra você?* Augusto Lula - Representa talvez um pouco de saudosismo da minha adolescência pela Felipe Camarão e adjacências e dos fantasmas que por lá circularam e que representa ainda o jeito interiorano desta cidade cosmopolita. As pessoas caminham de um lugar para o outro, vão ao mercadinho, ao sapateiro, ao salão de beleza e ainda tomam uma cerveja em pé, no balcão. O beco e suas adjacências, do mesmo modo que é saudosista, é paradoxalmente underground e não se espanta com seus múltiplos visitantes de todas as matizes. *Desde sempre o Beco é esta representação que você imagina ou mudou de uns tempos pra cá?* O Beco e a vida são mutantes. Tenho saudades do futuro. *Antes da Samba a paz e a boemia reinavam no Beco. Há realmente necessidade desta entidade para mediar projetos culturais e a revitalização daquelas adjacências?* É preciso revitalizar Natal, não apenas o Beco e suas Adjacências. Sérgio, você precisava ter visto briga. Já fui protagonista de algumas, bem como espectador de outras. Pacificador, que eu me lembre, poucas vezes fui. Não foi a criação da Samba que originou intrigas e acusações. Estas sempre existiram, só que os palanques eram pequenos círculos de mesa de bar. Como a Samba abriga toda a fauna bequiana, apenas aglutinou essas tendências e, ‘‘facções’’ foram se juntando ou se afastando - um fenômeno sociológico comum na formação e engrandecimento de um grupo. Como o QI mais alto da capital potiguar está contido nos associados da Samba, espero que usemos a inteligência para fazer dela maior do que já é. Nossa sociedade é composta de pessoas altamente capacitadas, bem informadas, criativas e é preciso que nos desarmemos para fortalecê-la. *Ele realmente precisa existir?* O próprio processo eleitoral provou que ela é importante. Até porque ela detém um conjunto de cidadãos oriundos de outros bairros da cidade (até de outras cidades) que querem e desejam chamar a atenção para aquele pedaço de chão, que em qualquer lugar do mundo já teria todo o seu conjunto, pelo menos como patrimônio material e imaterial, respeitado e estimulado. *O MPBeco e a Feira de Sebos, por exemplo, são iniciativas de sucesso, desvinculadas da Samba, mas promovidas por frequentadores do Beco e no Beco. *A Samba não é apenas uma fazedora de eventos. A Samba é muito mais. Até acho que a Samba poderia ser mais anárquica do que já é. A Feira de Sebo realizada por Abimael, Ramos, Jácio e Vera é grande, ocorre durante uma semana inteira; leva ao Beco e adjacências um outro público, do mesmo jeito que o MPBeco, realizado por Dorian (Lima) e (Júlio César) Pimenta. Embora, penso, que não teriam o mesmo sucesso se fossem realizados fora daquele conjunto arquitetônico, cultural e humano. *Como seria o Beco sem a Samba?* Seria o Beco. Talvez sem tanta visibilidade e talvez visto com muito mais preconceito do que hoje é visto. *Alguns projetos como o Pratodomundo e o Carnabeco estão consolidados. O que esta nova gestão pretende trazer de novo e aproveitar das administrações anteriores? Quais as primeiras ações? O grupo de samba Arquivo Vivo há tempos luta por um espaço naquelas adjacências. Eles estão inclusos em algum projeto? *Nós somos a favor de tudo que seja a favor do Beco da Lama e adjacências. Prefiro o arquivo vivo que o arquivo morto. Todo e qualquer projeto que venha a acrescentar, nós da Samba vamos estimular e apoiar. Os projetos já estão fervilhando, mas primeiro precisamos tomar posse (data marcada para este sábado) e encontrar um local para que a Samba possa, pelo menos, guardar seus documentos. Vamos convocar uma assembléia para propor e ouvir o que os outros sócios têm para contribuir tanto no processo de criação como de execução de projetos e tarefas. *O Nós do Beco, capitaneado por Zizinho, me parece o início de outra Sociedade, já com seus projetos próprios. Zizinho agora faz parte desta diretoria. Os projetos serão integrados a partir de agora, ou a participação de Zizinho se restringirá ao de Conselheiro Fiscal? *Zizinho é o Number One do Livro Preto; foi o fundador e um dos mais antigos a votar nesta eleição. Zizinho não foi cabeça de chapa porque não quis. Ele poderia escolher o que ele achasse por bem. Nós propusemos diversas vezes que ele fosse o candidato. Nós o apoiaríamos. A resposta que ele deu ao nosso grupo era de que já tinha feito a sua parte e está onde escolheu. Porém, temos compromissos históricos com Zizinho e outros fundadores. E como ele mesmo dizia na conquista dos votos: ‘‘venha, fulano, votar. Estou eu, Zacarias...’’. É um pouco da velha guarda da Samba. E é com muito orgulho que o tenho como aliado. Depois do seu mandato, esta é a primeira vez que ele compõe uma chapa. E não é porque ele seja um conselheiro fiscal que não vamos respeitar e ouvir. Quem ganhou foi uma chapa e não apenas um nome. Por isso, desejo que todos os mais de 150 eleitores do dia primeiro de maio façam a Samba. *Qual sua relação com os comandantes das duas fundações culturais (Capitania e Fundação José Augusto)? Você espera contar com eles para ajudar a promover projetos culturais? *A relação não é minha, é da Samba. Penso que tanto a Capitania quanto a Fundação são a favor do Beco e das Adjacências. A Samba é uma entidade. Eu serei passageiro nesse processo e meu dever será fortalecê-la. *O que você achou do processo de eleição e do dia da eleição? Você acha que deve haver mudanças neste processo eleitoral para a próxima eleição?* A eleição passou. O bom debate vai continuar. Sem baixarias. Sou a favor do combate de ideias. Viva a lama.
